1 de jan. de 2013

REVOLUÇÃO FRANCESA: 09/17 // A agonia do Antigo Regime


A agonia do Antigo Regime

O irresistível movimento popular que levou a se­dição até Versalhes fez soar o dobre de finados pela monarquia dos Bourbons.

Turgot é substituído por Necker

Jacques Necker
     Sob pressão, Luís XVI é obrigado a demitir Anne Robert Jacques Turgot em 1776, menos de dois anos após subir ao cargo. Jacques Necker (1732-1804), economista e político suíço do século XVIII, o sucederia, em 1778.

     Jacques Necker foi em três ocasiões encarregado da economia da monarquia francesa pelo rei Luis XVI: em 1776, 1788 e 1789.

     A ascensão de Necker contou com o apoio ativo dos frequentadores do salão de Madame Necker (no qual se reuniam, até então, alguns dos intelectuais mais destacados do Iluminismo, como Diderot e D'Alembert) e, de maneira mais ampla, do partido filosófico, do qual Necker tomou várias de suas doutrinas.

Suzanne Curchod, esposa de Necker
     Em Elogio de Colbert, Necker criticou duramente a propriedade, à qual acusava, seguindo a linha de Jean-Jacques Rousseau, de não ser um direito natural, senão uma "lei humana" baseada em um "tratado de força e de coação"; além disso, justifica a religião pelo papel social que desempenha, e só reconhece a necessidade da moral "para conter o povo" e a superioridade da moral cristã por ser a "única capaz de convencer rapidamente, já que comove ao mesmo tempo em que ensina".

    Necker obtém ainda o apoio de Jean-Frédéric Phélypeaux, conde de Maurepas e principal conselheiro de Luis XVI, por intermédio do marquês de Pezay, amante da Madame de Montbarrey, amiga íntima da Madame de Maurepas, e da prima do ministro, a duquesa de Enville.

O bramir da cólera e do ódio
     As jornadas de 5 e 6 de outubro de 1789...

Palácio de Versalhes
Vista da Praça das Armas
     Longe da capital, no magnífico palácio construído pelo Grande Rei, a Corte não ouvia o surdo bramir da cólera e do ódio, e acreditava estar ao abrigo das desordens e agitações que pudessem abalar a grande cidade.

     Mas o vento de procela que soprava sobre Paris, no começo de outubro de 1789, ia derrubar tudo e rom­per às grades do palácio que, havia mais de um século, era a moradia dos reis da França.

     As instituições que tinham sido a força e a gran­deza da França seriam varridas pela tormenta.

     É em Versalhes que se desenrola um dos episódios mais importantes do drama revolucionário. A pessoa do rei Luís XVI, até então inviolável e respeitada, vai receber o primeiro e sério golpe.

     Transportemo-nos ao palácio real que a genero­sidade de um americano, amigo da França, salvou da ruína...

Palácio de Versalhes - Salão dos Espelhos
     Versalhes é o prisma da monarquia absoluta, onde "aquele que não esperava" deixou para sempre a luz do seu sol.

     Assim o decidiu a opinião geral, com o poeta dos Degraus de mármore rosado.

     Acontecimentos decisivos da história da França rece­beram na Galeria dos Espelhos sanções inesquecíveis. Diante dos lagos e das massas de árvores, as perso­nagens mais ilustres tentaram transformar a fisiono­mia do mundo. O futuro dirá se o conseguiram. Mas não puderam afugentar um fantasma. O palácio de Versalhes continuará a ser a morada do grande rei e o templo da monarquia absoluta.

Cidade de Saint-Germain-en-Laye
      Nascido dum capricho e dum temor – o temor da morte, evocada em Saint-Germain-en-Laye pela visão distante dos túmulos de Saint-Denis, ou o temor da capital agitada pela Fronda, de que o jovem rei guar­dara cruel lembrança – o palácio foi construído por um monarca que tinha o instinto da grandeza, o gosto do fausto e o dom do magnífico.

     Para compreendermos as horas trágicas dos dias 5 e 6 de outubro de 1789, recordemos os acontecimen­tos longínquos que precederam e determinaram a ago­nia da monarquia francesa.

A tormenta não estala nunca
 num céu sem nu­vens.

     A rebelião é produzida por uma série de aconte­cimentos que a preparam e desencadeiam.

A Família de Luís XIV
     O palácio de Versalhes, atravancado de cortesãos e servidores, vira passar, sob Luís XIV, a rainha tan­tas vezes enganada e o cortejo ininterrupto das aman­tes do grande rei, acompanhadas freqüentemente de seus bastardos legitimados e convertidos em príncipes de sangue: a doce e terna Luisa de la Vallière, a linda capenga; a altaneira e temível Athénais de Mon­tespan, cúmplice da Voisin; a terrível e delambida Mme Scarron, mais tarde Marquesa de Maintenon, a esposa morganática, a "velha rameira", como a cha­mava a feroz Palatina.

Duque de Saint-Simon
     O Duque de Saint-Simon, acaçapado na sua tra­peira de fâmulo, vertendo no tinteiro o seu fel, nele molhava todas as noites a pena, como em vitríolo, pa­ra pintar nas suas memórias imortais as extravagâncias, as ridicularias e os vícios da Corte de Versalhes. Era um cortesão de gênio, que se consolava da servidão, registrando para a posteridade os defeitos de seus senhores.

     Os escândalos tinham avultado durante a Regência (1715-1723). No Palais-Royal, Philippe II, duque de Orléans, seus companheiros de libertinagem e suas amantes tinham menos grandeza e circunspeção do que Luís XIV na sua Versalhes.

     Luís XV acrescentara algumas páginas perigo­sas ao livro de contabilidade da monarquia. 0 pas­sivo se avolumara e o ativo diminuíra.

Luís XVI
     Por fim, Luís XVI viera colher o fruto da má se­mente lançada por seus predecessores...

     O inocente ia pagar os pecados de seus avôs. 0 homem virtuoso, de intenções puras e retas, ia ser ferido pelo cego furor popular, no momento em que se esforçava por dar às aspirações de seus súditos legítimas satisfações.

     Muitos franceses contemporâneos têm certa difi­culdade em recordar que também Luís XVI viveu no palácio de Versalhes, no meio duma corte brilhan­te; que, ao cair duma tarde de outubro, em que per­seguira um cervo nos bosques vizinhos, ele próprio foi encurralado no palácio pela Revolução nascente; que lá passou horas trágicas no dia seguinte que prenunciavam já as do Templo; que divisou, ao dei­xar uma poça de sangue ao pé da escada de mármore.

     Voltemo-nos para esse passado doloroso. Por um entardecer de outono, todo um regime chega a seu final. A monarquia absoluta morre no momento em que já não é senão uma sombra.

Jardins das Tulherias
     Um mês antes dos acontecimentos que vamos relatar, o feitor-geral Augeart encontrava nos jardins das Tulherias um amigo de Marie-Joseph Paul Yves Gilbert Du Motier (1757-1834), mais conhecido como marquês de La Fayette, Dussaulx, membro da Comuna.

     – “A situação não se consolidará – disse Dus­saulxenquanto o rei não morar neste palácio... A residência dum rei deve ser na sua capital.”

     – “Tem razão – respondeu Augeartmas quem, nos seus Estados, terá o direito de obrigá-lo a residir aqui?”

     – “Quando se trata do bem de todos – respondeu Dussaulxé preciso forçá-lo a isso, e é o que vai acontecer.”

     Esse curioso pressentimento, que se devia reali­zar de modo tão impressionante na noite de 6 de ou­tubro, traduzia um estado de espírito cujas causas é preciso procurar.

     A principal, a mais imediata, é a miséria. A França, há dez anos, sofria uma escassez permanente. Como a maior parte dos invernos que deixaram uma lembrança trágica na historia francesa, o de 1789 foi extremamente rigoroso. O mesmo clamor de angús­tia retumba em todo o país: "Pão!"

A revolução está em marcha,
pois é filha da mi­séria!

Queda da Bastilha
     Trezentos motins precederam a jornada de 14 de julho, que marcou a primeira explosão do ressenti­mento popular.

     As províncias do Norte estão completamente do­minadas pela fome. Não há celeiro que não esteja de­vastado. As mulheres, enfurecidas, abrem a tesoura os sacos de farinha. Jamais o comércio de cereais foi uma coisa tão perigosa! Os panfletos circulam, excitando a multidão, com títulos assim: "Quando tere­mos pão?"

     Os que têm a sorte de conseguir pão, depois de longas horas de espera diante das padarias guarda­das por soldados, declaram-no intragável. Em Sens, "ele tem gosto de mofo". Nos arredores de Paris, "o centeio, quase todo carunchado, produz mais fare­lo do que farinha".

     A colheita, contudo, foi abundante. Por que au­menta, todos os dias, o preço do pão? O povo de Pa­ris tem fome, e, com a imaginação trabalhada pela an­gústia, acredita que uma vasta conspiração é urdida pelos aristocratas e pelo clero, que eles retêm os com­boios de cereais e monopolizam a farinha...

O especulador

Jean-Sylvain Bailly
     Jean-Sylvain Bailly (1736-1793), astrônomo e político francês (futuro marechal na Revolução Francesa), que passa as noites na sua Comissão de Abastecimento, enquanto o marquês de Lafayette (general na Revolução Francesa) dá ordens às pa­trulhas, conhece bem a verdade.

     Ouviu rondar esse homem invisível que trafica nas épocas de crise: o es­peculador.

     Sabe que a exportação de cereais, severamente proibida, prossegue com uma atividade esti­mulada pelos prêmios que se concedem à importação.

     E não ignora também que, por temerem a contra-revolução, os camponeses guardam as colheitas.

Jacquerie
     Na província, não somente se pilham e devastam os celeiros, como também se incendeiam as mansões senhoriais.
     É uma verdadeira "Jacquerie" (revolta dos camponeses, em 1358, contra os nobres) que ressurge.



Grand Peur
     Bandos armados, aproveitando a de­sordem geral, entregam-se às piores depredações.
     Es­se movimento foi denominado o Grand Peur.
     Os soldados desertam: não há com que os ali­mentar.
     As guardas francesas – tropa de escol –que abandonaram o serviço do palácio, faz-se no­tar durante os acontecimentos da Bastilha pelo seu ardor sanguinário.
Consequencias da Queda da Bastilha
     Em dois meses, expedem-se duzentos mil passa­portes. Os nobres emigram, arruinando todo um co­mércio que lhes alimentava os prazeres. O dinheiro segue o mesmo caminho e o numerário se torna raro. A desocupação é geral.

     Acabam de criarem-se, em Pa­ris, oficinas nacionais: as oficinas de caridade, para dar trabalho a cento e vinte mil desempregados. Nem por isso se tornam menos freqüentes os ajuntamen­tos, que precediam os motins. Jean-Sylvain Bailly confessa que se alegrava com "os dias de chuva".

     A situação financeira é lamentável. O déficit (um déficit que hoje nos faria rir) é de cinqüenta e cinco milhões de libras. Os impostos são opressivos e arbitrários. O regime fiscal destrói a França, provoca o desemprego, o marasmo dos negócios, o descontentamento geral.

Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.