1 de jan. de 2013

REVOLUÇÃO FRANCESA: 07/17 // Gritos frenéticos "VIVA O REI!"

     Foi a 10 de maio de 1774, às três horas e um quar­to, que o rei Luís XV expirou e a vela foi soprada.

Gritos frenéticos de "Viva o rei!"

Luís XVI
     Quase ao mesmo tempo, abrindo a porta de par em par, o porteiro anunciou:

     – “0 Rei está morto.”

     Então, refere uma testemunha ocular, todos se apressaram a fugir do contágio, que nenhum interes­se obrigava mais a afrontar.

     Um ruído semelhante ao do trovão surpreendeu, no salão em que esperavam notícias, o Delfim e a Delfina. Era a vaga precipitada dos cortesãos que acorriam para junto dos novos senhores da França.

     Cada qual queria ser o primeiro a saudar o rei Luís XVI.

Maria Antonieta
Retratada aos 18 anos de idade
     O jovem soberano parecia mais comovido e per­turbado do que satisfeito com o encargo magnífico, mas temível, de que era assim repentinamente inves­tido. Segundo contam, caiu de joelhos com Maria Antonieta, e ouviu-se ele murmurar:

     – “Meu Deus, protegei- nos! Começamos a reinar muito jovens!”

     Ainda não tinham vinte anos!

     Sem embargo, quando lhe vieram pedir ordens, foi com ar resoluto que Luís XVI deu as primeiras instruções :

     – “Permaneça cada um em seu posto; tudo con­tinua. Verei os ministros daqui a nove dias.”

     Era o prazo de prudência, fixado pelos médicos para evitar que os ministros transmitissem a Luís XVI o germe da moléstia, que poderiam ter contraído à cabeceira do falecido rei.

Choisy
     Alguns instantes mais tarde, dezesseis carruagens, puxadas cada uma por oito cavalos, desfilavam rápidas pelo caminho de Choisy. Conduziam o rei Luís XVI, a rainha, o Conde de Pro­vença, irmão mais jovem do rei, o Conde d'Artois, irmão mais velho do rei, e todo o seu séquito.

     Gritos frenéticos de "Viva o rei!" saudavam por toda a parte a passagem de Luís XVI.

A Corte francesa nos bosques de Versalhes
     O novo reinado começava numa atmosfera de entusiasmo. A França inteira estava animada de grande esperança, de imensa alegria. Tinha-se pres­sa em sepultar o defunto, esquecer o passado, respirar o ar puro dum reinado enfim virtuoso, que pare­cia anunciar-se como uma “nova idade de ouro”. Não ha­via o rei consagrado o seu primeiro pensamento à mitigação do infortúnio?

     Apenas proclamado Luís XVI, escre­vera ao Mordomo-Geral:

     – “Peço-vos mandar distribuir duzentas mil libras aos pobres das paróquias de Paris, para que rezem pe­lo rei. Se achardes que é demais, em face das neces­sidades do Estado, poderá descontá-las de minha pensão e da pensão da Sra. Delfina.”

     Assim, em poucas linhas, encontrava o meio de unir a piedade à generosidade, o amor do bem pú­blico ao mais louvável espírito de sacrifício.

Estátua de Henrique IV em Pont
Neuf, Paris
     Toda Paris, comovida por essa bela ação, celebrava, à por­fia, aquelas virtudes, dignas da memória de Henri­que IV de Bourbon (1553-1610), chamado o grande, primeiro rei de França, e entoava louvores ao novo rei tão paternal.

     Por outro lado, a verve mordaz dos parisienses exer­citava-se em detrimento do falecido rei e divertia-se compondo epitáfios para Luís XV.

     Uns gostavam deste:

     – “Ci-git ce pauvre roi.
         Il fût bon, dit-on, mais à quoi?”
         (Aqui jaz esse pobre rei. Dizem que foi bom, mas em quê?)

     Outros preferiam o seguinte:

     – “Ci-git Louis dit le quinzième
         Et des bien-aimés le deuxième;
         Dieu nous préserve du troisième!”
         (Aqui jaz Luís, chamado o décimo-quinto, e dos bem-amados o segundo; Deus nos livre do terceiro!)

Caricatura do "Regime Luís XV"
        Muitos achavam, enfim, este último o mais mordaz em seu laconismo:

     – “Ci-git Louis par la grâce de Dieu!”
        (Aqui jaz Luís pela graça de Deus!)

     Quanto ao jovem rei, distinguiam-se todas as qualidades, e, em primeiro lugar, uma comovedora boa vontade, um desejo de acertar, que muito prome­tia.

     O Duque de Croy, que o viu nessa época, escre­veu:

     – “Encontrei no rei aquela extraordinária memória que possuía o avô, e observei que falava muito bem, revelando mais instrução do que se supunha. Trabalhava muito, tanto quanto seria de desejar. De­monstrava boa vontade e podia, se tivesse sorte, go­vernar do melhor modo possível."

A família de Luís XVI que o rodeava e envolvia
     Infelizmente, havia para Luís XVI um escolho (perigo) e uma dificuldade que o próprio Duque de Croy foi o primeiro a ver e a assinalar: era o numeroso gru­po que o rodeava.

     Luís XV tinha sobre seu neto a vantagem imensa de ser o único senhor e de não fa­zer jamais senão o que desejava. Ao passo que Luís XVI, de caráter fraco, facilmente influenciável, sem­pre hesitante, devia, como se isso não bastasse, viver procurando contentar toda a gente.

     Ora, ele tinha junto de si três tias, três prince­sas, a esposa e as duas cunhadas, e ainda duas irmãs: ao todo, oito mulheres com quem se devia entender, isso sem contar as suas comitivas, as suas amigas, e sem falar nos irmãos, o Conde de Provença e o Conde d’Artois, que não se abstinham de criticá-lo e de complicar-lhe a tarefa, mas não faziam nada para auxiliá-lo.

     Foram dos mais acertados, entretanto, os primei­ros atos de seu reinado e pareceram confirmar todas as esperanças nele depositadas.

O livro sobre Maupeou
     Era preciso, em primeiro lugar, limpar a Corte de todo o clã de Mme du Barry. A favorita foi enviada para Port-aux-Dames. O Duque d'Aiguil­lon, o Padre Terray, o chanceler de Maupeou foram convidados a deixar as pastas.

     Supunha-se que Luís XVI fosse chamar Choiseul, e já este, deixando sua propriedade de Chanteloup, se apressara em voltar a Paris. Mas o rei tinha prevenções contra o antigo ministro. Reprovava-o por ter expulsado os jesuítas, e suspeitava-o de indelicadeza na gestão dos negócios públicos.

     – “Choiseul significa extorsões; não me falem nele” – repetia.

     E, quando soube de sua presença em Paris, ex­clamou admirado:

     – “Por que não está em Chanteloup? Para quem tem a ventura de possuir uma propriedade, é a época de permanecer nela!”

     Choiseul, despeitado, tomou no dia seguinte o caminho de Chanteloup.

Machault
     Mas a quem escolher para primeiro ministro? A quem chamar? Luís XVI hesitava. Resolveu con­sultar dois homens de idade e de experiência, os Srs. Jean-Baptiste de Machault d’Amouville (1701-1794) e de Jean-Frédéric Phélypeaus (1701-1781), o Conde de Maurepas, antigos ministros de Luís XV.

     O Conde de Maurepas foi o primeiro a atender ao chamado. Luís XVI tencionava apenas conferenciar com ele, conhecer suas idéias. Mas, como velho di­plomata, Maurepas soube conduzir a entrevista para aonde desejava.

     – “Vossa Majestade me faz então primeiro minis­tro? – perguntou, fingindo não compreender.

     – “Não – respondeu o tímido Luís XVI – não era essa minha intenção.”

Conde de Maurepas
     – “Ah, já entendo – volveu MaurepasVossa Majestade quer que eu o ensine a passar sem primei­ro ministro?”

     E foi com esse golpe de audácia e oportunismo que Maurepas escamoteou o lugar de Ministro de Estado de Luís XVI (1774-1781).

     Mas a escolha mais bem acolhida pela opinião pública foi a de Anne Robert Jacques Turgot, amigo dos filósofos, espírito audaz e inovador, de quem se esperavam úteis refor­mas em matéria de impostos e finanças.

Convocação do Parlamento,
dissolvido desde 1771

Luís XVI convoca o Parlamento,
dissolvido desde 1771 por
Maupeau (Luís XV)
     Enfim, quan­do Luis XVI delibera convocar o Parlamento, dis­solvido em 1771, e desfazer integralmente a obra do até então todo-poderoso Maupeou, a popularidade do rei ultrapas­sa tudo quanto se pudesse imaginar.

     – “Nunca o início dum reinado provocou tão unânimes demonstrações de afeto. Todos os corações transbordavam dum entusiasmo sem exemplo." – disse Mme Campan.

     – “Vejo tudo cor-de-rosa” – escreve d'Alembert.

     Mme Marie Anne de Vichy-Chamron (1697-1780), marquesa du Deffand e ainda mais lírica:

     – “Eis, pois, o nosso governo ocupado por filósofos. É o reinado da virtude, do desinteresse, do amor ao bem publico e da liberdade!"


Mme du Deffand
       Entretanto, ela conserva uma ponta de cepticismo, pois acrescenta:

     – “Estes tempos que correm são curiosíssimos; po­der-se-ia apostar, em quase tudo, a favor e contra."

     Não é uma observação característica do senti­mento de instabilidade que se impunha aos espíritos daquela época?

     Quanto a Maria Antonieta, encantadora e contentíssima de ser rainha, não pensava senão em di­vertir-se.

     – “Ela ocupa-se de bailes, toucados, plumas" – ­disse Mme du Deffand.



     A moda, bastante singular, – mas a que singu­laridades a moda não nos tem habituado! – era, com efeito, de gigantescos toucadas de plumas, tão altos que muitas mulheres se viam obrigadas a ajoelhar nos carros para não estragar o harmonioso edifício.







     Alguns desses toucados monumentais atingiam cerca de oitenta centímetros de altura. Além disso, a elegância requintada exigia que fossem alegóricos.


     As­sim, a Duquesa de Lauzun traz um toucado em que se vê um cipreste, um pedaço de crepe, um feixe de trigo e frutas saindo duma cornucópia! Esse con­junto quer dizer, como o leitor já terá compreendido:

     – “Chora-se a morte do rei, mas espera-se muita coisa do novo soberano."


     Uma tabaqueira de chagrin, com o retrato de Maria Antonieta em miniatura no cen­tro, significa: “O consolo na mágoa” (chagrin).



Maria Antonieta
     A Corte, nessa ocasião, estava na Muette, e toda a manhã Maria Antonieta passeava no bosque, a cavalo, geralmente acompanhada da encantadora Princesa de Lamballe.

     Diz o Duque de Croy que, à passagem da rainha, não se ouviam senão palmas e gritos de alegria.

     Certa manhã, durante o passeio, ela encontrou o rei, que, a pé e sem escolta no meio do povo, fazia também um pouco de exercício. Saltou do cavalo, correu ao en­contro do marido e, gentilmente, os dois se beijaram. Então, refere-se uma testemunha da cena:

     – “A multidão aplaudiu, e logo se ressoavam aclamações em todo o bosque”.

Edmund Burke
     A rainha, nessa época, estava em todo o esplen­dor de sua beleza.

     – “Ela era como a estrela d'alva, refulgente de saúde, felicidade e glória" – escreveu Edmund Burke (1729-1797).

     Walpole, mais entusiasta ainda, exclamou:

     – “Todos só tem olhos para ver a rainha. As Hebes, as Floras, as Helenas e as Graças não passam de mulheres da rua perto dela!”

     A própria Maria Teresa, a velha imperatriz ra­bugenta mas maternal, sofreu também os efeitos do entusiasmo geral. Escreveu a Mercy, o confidente fiel de todos os seus pensamentos:

     – “Todo o universo está em êxtase. E há razão: um rei de vinte anos, uma rainha de dezenove. Todas as suas ações são cheias de humanidade, generosidade, prudência e profunda ponderação. Como é bom fazer felizes os povos! Como eu amo neste momento os fran­ceses! Quantos recursos há numa nação que sabe sen­tir tão vivamente! Cumpre desejar-lhes apenas mais constância e menos leviandade: corrigindo os seus cos­tumes, isso mudará também!"

José II, irmãomais velho de
Maria Antonieta
     Esse comovedor entusiasmo pela França, José II (1741-1790), filho mais velho de Maria Teresa da Áustria e imperador do Sacro Império Romano-Germânico, rei da Boémia e da Hungria e de Arquiduque da Áustria, o sentiria igualmente na Ópera ao ver toda a sala, de pé e virada para sua irmã Maria Antonieta, repetir em coro o refrão de Ifigênia em Áulida:

     – “Cantemos, celebremos a nossa rainha!”

     José II, com lágrimas nos olhos, emocionado até o fundo do coração pela vibrante espontaneidade de tão grande afeto, exclamaria também:

     – “Que encantadora nação!”

Na França, é mais fácil conquistar o triun­fo que conservá-lo.

     Luis XVI e Maria Antonieta te­riam disso a mais cruel experiência.

     Quem poderia imaginar então o pior, qualquer dificuldade maior, quando o rei e o povo estavam entregues à alegria, às ilusões generosas desse princípio de reinado que parecia tão cheio de promessas, como uma aurora ra­diosa num céu sem nuvens parece pressagiar um belo dia?




Catedral de Nossa Senhora de Reims
      Quem poderia prever o desencadeamento atroz da calúnia a conspurcar o trono, e a reviravolta desconcertante dessa popularidade sem exemplo, de que as magníficas festas de sagração de Reims marcarão o ponto culminante, sendo uma espécie de apoteose?

     Em seu rito vetusto e simbólico, era sempre uma admirável cerimônia a da coroação dum rei da França na velha e incomparável Catedral de Nossa Senhora de Reims. Mas a sagração de Luís XVI, dentro das circunstâncias, da atmosfera de carinho e entusiasmo sem preceden­tes com que será celebrada, terá um esplendor parti­cularmente impressionante.

     Será, na realidade, a união sagrada, perante Deus, do rei, pai da nação, com seu povo bem-amado, num impulso de confiança recíproca.

Jean-François Marmontel
     Os numerosos relatos que serão registrados, sejam do Journal du Sacre, de gazetas da época, ou das notas pessoais, evidentemente sinceras, de testemunhas co­mo Jean-François Marmontel e o Duque de Croy, serão unânimes a esse respeito.

     O dia da sagração fora fixado para 11 de junho de 1775, domingo da Trindade.

     Tudo estava preparado havia muito tempo.

     En­tre Versalhes e Reims haviam-se reconstruído as velhas pontes e consertado as estradas, que as últimas corvéias de camponeses – pois Turgot acabava de abolir a corvéia (trabalho obrigatório e gratuito) – tinham coberto de areia como as alamedas dum parque.

Luís XVI dormiu em Fismes
     A Corte fizera a viagem em duas etapas. O rei dormira a primeira noite em Fismes. Arcos de triun­fo e grinaldas de flores decoravam as cidades em que devia passar.

     Reims estava magnificamente adorna­da. Uma rua coberta de tapeçarias levava do palácio arquiepiscopal, onde dormia o rei, à catedral.

Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.