Foi a 10 de maio de 1774, às três horas e um quarto, que o rei Luís XV expirou e a vela foi soprada.
Gritos frenéticos de "Viva o rei!"
Quase ao mesmo tempo, abrindo a porta de par em par, o porteiro anunciou:
– “0 Rei está morto.”
Então, refere uma testemunha ocular, todos se apressaram a fugir do contágio, que nenhum interesse obrigava mais a afrontar.
Um ruído semelhante ao do trovão surpreendeu, no salão em que esperavam notícias, o Delfim e a Delfina. Era a vaga precipitada dos cortesãos que acorriam para junto dos novos senhores da França.
Cada qual queria ser o primeiro a saudar o rei Luís XVI.
O jovem soberano parecia mais comovido e perturbado do que satisfeito com o encargo magnífico, mas temível, de que era assim repentinamente investido. Segundo contam, caiu de joelhos com Maria Antonieta, e ouviu-se ele murmurar:
– “Meu Deus, protegei- nos! Começamos a reinar muito jovens!”
Ainda não tinham vinte anos!
Sem embargo, quando lhe vieram pedir ordens, foi com ar resoluto que Luís XVI deu as primeiras instruções :
– “Permaneça cada um em seu posto; tudo continua. Verei os ministros daqui a nove dias.”
Era o prazo de prudência, fixado pelos médicos para evitar que os ministros transmitissem a Luís XVI o germe da moléstia, que poderiam ter contraído à cabeceira do falecido rei.
Alguns instantes mais tarde, dezesseis carruagens, puxadas cada uma por oito cavalos, desfilavam rápidas pelo caminho de Choisy. Conduziam o rei Luís XVI, a rainha, o Conde de Provença, irmão mais jovem do rei, o Conde d'Artois, irmão mais velho do rei, e todo o seu séquito.
Gritos frenéticos de "Viva o rei!" saudavam por toda a parte a passagem de Luís XVI.
O novo reinado começava numa atmosfera de entusiasmo. A França inteira estava animada de grande esperança, de imensa alegria. Tinha-se pressa em sepultar o defunto, esquecer o passado, respirar o ar puro dum reinado enfim virtuoso, que parecia anunciar-se como uma “nova idade de ouro”. Não havia o rei consagrado o seu primeiro pensamento à mitigação do infortúnio?
Apenas proclamado Luís XVI, escrevera ao Mordomo-Geral:
– “Peço-vos mandar distribuir duzentas mil libras aos pobres das paróquias de Paris, para que rezem pelo rei. Se achardes que é demais, em face das necessidades do Estado, poderá descontá-las de minha pensão e da pensão da Sra. Delfina.”
Assim, em poucas linhas, encontrava o meio de unir a piedade à generosidade, o amor do bem público ao mais louvável espírito de sacrifício.
Toda Paris, comovida por essa bela ação, celebrava, à porfia, aquelas virtudes, dignas da memória de Henrique IV de Bourbon (1553-1610), chamado o grande, primeiro rei de França, e entoava louvores ao novo rei tão paternal.
Por outro lado, a verve mordaz dos parisienses exercitava-se em detrimento do falecido rei e divertia-se compondo epitáfios para Luís XV.
Uns gostavam deste:
– “Ci-git ce pauvre roi.
Il fût bon, dit-on, mais à quoi?”
(Aqui jaz esse pobre rei. Dizem que foi bom, mas em quê?)
Outros preferiam o seguinte:
– “Ci-git Louis dit le quinzième
Et des bien-aimés le deuxième;
Dieu nous préserve du troisième!”
(Aqui jaz Luís, chamado o décimo-quinto, e dos bem-amados o segundo; Deus nos livre do terceiro!)
Muitos achavam, enfim, este último o mais mordaz em seu laconismo:
– “Ci-git Louis par la grâce de Dieu!”
(Aqui jaz Luís pela graça de Deus!)
Quanto ao jovem rei, distinguiam-se todas as qualidades, e, em primeiro lugar, uma comovedora boa vontade, um desejo de acertar, que muito prometia.
O Duque de Croy, que o viu nessa época, escreveu:
– “Encontrei no rei aquela extraordinária memória que possuía o avô, e observei que falava muito bem, revelando mais instrução do que se supunha. Trabalhava muito, tanto quanto seria de desejar. Demonstrava boa vontade e podia, se tivesse sorte, governar do melhor modo possível."
Infelizmente, havia para Luís XVI um escolho (perigo) e uma dificuldade que o próprio Duque de Croy foi o primeiro a ver e a assinalar: era o numeroso grupo que o rodeava.
Luís XV tinha sobre seu neto a vantagem imensa de ser o único senhor e de não fazer jamais senão o que desejava. Ao passo que Luís XVI, de caráter fraco, facilmente influenciável, sempre hesitante, devia, como se isso não bastasse, viver procurando contentar toda a gente.
Ora, ele tinha junto de si três tias, três princesas, a esposa e as duas cunhadas, e ainda duas irmãs: ao todo, oito mulheres com quem se devia entender, isso sem contar as suas comitivas, as suas amigas, e sem falar nos irmãos, o Conde de Provença e o Conde d’Artois, que não se abstinham de criticá-lo e de complicar-lhe a tarefa, mas não faziam nada para auxiliá-lo.
Foram dos mais acertados, entretanto, os primeiros atos de seu reinado e pareceram confirmar todas as esperanças nele depositadas.
Era preciso, em primeiro lugar, limpar a Corte de todo o clã de Mme du Barry. A favorita foi enviada para Port-aux-Dames. O Duque d'Aiguillon, o Padre Terray, o chanceler de Maupeou foram convidados a deixar as pastas.
Supunha-se que Luís XVI fosse chamar Choiseul, e já este, deixando sua propriedade de Chanteloup, se apressara em voltar a Paris. Mas o rei tinha prevenções contra o antigo ministro. Reprovava-o por ter expulsado os jesuítas, e suspeitava-o de indelicadeza na gestão dos negócios públicos.
– “Choiseul significa extorsões; não me falem nele” – repetia.
E, quando soube de sua presença em Paris, exclamou admirado:
– “Por que não está em Chanteloup? Para quem tem a ventura de possuir uma propriedade, é a época de permanecer nela!”
Choiseul, despeitado, tomou no dia seguinte o caminho de Chanteloup.
Mas a quem escolher para primeiro ministro? A quem chamar? Luís XVI hesitava. Resolveu consultar dois homens de idade e de experiência, os Srs. Jean-Baptiste de Machault d’Amouville (1701-1794) e de Jean-Frédéric Phélypeaus (1701-1781), o Conde de Maurepas, antigos ministros de Luís XV.
O Conde de Maurepas foi o primeiro a atender ao chamado. Luís XVI tencionava apenas conferenciar com ele, conhecer suas idéias. Mas, como velho diplomata, Maurepas soube conduzir a entrevista para aonde desejava.
– “Vossa Majestade me faz então primeiro ministro? – perguntou, fingindo não compreender.
– “Não – respondeu o tímido Luís XVI – não era essa minha intenção.”
– “Ah, já entendo – volveu Maurepas – Vossa Majestade quer que eu o ensine a passar sem primeiro ministro?”
E foi com esse golpe de audácia e oportunismo que Maurepas escamoteou o lugar de Ministro de Estado de Luís XVI (1774-1781).
Mas a escolha mais bem acolhida pela opinião pública foi a de Anne Robert Jacques Turgot, amigo dos filósofos, espírito audaz e inovador, de quem se esperavam úteis reformas em matéria de impostos e finanças.
Convocação do Parlamento,
dissolvido desde 1771
Enfim, quando Luis XVI delibera convocar o Parlamento, dissolvido em 1771, e desfazer integralmente a obra do até então todo-poderoso Maupeou, a popularidade do rei ultrapassa tudo quanto se pudesse imaginar.
– “Nunca o início dum reinado provocou tão unânimes demonstrações de afeto. Todos os corações transbordavam dum entusiasmo sem exemplo." – disse Mme Campan.
– “Vejo tudo cor-de-rosa” – escreve d'Alembert.
Mme Marie Anne de Vichy-Chamron (1697-1780), marquesa du Deffand e ainda mais lírica:
– “Eis, pois, o nosso governo ocupado por filósofos. É o reinado da virtude, do desinteresse, do amor ao bem publico e da liberdade!"
Entretanto, ela conserva uma ponta de cepticismo, pois acrescenta:
– “Estes tempos que correm são curiosíssimos; poder-se-ia apostar, em quase tudo, a favor e contra."
Não é uma observação característica do sentimento de instabilidade que se impunha aos espíritos daquela época?
Quanto a Maria Antonieta, encantadora e contentíssima de ser rainha, não pensava senão em divertir-se.
– “Ela ocupa-se de bailes, toucados, plumas" – disse Mme du Deffand.
A moda, bastante singular, – mas a que singularidades a moda não nos tem habituado! – era, com efeito, de gigantescos toucadas de plumas, tão altos que muitas mulheres se viam obrigadas a ajoelhar nos carros para não estragar o harmonioso edifício.
Alguns desses toucados monumentais atingiam cerca de oitenta centímetros de altura. Além disso, a elegância requintada exigia que fossem alegóricos.
Assim, a Duquesa de Lauzun traz um toucado em que se vê um cipreste, um pedaço de crepe, um feixe de trigo e frutas saindo duma cornucópia! Esse conjunto quer dizer, como o leitor já terá compreendido:
– “Chora-se a morte do rei, mas espera-se muita coisa do novo soberano."
Uma tabaqueira de chagrin, com o retrato de Maria Antonieta em miniatura no centro, significa: “O consolo na mágoa” (chagrin).
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| Maria Antonieta |
Diz o Duque de Croy que, à passagem da rainha, não se ouviam senão palmas e gritos de alegria.
Certa manhã, durante o passeio, ela encontrou o rei, que, a pé e sem escolta no meio do povo, fazia também um pouco de exercício. Saltou do cavalo, correu ao encontro do marido e, gentilmente, os dois se beijaram. Então, refere-se uma testemunha da cena:
– “A multidão aplaudiu, e logo se ressoavam aclamações em todo o bosque”.
– “Ela era como a estrela d'alva, refulgente de saúde, felicidade e glória" – escreveu Edmund Burke (1729-1797).
Walpole, mais entusiasta ainda, exclamou:
– “Todos só tem olhos para ver a rainha. As Hebes, as Floras, as Helenas e as Graças não passam de mulheres da rua perto dela!”
A própria Maria Teresa, a velha imperatriz rabugenta mas maternal, sofreu também os efeitos do entusiasmo geral. Escreveu a Mercy, o confidente fiel de todos os seus pensamentos:
– “Todo o universo está em êxtase. E há razão: um rei de vinte anos, uma rainha de dezenove. Todas as suas ações são cheias de humanidade, generosidade, prudência e profunda ponderação. Como é bom fazer felizes os povos! Como eu amo neste momento os franceses! Quantos recursos há numa nação que sabe sentir tão vivamente! Cumpre desejar-lhes apenas mais constância e menos leviandade: corrigindo os seus costumes, isso mudará também!"
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| José II, irmãomais velho de Maria Antonieta |
– “Cantemos, celebremos a nossa rainha!”
José II, com lágrimas nos olhos, emocionado até o fundo do coração pela vibrante espontaneidade de tão grande afeto, exclamaria também:
– “Que encantadora nação!”
Na França, é mais fácil conquistar o triunfo que conservá-lo.
Quem poderia imaginar então o pior, qualquer dificuldade maior, quando o rei e o povo estavam entregues à alegria, às ilusões generosas desse princípio de reinado que parecia tão cheio de promessas, como uma aurora radiosa num céu sem nuvens parece pressagiar um belo dia?
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| Catedral de Nossa Senhora de Reims |
Em seu rito vetusto e simbólico, era sempre uma admirável cerimônia a da coroação dum rei da França na velha e incomparável Catedral de Nossa Senhora de Reims. Mas a sagração de Luís XVI, dentro das circunstâncias, da atmosfera de carinho e entusiasmo sem precedentes com que será celebrada, terá um esplendor particularmente impressionante.
Será, na realidade, a união sagrada, perante Deus, do rei, pai da nação, com seu povo bem-amado, num impulso de confiança recíproca.
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| Jean-François Marmontel |
O dia da sagração fora fixado para 11 de junho de 1775, domingo da Trindade.
Tudo estava preparado havia muito tempo.
Entre Versalhes e Reims haviam-se reconstruído as velhas pontes e consertado as estradas, que as últimas corvéias de camponeses – pois Turgot acabava de abolir a corvéia (trabalho obrigatório e gratuito) – tinham coberto de areia como as alamedas dum parque.
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| Luís XVI dormiu em Fismes |
Reims estava magnificamente adornada. Uma rua coberta de tapeçarias levava do palácio arquiepiscopal, onde dormia o rei, à catedral.
Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.





















