1 de jan. de 2013

REVOLUÇÃO FRANCESA: 05-17 // O caráter "fraco" do Delfim



Baile de Máscara (Filme "Maria Antonieta")
     Os festejos do Casamento do Delfim da França com Maria Antonieta da Áustria prosseguiram com uma série de bai­les de máscaras e a fantasia, sendo que o último, des­lumbrante, foi oferecido pela embaixada da Espanha.

     Houve também outras representações teatrais, mais bem sucedidas que a de Perseu, especialmente uma féerie de grande espetáculo, La Tour Enchantée, a Athalie de Racine, interpretada pela ilustre MIle Clairon, e a Semíramis de Voltaire, em que MIle du Mesnil recebeu viva consagração pessoal.
    
Espetáculos de Fogos de Artifício
     Todavia, a série de festas terminou, desgraçadamente, de maneira trágica.

Praça Luís XV, hoje Praça da Concórdia
     Para o dia 30 de maio, Paris organizara feste­jos populares em homenagem ao casamento.

     A Delfi­na devia comparecer.

     O programa compreendia fogos de artifício, os inevitáveis fogos de artifício que ins­piraram a Marchand, advogado do Marais, este estribilho que fez furor:

     Et nons aurons un temps propice
      Pour les so, pour les so...
      Pour les soleils d'artifice.”
      (“E teremos tempo propício para os só... para os só... para os sóis de artifício.”)

     Além dos fogos queimados na Praça Luís XV, diante das Tulherias (hoje Praça da Concórdia), ha­via luminária nos grandes bulevares, em que se ha­viam instalado barracas de feira, e onde se realiza­vam bailes públicos, com fontes de vinho e distribui­ção de pão e carne ao povo.

Rua Royale
     Infelizmente, surgira um conflito de jurisdição, relativo ao serviço de manutenção da ordem, entre o tenente de polícia e o preboste dos mercadores, Bignon, que organizara a festa. Tanto que, chegado o momento, não havia ninguém encarregado desse ser­viço.

   Por imprevidência condenável, a Rua Royale, que ligava a Praça Luís XV aos grandes bulevares, nem sequer fora concluída. Estava pavimentada apenas no centro, tendo os lados ainda cheios de fossos.

Os maus presságios de Himeneu
     Enfim, quis a má sorte que os fogos de artifício, que deviam abrasar simbolicamente o Templo de Hi­meneu, erigido para a festa na Praça Luís XV, o abrasassem realmente. O madeiramento pegou fogo, e as bombas de incêndio enviadas para a sua extin­ção, vieram pela Rua Royale, onde a multidão já se comprimia assustadoramente.

     Haviam-se formado, com efeito, duas correntes contrárias, uma que leva­va o povo dos bulevares para ver os fogos de artifício, outra constituída pelas pessoas que, talvez assus­tadas pelo começo de incêndio, deixavam a Praça Luis XV para ir admirar a iluminação dos bulevares.

     Os carros dos bombeiros acabaram de lançar a confusão e o desvario nessa multidão em desordem. Pessoas caídas nos fossos puseram-se a gritar; um pânico irresistível apoderou-se da maré humana com­pletamente encurralada, batida de um lado pela avalancha que vinha da Praça Luís XV e de outro pe­la que se atirava dos bulevares, flutuando sem en­contrar saída.

     Várias mulheres desmaiaram e foram esmagadas, outras morreram sufocadas. Muitas pes­soas foram atiradas nos fossos e pisoteadas. Cento e trinta e duas vidas pereceram nessa noite trágica, que deveria ser uma noite de alegria e de júbilo po­pular.

O Delfim Luís e Maria Antonieta
     A Delfina, que chegava de Versalhes em carrua­gem, com as filhas do Rei, foi detida no meio do ca­minho pela notícia do horroroso acidente. Conster­nada com essa desgraça, dolorosamente impressiona­da por ter sido a sua causa, longínqua, sem dúvida, e involuntária, ela retrocedeu logo. No dia seguinte, o Delfim e a Delfina enviaram às famílias das víti­mas todo o dinheiro de que podiam dispor.

     O inquérito oficial sobre as responsabilidades do acidente concluiu – como o leitor, por certo, não se espantará de saber – que era devido à fatalidade e que a ninguém se podia atribuir culpa.

     Publicaram-se, então, sobre o doloroso fato, estes versos satíricos duma amargura mordaz:

     Tende cuidado, parisienses,
      Para não serdes esmagados!
      Existe lá justiça em França?
      Ai dos que são despedaçados!
      Por mais que clamem por vingança
      Hão de pagar eles o pato.”

     Foi com esse episódio doloroso e cruel que ter­minaram as festas do casamento da Delfina.

Maria Antonieta estava sempre sozinha no seu quarto.
     Tiveram, pelo menos, o efeito de aturdir e em­briagar Maria Antonieta, de subtraí-Ia um momento às intrigas da Corte e fazê-la sentir de maneira me­nos viva o seu penoso isolamento moral, longe da mãe, da terra natal e do meio familiar em que fora criada.

     A quem poderia, na verdade, confiar as suas an­gústias e pedir afeto e conselhos?

     Ao marido? Ele não o era senão de nome. Esse adolescente desajeitado e tímido, de aspecto tão pou­co sedutor, parecia ter medo de ficar sozinho com ela, e só encontrava prazer na caça.

José II, Sacro Imperador
Romano-Germânico
     José II, o irmão de Maria Antonieta, diria a seu respeito, de modo pitoresco e exato:

     – “Tem algumas noções, tem discernimento, mas é uma apatia tanto de corpo como de espírito. Em su­ma, o fiat lux não veio; a matéria ainda está no caos!”

     Na falta do marido, poderia Maria Antonieta abrir-se com o sogro? Mas Luís XV é uma natureza impenetrável e desconcertante. A sua simples presen­ça intimida e desanima os que lhe vão falar. Os pró­prios filhos não ousam pedir-lhe nada, nem fazer-­lhe confidencias.

     0 Rei é bom, entretanto, e parece procurar sempre agradar os que o rodeiam. Mas dá a impressão de ser extraordinariamente reservado, cioso da independência de sua vida privada, e sempre em guarda contra quem quer que pretenda ter o mínimo direito de fiscalizar-lhe o procedimento.

Madame Campan
     As fi­lhas, que desaprovam a sua ligação com a du Barry, fazem-lhe sentir isso por um silêncio hostil e uma ati­tude contrafeita. Resulta daí, para a família real, um constrangimento frígido que nem toda a graça encantadora de Maria Antonieta consegue dissipar.

     Resta à Delfina a companhia das tias. Mas a única inteligente, agradável e boa, que poderia com­preender e amparar a sua sobrinha, Mme Louise, entrara para o convento carmelita de Saint-Denis, um mês antes da chegada de Maria Antonieta. Quan­to às três outras, o retrato que delas nos dá Mme Campan nada tem que possa seduzir uma menina de quinze anos.

     A mais velha, Mme Adelaide, solteirona pas­sada dos quarenta, desprovida de beleza, é autoritária, arrogante, dominadora, ríspida de caráter como de maneiras. Sua voz é rude e forte, uma voz de comando.

Mme Adelaide
     Mme Adelaide possui força de vontade, personalidade firme e até irascível: não lhe falta senão encanto e inteligência! Inimiga de Choiseul, costumava declarar, aliás, que, se a decisão dependesse dela, não se teria man­dado buscar uma austríaca. Encantadora atenção pa­ra com Maria Antonieta! Enfim, último traço característico: tocava trompa.

     A Irmã, Mme Vitória, bela e graciosa fisica­mente, não tinha, entretanto, nem inteligência nem força de vontade.

     Quanto a última, Mme Sofia, notavelmente feia e sem graça, com olhos inquietos e móveis que olhavam de lado como os das lebres, era, além disso, duma timidez doentia, que a fazia permanecer, às vezes durante semanas, em mutismo absoluto. Não se tornava expansiva senão em caso de tempestade, pois tinha um medo horrível ao trovão e, assim, apro­ximava-se de quem quer que fosse para não ficar so­zinha.

Maria Teresa da Áustria
     Tais eram, a crermos em Mme Campan, as tias de Maria Antonieta. Diante disso, não nos deve surpreender que nenhuma delas pudesse substituir, junto da Delfina, a Imperatriz Maria Teresa.

     Não nos deve surpreender que a mãe Maria Teresa continuasse, de longe, a velar pela filha, que ela pressentia sem apoio moral, exposta a todos os perigos. Ela continuava a dar conselhos prudentes e a se preocupar com tudo o que acontecia à filha. Seu embaixador Mercy Argenteau a punha ao corrente de tudo.

     A desconcertante atitude do Delfim para com a esposa fora, naturalmente, objeto dum relatório do fiel embaixador.

     Com tristeza, Luís XV falara com Mercy a respeito do neto:

Luís, o Delfim da França
     – “Não é um homem como os ou­tros.”

     O rei inquietava-se antecipadamente de sentir no Delfim uma vontade demasiado fraca, um caráter demasiado inconsistente para um príncipe que, um dia, seria chamado a defender o trono contra o que Luís XV denominava, com desprezo, "a turba repu­blicana".

     Quanto a Maria Teresa, o que mais a intranqui­lizava, em relação ao futuro da filha, era a não con­sumação do casamento. O fiel Mercy procurava rea­nimá-la:

          – “O Delfim" – escrevia ele em 1770 – prometeu à Delfina que, em Compiègne, viveria com ela em to­da a extensão da intimidade que o casamento com­portava.”

Sainte-Beuve
     A promessa, porém, não foi cumprida. O Delfim não é insensível, mas, na expressão de Sainte-Bueve, “tolhido”.

     Maria Antonieta sofre, no seu amor-próprio e na sua sensibilidade, com os gracejos e sorrisos que provoca a anomalia de que ela é a vitima inocente. E quando recorda os preceitos matrimoniais de sua mãe: “Tudo depende da mulher, que deve ser complacente, doce e amorosa”, não pode deixar de pensar, melancolicamente, que também depende um pou­co do marido e que, no que diz respeito a ela, a sua complacência solícita foi muito mal reconhecida.

     Como nos havemos de indignar, assim, por ela ter procurado atordoar-se com uma existência frívola e um pouco desregrada, na companhia duma mo­cidade leviana, mais galante e menos taciturna que seu marido? Pelo menos, nunca teve que se censurar, a não ser com algumas inconsequências, que poderiam des­lustrar-lhe a reputação, expondo-a a maledicência, mas que não lhe maculavam a honra.

Maria Antoneta fazendo as unhas
     Maria Teresa, como mãe atenta, percebeu logo o perigo. Apenas um ano depois do casamento, es­crevia a Mercy:

          – “Quanto mais extraordinária é a frieza do Del­fim, maior necessidade tem minha filha de manter um comportamento ponderado.”

     Era o conselho da prudência.

     Mas podia-se Iá escutar a voz da prudência na Corte de Luís XV, quando o próprio rei dava o exemplo dos prazeres imoderados?

Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.