O irresistível movimento popular que levou a sedição até Versalhes fez soar o dobre de finados pela monarquia dos Bourbons.
Turgot é substituído por Necker
Sob pressão, Luís XVI é obrigado a demitir Anne Robert Jacques Turgot em 1776, menos de dois anos após subir ao cargo. Jacques Necker (1732-1804), economista e político suíço do século XVIII, o sucederia, em 1778.
Jacques Necker foi em três ocasiões encarregado da economia da monarquia francesa pelo rei Luis XVI: em 1776, 1788 e 1789.
A ascensão de Necker contou com o apoio ativo dos frequentadores do salão de Madame Necker (no qual se reuniam, até então, alguns dos intelectuais mais destacados do Iluminismo, como Diderot e D'Alembert) e, de maneira mais ampla, do partido filosófico, do qual Necker tomou várias de suas doutrinas.
Necker obtém ainda o apoio de Jean-Frédéric Phélypeaux, conde de Maurepas e principal conselheiro de Luis XVI, por intermédio do marquês de Pezay, amante da Madame de Montbarrey, amiga íntima da Madame de Maurepas, e da prima do ministro, a duquesa de Enville.
O bramir da cólera e do ódio
As jornadas de 5 e 6 de outubro de 1789...
Longe da capital, no magnífico palácio construído pelo Grande Rei, a Corte não ouvia o surdo bramir da cólera e do ódio, e acreditava estar ao abrigo das desordens e agitações que pudessem abalar a grande cidade.
Mas o vento de procela que soprava sobre Paris, no começo de outubro de 1789, ia derrubar tudo e romper às grades do palácio que, havia mais de um século, era a moradia dos reis da França.
As instituições que tinham sido a força e a grandeza da França seriam varridas pela tormenta.
É em Versalhes que se desenrola um dos episódios mais importantes do drama revolucionário. A pessoa do rei Luís XVI, até então inviolável e respeitada, vai receber o primeiro e sério golpe.
Transportemo-nos ao palácio real que a generosidade de um americano, amigo da França, salvou da ruína...
Versalhes é o prisma da monarquia absoluta, onde "aquele que não esperava" deixou para sempre a luz do seu sol.
Assim o decidiu a opinião geral, com o poeta dos Degraus de mármore rosado.
Acontecimentos decisivos da história da França receberam na Galeria dos Espelhos sanções inesquecíveis. Diante dos lagos e das massas de árvores, as personagens mais ilustres tentaram transformar a fisionomia do mundo. O futuro dirá se o conseguiram. Mas não puderam afugentar um fantasma. O palácio de Versalhes continuará a ser a morada do grande rei e o templo da monarquia absoluta.
Nascido dum capricho e dum temor – o temor da morte, evocada em Saint-Germain-en-Laye pela visão distante dos túmulos de Saint-Denis, ou o temor da capital agitada pela Fronda, de que o jovem rei guardara cruel lembrança – o palácio foi construído por um monarca que tinha o instinto da grandeza, o gosto do fausto e o dom do magnífico.
Para compreendermos as horas trágicas dos dias 5 e 6 de outubro de 1789, recordemos os acontecimentos longínquos que precederam e determinaram a agonia da monarquia francesa.
A tormenta não estala nunca
num céu sem nuvens.
A rebelião é produzida por uma série de acontecimentos que a preparam e desencadeiam.
O palácio de Versalhes, atravancado de cortesãos e servidores, vira passar, sob Luís XIV, a rainha tantas vezes enganada e o cortejo ininterrupto das amantes do grande rei, acompanhadas freqüentemente de seus bastardos legitimados e convertidos em príncipes de sangue: a doce e terna Luisa de la Vallière, a linda capenga; a altaneira e temível Athénais de Montespan, cúmplice da Voisin; a terrível e delambida Mme Scarron, mais tarde Marquesa de Maintenon, a esposa morganática, a "velha rameira", como a chamava a feroz Palatina.
O Duque de Saint-Simon, acaçapado na sua trapeira de fâmulo, vertendo no tinteiro o seu fel, nele molhava todas as noites a pena , como em vitríolo, para pintar nas suas memórias imortais as extravagâncias, as ridicularias e os vícios da Corte de Versalhes. Era um cortesão de gênio, que se consolava da servidão, registrando para a posteridade os defeitos de seus senhores.
Os escândalos tinham avultado durante a Regência (1715-1723). No Palais-Royal, Philippe II, duque de Orléans, seus companheiros de libertinagem e suas amantes tinham menos grandeza e circunspeção do que Luís XIV na sua Versalhes.
Luís XV acrescentara algumas páginas perigosas ao livro de contabilidade da monarquia. 0 passivo se avolumara e o ativo diminuíra.
Por fim, Luís XVI viera colher o fruto da má semente lançada por seus predecessores...
O inocente ia pagar os pecados de seus avôs. 0 homem virtuoso, de intenções puras e retas, ia ser ferido pelo cego furor popular, no momento em que se esforçava por dar às aspirações de seus súditos legítimas satisfações.
Muitos franceses contemporâneos têm certa dificuldade em recordar que também Luís XVI viveu no palácio de Versalhes, no meio duma corte brilhante; que, ao cair duma tarde de outubro, em que perseguira um cervo nos bosques vizinhos, ele próprio foi encurralado no palácio pela Revolução nascente; que lá passou horas trágicas no dia seguinte que prenunciavam já as do Templo; que divisou, ao deixar uma poça de sangue ao pé da escada de mármore.
Voltemo-nos para esse passado doloroso. Por um entardecer de outono, todo um regime chega a seu final. A monarquia absoluta morre no momento em que já não é senão uma sombra.
Um mês antes dos acontecimentos que vamos relatar, o feitor-geral Augeart encontrava nos jardins das Tulherias um amigo de Marie-Joseph Paul Yves Gilbert Du Motier (1757-1834), mais conhecido como marquês de La Fayette, Dussaulx, membro da Comuna.
– “A situação não se consolidará – disse Dussaulx – enquanto o rei não morar neste palácio... A residência dum rei deve ser na sua capital.”
– “Tem razão – respondeu Augeart – mas quem, nos seus Estados, terá o direito de obrigá-lo a residir aqui?”
– “Quando se trata do bem de todos – respondeu Dussaulx – é preciso forçá-lo a isso, e é o que vai acontecer.”
Esse curioso pressentimento, que se devia realizar de modo tão impressionante na noite de 6 de outubro, traduzia um estado de espírito cujas causas é preciso procurar.
A principal, a mais imediata, é a miséria. A França , há dez anos, sofria uma escassez permanente. Como a maior parte dos invernos que deixaram uma lembrança trágica na historia francesa, o de 1789 foi extremamente rigoroso. O mesmo clamor de angústia retumba em todo o país: "Pão!"
A revolução está em marcha,
pois é filha da miséria!
Trezentos motins precederam a jornada de 14 de julho, que marcou a primeira explosão do ressentimento popular.
As províncias do Norte estão completamente dominadas pela fome. Não há celeiro que não esteja devastado. As mulheres, enfurecidas, abrem a tesoura os sacos de farinha. Jamais o comércio de cereais foi uma coisa tão perigosa! Os panfletos circulam, excitando a multidão, com títulos assim: "Quando teremos pão?"
Os que têm a sorte de conseguir pão, depois de longas horas de espera diante das padarias guardadas por soldados, declaram-no intragável. Em Sens, "ele tem gosto de mofo". Nos arredores de Paris, "o centeio, quase todo carunchado, produz mais farelo do que farinha".
A colheita, contudo, foi abundante. Por que aumenta, todos os dias, o preço do pão? O povo de Paris tem fome, e, com a imaginação trabalhada pela angústia, acredita que uma vasta conspiração é urdida pelos aristocratas e pelo clero, que eles retêm os comboios de cereais e monopolizam a farinha...
O especulador
Jean-Sylvain Bailly (1736-1793), astrônomo e político francês (futuro marechal na Revolução Francesa), que passa as noites na sua Comissão de Abastecimento, enquanto o marquês de Lafayette (general na Revolução Francesa) dá ordens às patrulhas, conhece bem a verdade.
Ouviu rondar esse homem invisível que trafica nas épocas de crise: o especulador.
Sabe que a exportação de cereais, severamente proibida, prossegue com uma atividade estimulada pelos prêmios que se concedem à importação.
E não ignora também que, por temerem a contra-revolução, os camponeses guardam as colheitas.
Na província, não somente se pilham e devastam os celeiros, como também se incendeiam as mansões senhoriais.
É uma verdadeira "Jacquerie" (revolta dos camponeses, em 1358, contra os nobres) que ressurge.
Bandos armados, aproveitando a desordem geral, entregam-se às piores depredações.
Esse movimento foi denominado o Grand Peur.
Os soldados desertam: não há com que os alimentar.
As guardas francesas – tropa de escol –que abandonaram o serviço do palácio, faz-se notar durante os acontecimentos da Bastilha pelo seu ardor sanguinário.
Em dois meses, expedem-se duzentos mil passaportes. Os nobres emigram, arruinando todo um comércio que lhes alimentava os prazeres. O dinheiro segue o mesmo caminho e o numerário se torna raro. A desocupação é geral.
Acabam de criarem-se, em Paris, oficinas nacionais: as oficinas de caridade, para dar trabalho a cento e vinte mil desempregados. Nem por isso se tornam menos freqüentes os ajuntamentos, que precediam os motins. Jean-Sylvain Bailly confessa que se alegrava com "os dias de chuva".
A situação financeira é lamentável. O déficit (um déficit que hoje nos faria rir) é de cinqüenta e cinco milhões de libras. Os impostos são opressivos e arbitrários. O regime fiscal destrói a França, provoca o desemprego, o marasmo dos negócios, o descontentamento geral.
Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.














