5 de jan. de 2013

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1 de jan. de 2013

REVOLUÇÃO FRANCESA: 01/17 // A França de Luís XV


  Três séculos... Três revoluções se sucedem numa ordem rigorosamente lógica. A democratização das idéias do século 18 prepara a democratização dos bens no século 19, que anuncia a democratização da informação no século 20.

    
Luís XVI (1754-1793), rei da França
(1774-1791) e depois, rei dos
franceses (1791-1792). Filho do
Delfim Luís e de Maria Josefa da
Saxônia.
      A Idade Moderna é o período entre a queda do Império Romano do Oriente, em 1453, e a Revolução Francesa (5 de maio de 1789 a 9 de novembro de 1799), que é a denominação dada à fase revolucionária porque passou a França com a eclosão do movimento que derrubou a monarquia de Luís XVI e propiciou a conquista do poder pela burguesia, alterando o quadro político e social do país. No tempo transcorrido entre esses dois fatos marcantes, são marcos principais: o fortalecimento dos Estados nacionais monárquicos, a expansão do Capitalismo – que se torna a forma de produção predominante –, o renascimento cultural e científico, a fermentação revolucionária do Iluminismo e a independência dos Estados Unidos da América (1776).

     A Idade Contemporânea cobre o período do final do século 18 até a atualidade, tendo iniciado a Revolução Francesa com a convocação dos Estados Gerais e a Queda da Bastilha, e encerrada com o golpe de Estado do 18 de brumário de Napoleão Bonaparte.


Jean-Jacques Rousseau (1712-1778).
Escritor e filósofo suíço de língua
francesa
      Em causa estavam o Antigo Regime (Ancien Régime) e os privilégios do clero e da nobreza, mas foi graças a ela que se aboliu a servidão, os direitos feudais e se proclamou os princípios universais de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” (Liberté, Egalité, Fraternité), frase de autoria de Jean-Jacques Rousseau.

     A Revolução Francesa, que provocou conflitos armados com outros países europeus e alcançou enorme repercussão nos países americanos, aboliu e substituiu a monarquia, com uma república democrática radical, pondo em evidência a ascensão burguesa – que viria a impor-se com a Revolução Industrial – e inspirou numerosos outros movimentos de caráter revolucionário, dentre eles a radical mudança social para formulários com base em princípios iluministas de cidadania e de direitos inalienáveis.

     Na Idade Contemporânea, destacam-se de início o período napoleônico (1799 a 1815), a restauração monárquica e as Revoluções Liberais, a Revolução Industrial e a expansão do Capitalismo, a disseminação das nacionalidades e das doutrinas sociais.   

Façam a guerra se quiserem a paz

Luís XV o Bem Amado (1710-1774),
rei da França (1715-1774). Filho do
Duque da Borgonha e de Maria
Adelaíde de Savóia, e bisneto de
Luís XIV.
      Com o raiar do século 18, a sociedade civil se volta para novo debate de idéias, priorizando uma teoria de separação dos poderes. Busca-se uma concepção talvez trinitária, que desmembre o poder entre várias cabeças e mãos (legislativo, executivo, judiciário); mas, esse debate logo se transforma em combate. É a Revolução Francesa, que se encontra entre as maiores revoluções da história da humanidade.

     A declaração de paz ao mundo e de amor ao próximo é rapidamente transformada em nova ordem conceitual: façam a guerra se quiserem a paz. E não haverá jamais frustração no número de pessoas sacrificadas aos interesses ou paixões alheias, pois é preciso que existam homens conflitantes por detrás das idéias, sejam antigas ou novas, conservadoras ou revolucionárias.

     Assim, entre 1789 e 1815, só a França contabiliza a “insignificância” de dois milhões de vítimas, sendo 400 mil antes de 1800, um milhão nas guerras napoleônicas e 600 mil nas guerras intestinas. A idéia de paz alimenta o cadafalso exigentíssimo, e justamente no século que foi chamado das luzes, ressalta o francês Jacques Perruchon de Brochard, Membro Acadêmico Correspondente, Cadeira 31 da ANE, em sua obra “Miragem do Futuro”.

Bastilha
     Os franceses passam da monarquia paternalista ao império policial. A revolução termina com a constatação de um fracasso total: social, cultural, econômico, científico, territorial, religioso.

     Para a França, abriu-se em 1789 o longo período de convulsões políticas do século XIX, fazendo-a passar por várias repúblicas, uma ditadura, uma monarquia constitucional e dois impérios.

     A França contou seus mortos, seus mutilados, a destruição de suas obras de arte, suas perdas de territórios e principalmente seu considerável atraso no terreno científico.

     Querendo impor a felicidade aos homens, os franceses foram incapazes de promovê-la, porque, na realidade, foram os Estados Unidos da América, com nove anos de antecedência, em 1780, que lançaram os fundamentos dos princípios das democracias modernas, tendo por base três poderes independentes, eleitos, e separados, resultantes unicamente da vontade popular.  

A França de Luís XV (1)
O Casamento e a Sagração de Luís XVI

     A França tomada pelo Antigo Regime era um grande edifício construído por cinquenta gerações, por mais de quinhentos anos. As suas fundações mais antigas e mais profundas eram obras da Igreja, estabelecidas durante mil e trezentos anos.

Charge das Três Ordens ou Estados.
O Terceiro-Estado carregando o
Primeiro e o Segundo Estados
nas costas.

     A sociedade francesa do século 18 mantinha a divisão em três Ordens ou Estados típica do Antigo Regime – Clero ou Primeiro Estado, Nobreza ou Segundo Estado, e Povo ou Terceiro Estado – cada qual se regendo por leis próprias (privilégios), com um Rei absoluto (ou seja, um Rei que detinha um poder supremo independente) no topo da hierarquia dos Estados.

     O Rei fora antes de tudo o obreiro da unidade nacional através do seu poder independente das Ordens, significando que era ele quem tinha a última palavra sobre a justiça, a economia, a diplomacia, a paz e a guerra, e quem se lhe opusesse teria como destino a prisão da Bastilha.

     Para compreender com que sentimentos foram acolhidos as bodas e a sagração de Luis XVI, é pre­ciso lançar um rápido olhar retrospectivo à situação do reino e ao estado de espírito do povo, no fim do governo de Luis XV.

     A França não tivera, em conjunto, muito com que se ufanar desse longo reinado de meio século. Já ia longe o tempo em que a popularidade do rei fizera atribuir a Luís o cognome de "o Bem-Amado".

Hermann Maurício de Saxe (1696-
1750), Marechal de Saxe. Conde de
Saxe e Marechal da França (1746).
      A lembrança das grandes vitórias conseguidas pelo gênio do Marechal de Saxe, morto em janeiro de 1751, logo se apagara sob a impressão de desencanto duma paz estéril, em que a França abandonara todas as conquistas.

     "A verdade é que, quando se perde o domínio dos mares, tarde ou cedo hão de cair as colônias" – observava com melancólico bom-senso o Duque de Croy, em suas Memórias.

     Luís XV apoiou a política fiscal de Jean-Baptiste de Machault d’Arnouville (1701-1794), mas entrou em luta aberta contra o Parlamento (questão das cartas de confissão, 1752). A oposição parlamentar, as despesas reais desacreditavam o rei (atentado de Damiens, 1757).

     A Guerra dos Sete Anos (1756-1763), empreendida para causar dificuldades à Prússia e à Inglaterra, teve por conseqüência, apesar do Pacto de Família (uma aliança com a Casa Bourbon de Espanha, para tentar recuperar os resultados desastrosos com a aliança da Áustria), assinado por Étienne François (1719-1785), conde de Stainville e duque de Choiseul, a perda das possessões francesas da Índia e do Canadá; a França cedeu também a Lousiana ocidental à Espanha (1762). O Pacto de Família veio muito tarde. Embaixador e depois secretário de Estado de Luís XV (primeiro-ministro de fato), Choiseul reorganizou a França, quando adquiriu pacificamente a Lorena (1766) e a Córsega (1768).

Guerra dos Sete Anos

O conflito das grandes monarquias
     A Guerra dos Sete Anos foram conflitos internacionais que ocorreram entre 1756 e 1763, durante o reinado de Luís XV, entre a França, a Áustria e seus aliados (Saxônia, Rússia, Suécia e Espanha), de um lado, e a Inglaterra, Portugal, a Prússia e Hannover, de outro.

     Vários fatores desencadearam a guerra: a preocupação das potências européias com o crescente prestígio e poderio de Frederico II, o Grande, Rei da Prússia; as disputas entre a Áustria e a Prússia pela posse da Silésia, província oriental alemã, que passara ao domínio prussiano em 1742 durante a guerra de sucessão austríaca; e a disputa entre a Grã-Bretanha e a França pelo controle comercial e marítimo das colônias das Índias e da América do Norte.

Guerra Franco-Indígena
     A Guerra dos Sete Anos também foi motivada pela disputa por territórios situados na África, Ásia e América do Norte.

     A fase norte-americana foi denominada Guerra Franco-Indígena (ou Guerra Francesa e Indígena), e participaram a Inglaterra e suas colônias norte-americanas contra a França e seus aliados algonquinos.

     A fase asiática iniciou o domínio britânico nas Índias.

O Primeiro conflito de caráter mundial
     Foi o primeiro conflito a ter caráter mundial, e o seu resultado é muitas vezes apontado como o ponto fulcral que deu origem à inauguração da era moderna.

     A Guerra dos Sete Anos foi precedida por uma reformulação do sistema de alianças entre as principais potências européias, a chamada Revolução Diplomática de 1756, e caracterizou-se pelas sucessivas derrotas francesas na Alemanha (Rossbach), no Canadá (queda de Québec e Montreal) e na Índia.

     A guerra deu continuidade a disputas não apaziguadas pelo Tratado de Aix-la-Chapelle (1748) e tinha relação com a rivalidade colonial e econômica anglo-francesa, e com a luta pela supremacia nos Estados Alemães entre a Áustria e a Prússia.

Sem declarar guerra, a Inglaterra capturou
300 navios franceses
     A Guerra prosseguiu na América do Norte, com a expedição de Braddock, que entre 1695 e 1755 comandou as forças britânicas contra os franceses e indígenas.

     Cada facção estava insatisfeita com seus antigos aliados.

     A Inglaterra tomou a iniciativa quando capturou trezentos navios franceses sem declarar guerra, e de seguida, com o Acordo de Westminster (1756), pelo qual estabelece uma aliança militar com Frederico II da Prússia para defender Hanover de um possível ataque francês.

Maria Teresa da Áustria
     A França, por sua vez, com os dois Tratados de Versalhes (1756 e 1757) obtém a promessa de aliança de Maria Teresa da Áustria (mãe de Maria Antonieta, futura esposa do Delfim Luís de França) e de seu ministro Kaunitz. Maria Teresa também se aliou com Elizabeth da Rússia.

     Todos estavam dispostos a um acordo de paz. No cômputo global do conflito, a Inglaterra e a Prússia foram as grandes vitoriosas.

     Em 1762, o Tratado de São Petersburgo devolveu a Pomerânia à Prússia. Pelo Tratado de Paris, firmado em 1763, franceses, austríacos e ingleses assinarem a paz. No acordo firmado, os ingleses ganham o Canadá e parte da Louisiana, Flórida (que foi cedida pela Espanha), algumas ilhas das Antilhas (São Vicente, Tobago, Granada e Granadinas), São Luís, e feitorias costeiras do Senegal, na África, além de ter de reconhecer todas as conquistas inglesas nas Índias Ocidentais.

     A favor de Espanha, para compensá-la dos prejuízos advindos da guerra, a França cedeu o resto da Louisiana e Nova Orleans. Os franceses perdiam também toda a influência na Índia.

     Finalmente, em 15 de fevereiro de 1763, foi firmada a paz definitiva em Hubertusburgo. Pelo Tratado de Hubertsburg, a Áustria renunciou definitivamente à Silésia e a cedeu à Prússia, enquanto a Polônia era dividida pela primeira vez, ocupada pela Prússia, Rússia e Áustria.

Batalha de Colin
     A Prússia se afirma como concorrente da Áustria na liderança dos estados alemães, lançando as bases do futuro Império Alemão. As importantes vitórias inglesas sobre a França, solidificadas no Tratado de Paris, lançam as bases do futuro Império Colonial Britânico.

     No Brasil houve repercussão dessa luta. Portugal não aderiu ao "pacto de família", o que motivou o ataque dos espanhóis do rio da Prata ao sul do Brasil. O Tratado de Santo Ildefonso, assinado em 1777, encerrou o conflito: a Espanha tomou posse da Colônia do Sacramento e de grande parte do atual território do Rio Grande do Sul, enquanto Portugal recuperava a ilha de Santa Catarina.
     Assim... Não havia quem não sentisse a mesma penosa impressão do declínio da influência e do poder da França na Europa. Era como se o povo francês, exausto de tanta glória, tivesse deixado distender-se a ener­gia antiga.

Henry Robert

Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
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Nota do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.

REVOLUÇÃO FRANCESA: 02/17 // Maria Antonieta na França


O Casamento e a Sagração de Luís XVI

Luís XIV o Grande, o Rei Sol (1638-1715),
rei da França (1643-1715), filho de Luís XIII
e de Ana da Áustria. Quando morreu,
deixou uma França arruinada nas finanças.
     O ministério Étienne François, duque de Choiseul (primeiro-ministro de fato da França, enquanto homem da política austríaca), correspondendo ao estonteante sen­timento de lassidão nacional, caracterizara-se por uma política de facilidades, sem grandeza, embora não sem habilidade, que se contrapunha à política de Luís XIV o Grande.

     A palavra de ordem parecia ser, por toda parte, deixar que se falasse e agisse à vontade. Não reagir contra nenhum abuso, esquivar-se a todas as dificul­dades, por uma política interna de tolerância, de displicência, de liberdade complacente para com os enciclopedistas e filósofos imbuídos de idéias novas, senão para com os jesuítas, que acabavam de ser expul­sos do país, e por uma política externa de alianças com as grandes potencias que haviam sido ini­migas tradicionais da França, em detrimento das pequenas nações, que até então a nação apoiara e protegera con­tra a cobiça dos vizinhos.

     A paz, a paz a qualquer preço, a paz mesmo sem segurança, tal parecia ser a única preocupação do go­verno e o único objetivo da política adotada.

Duque de Choiseul (1719-1785)
     Mas havia, além desse lamentável abandono da influência e dignidade francesa no exterior, um grave motivo de inquietação e descontentamento no inte­rior: era a questão financeira.

     O excesso de impostos, a desordem das finanças, a penúria do Tesouro, tudo isso impressionava muito mais os espíritos e criava ainda maior número de des­contentes do que a ma política exterior.

     Falava-se de bancarrota quando o eclesiástico e político francês Joseph Marie Terray (1715-1778), a maior cabeça do Parlamento, foi elevado à superintendência-ge­ral das finanças (inspetor-geral das Finanças), em dezembro de 1769. Esperava-se muito dele, mas ninguém, nessa matéria, pode realizar milagres. Terray recorreu a numerosos expedientes para equilibrar o erário, entre eles, o aumento dos impostos. Todo o plano do padre Terray consistia, modestamente, em equilibrar a despesa com a receita.

     Pensava o padre poder fazer cortes em Versa­lhes – chamavam-se cortes naquele tempo, hoje se chamam economias; mas aqueles eram tão impraticáveis na época, como a realização destas hoje nos parece uma quimera.

    A cidade de Versalhes está dentro de dez a nove quilômetros a sudoeste de Paris, situada no departamento Yvelines e Île-de-France. Cidade artificial, criada a partir do zero com a vontade do rei Louis XIV, Versalhes foi sede do poder político da França (1682 a 1789), antes de se tornar o berço da Revolução Francesa. Depois de perder o seu estatuto como um royal cidade, ela se torna a capital de um departamento, o Seine-et-Oise, em 1790. É hoje uma cidade residencial e de serviços nas proximidades do subúrbio de Paris, mais conhecida pelo seu castelo, o famoso palácio de Versalhes, seus jardins, museus nacionais. Os seus habitantes são chamados versalheses.

Joseph Marie Terray
     Não podendo cortar as despesas da Corte, o pa­dre Terray reduzira de um décimo o "coupon" das rendas e dos títulos reais (que chamaríamos atualmente Bônus do Tesouro), para desespero das pessoas humildes que tinham investido neles todas as suas economias. Os impostos foram também sistematicamente aumentados.

     Estabelecera o Terray, entre outros, um imposto bas­tante impopular, de um soldo por libra, sobre todas as entradas de mercadorias, salvo a manteiga e os ovos.

     Tirais o dinheiro de nossos bolsos – diziam os pequenos rendeiros e contribuintes, furiosos por se verem assim espoliados.

     Donde diabo quereis que eu o tire? – respon­dia o Terray friamente.

     Essas sangrias fiscais nunca são bem acolhidas. O povo as suportava com ainda maior dificuldade porque as dilapidações da Corte e as prodigalidades do rei às suas amantes continuavam a cavar um abis­mo, que os impostos, já excessivamente pesados, não chegavam a preencher.

Inácio de Loyola
     A Companhia de Jesus, cujos membros são conhecidos como jesuítas, é uma ordem religiosa fundada em 1534 por um grupo de estudantes da Universidade de Paris, liderados pelo basco Íñigo López de Loyola, conhecido posteriormente como Inácio de Loyola. A Ordem foi reconhecida por Bula papal em 1540. As cortes da França e da Espanha juntaram-se na pressão sobre o Papado para suprimir a Companhia, o que veio a ocorrer em 1773, sob o Papa Clemente XIV, através da bula Dominus ac Redemptor. Hoje em dia os Jesuítas formam a maior ordem religiosa da Igreja Católica, conhecida principalmente por seu trabalho missionário e educacional. Conta com 19.216 membros espalhados por 112 países e 6 continentes.

     As Cortes iluministas da Europa opuseram-se aos ensinamentos e influência da Companhia de Jesus, tendo sido Portugal, por iniciativa do Marquês de Pombal o primeiro país de onde foram expulsos, em 1759, acusados pelo Ministro de estarem envolvidos na tentativa de regicídio (assassinato do rei) do ano anterior.

     Amigo dos enciclopedistas, o duque de Choiseul influencia para que Luís XV atenda ao pedido do parlamento e suprima a Companhia de Jesus da França, em 1763-1764. Carlos III de Espanha, através da Pragmática Sanção (1767) também expulsou a ordem religiosa.

Mme de Pampadour
     A morte de Mme de Pompadour, em 1764, fizera supor, por um momento, que o reinado das favoritas acabara. Luís XV parecia alquebrado pe­las desgraças sucessivas que lhe golpeavam a velhi­ce melancólica.

     Seu filho, o Delfim, morria em 1765, sua nora em 1767, e finalmente a rainha em 1768.

     Mas em breve se vinha a saber que Luís XV tinha uma nova paixão e murmurava-se que era ainda mais escandalosa e mais indigna de um rei do que a ante­rior. Tratava-se, segundo era voz corrente, duma an­tiga empregada de loja, Mme Jeanne Bécu de Cantigny, futura Condessa du Barry, de virtude fácil, que muito dera que falar, e a seu respeito se compôs uma can­ção satírica intitulada “A aprendizagem duma caixeira de modas”.

Mme Jeanne Bécu de Cantigny,
futura Condessa du Barry
     Mas a emoção chegou ao cúmulo quando se sou­be que Luís XV tinha o desígnio sem precedentes de impor à Corte, em apresentação oficial, uma rapa­riga de tão baixa categoria.

     – “Não sou, porventura, senhor de minhas ações?” – dissera a Choiseul. – “Ela é bonita, e é quanto me basta!”

     Mme du Barry foi apresentada, sozinha, por temor ao escândalo, em 22 de abril de 1769. Afora Mme de Béarn, que se encarregara do serviço, não houve nenhuma mulher na cerimônia.

     "Isso fez enorme ruído" – escreve o Duque de Croy. Mas tão bela reserva não podia durar e houve logo algumas defecções. Quase ninguém ia visitá-la... Consolidado o seu poder, a du Barry em breve teve a seus pés toda uma corte de admiradores.

     Choiseul, entretanto, não ocultara a sua desapro­vação e até se permitira zombar cruelmente do objeto dos amores reais. Tornara-se o campeão dos anti du Barry e o pólo de atração de todos os que se escan­dalizavam com o procedimento de Luís XV. Sua po­pularidade era, assim, acrescida pelo descrédito em que incorria o monarca.

Maria Teresa da Áustria
     Ora, a posição de Choiseul, primeiro-ministro, parecia, no momento, mais forte do que nunca e, po­de-se dizer, quase inabalável. Era o homem da política austríaca, e essa política ia receber brilhante con­sagração pelo casamento do Delfim Luís (1754-1793), neto do rei Luís XV e futuro Luís XVI, com a Arquiduquesa Maria Antonieta da Áustria (1755-1793), a filha mais nova (Maria Antonia) da Impe­ratriz Maria Teresa da Áustria (1740-1780), casamento de que Choiseul fo­ra o principal fautor.

     Delfim de França (dauphim) era o título do herdeiro aparente da Coroa francesa durante as dinastias Valois e Bourbon.

     A jovem Delfina, antes mesmo de deixar Viena, era ansiosamente esperada pelos partidários de Choiseul, como aliada poderosa contra a influencia cada vez maior de Mme du Barry.

Com 15 anos de idade, Maria
Antonieta casou-se por Procuração,
em Viena, com Luís de Bourbon.
     Mal pusesse os pés na França, Maria Antonieta, sem o saber, ia tornar-se o instrumento das rivalida­des odientas, dos cálculos interesseiros, dos orgulhos feridos, das ambições irrequietas, que dividiam os grupos mais influentes da Corte.

     Menina de apenas quinze anos, estranha a língua francesa, aos costumes e a rígida etiqueta de Versalhes, cheia de inocente candura, sem mais ori­entação que os conselhos prodigalizados à sua parti­da pela ternura maternal apreensiva de Maria Tere­sa, ela seria atirada sozinha a esse ambiente difícil, à mais complexa e falsa situação que pudera imagi­nar, entre as insídias insuspeitadas duma Corte cujas intrigas sorrateiras ia inconscientemente servir ou contrariar.

     Maria Antonieta, que personificava a imagem da aliança austríaca, chegava à França, por ironia do destino adverso, no momento preciso em que o obrei­ro dessa aliança sentia que já se lhe aproximava a hora da queda.

     E, todavia, pela irradiação de sua graça ingênua e pelo encanto de sua juventude, pela candura com que desdenhava as habilidades e hipocrisias con­vencionais, ela ia operar o prodígio de reunir, a prin­cípio, todos os sufrágios, de suscitar todos os entusiasmos, de fazer penetrar um pouco de ar puro naquela atmosfera viciada, de conquistar todos os corações e, se assim se pode dizer, de cristalizar em torno de si, todas as esperanças de melhores tempos.

Luís de Bourbon (1754-1793),
Delfim de França e futuro Luís XVI
     Tinham-se realizado festas deslumbrantes em Viena quando de seu casamento por Procuração.

     Mal grado a penúria do Tesouro, a Corte fran­cesa pretendia ultrapassá-las em fausto.

     "Não é todos os dias que o Delfim casa com a filha do imperador" – observa o Duque de Croy em suas Memórias, tão cheias de vida e de espirituosa sinceridade. "Entre três pessoas, gastamos vinte e duas mil libras em trajes, o que não é lá muito filosófico para um século que se preza de sê-Io”.

Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.

N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.

REVOLUÇÃO FRANCESA: 03/17 // O preparo do Casamento









   
Os preparativos da cerimônia e dos festejos
absorviam a aten­ção de todos.


Castelo de Versalhes, morada dos reis da França.
  
Arquiteto Ange-Jacques Gabriel
     Terminava-se apressadamente em Versalhes o novo salão de espetáculos, obra do mais importante arquiteto francês de sua época, Ange-Jacques Gabriel (1698-1782), em que se deviam realizar óperas e bailes em home­nagem a Delfina.

     Discutia-se com ardor se a du Barry iria ou não assistir oficialmente à cerimônia.

     Mas, enquanto discutia-se, ela se antecipara e já, em preparação para as festas, mandara fazer rou­pas suntuosas. Quer dizer que esperava poder usá-las.

     Uma mulher bonita fica inconsolável de deixar escapar uma ocasião semelhante, e bastava ver a que ponto o rei parecia enamorado dela para ter a certeza de que não lhe recusaria essa satisfação à sua facei­rice.

Condessa de Noailles
     A Arquiduquesa Maria Antonieta, que Mme de Noailles, sua dama de honor, tinha sido incumbida de acompanhar, deixara Viena em 21 de abril de 1770.

     Sua mãe, quando da separação, lhe prodigaliza­ra lágrimas e bons conselhos. Conselhos austeros de mãe cristã, recomendando observar sempre os de­veres de sua religião, fazer exame de consciência to­das as noites, desconfiar das companhias perigosas e reservar ao menos dois dias por ano ao retiro, a fim de se preparar para uma boa morte, como se deves­sem ser os últimos dias de sua vida.

Maria Tereza da Áustria com a família, em 1776
     Maria Teresa acrescentou alguns sábios precei­tos matrimoniais que, sem dúvida, muitas pessoas julgariam antiquados:

     "A mulher deve ser em tudo submissa ao mari­do e não deve ter outras ocupações senão agradar-­lhe e fazer-lhe as vontades.”

     "A verdadeira felicidade, neste mundo, consis­te num casamento feliz. Tudo depende de a mulher ser condescendente, meiga e amorosa.”

     Maria Antonieta chorou muito ao deixar a mãe, que, conforme pressentia, não tornaria a ver.

Maria Antonia, futura Maria
Antonieta, aos 13 anos de idade.
     De Viena a Estrasburgo a viagem durou quinze dias, sem incidentes.

     Em 7 de maio, a Delfina chegava a Estrasburgo. O casamento estava fixado para 16 de maio, em Ver­salhes.

     Foi em Kehl, numa pequena ilha do Reno, fronteira da França, onde se levantara expressamente um luxuoso pavilhão de madeira, que se realizou o curio­so cerimonial da entrega da Arquiduquesa Maria An­tonieta aos representantes da Corte da França.

     O pavilhão se compunha de duas peças, separa­das por um grande salão; uma das peças destinava-­se as damas e senhores da Corte de Viena que haviam acompanhado a arquiduquesa até então, a outra ao séquito Francês da Delfina, de que faziam parte a Con­dessa de Noailles, dama de honor, a Duquesa de Cos­sé, açafata, o bispo de Chartres, primeiro capelão, o Conde de Saulx, cavaleiro de honra, e oficiais da guarda pessoal.

Entrada de Maria Antonieta.
     De acordo com o cerimonial tradicional e simbólico, Maria Antonieta devia mudar de traje e tirar todas as vestes austríacas, inclusive camisa e meias, diz a Sra. Campan, não levando nada para a nova pátria que proviesse duma Corte estrangeira.

     Quando ela reapareceu metamorfoseada, estava, declarou a Baronesa de Oberkirch, "mil vezes mais encantadora vestida pela moda francesa".

     Num gracioso impulso de comovedora confiança, atirou-se nos braços de Mme de Noailles, pedindo-lhe que, de então em diante, orientasse a sua inexperiência e boa vontade. Mas a sequidão austera de Mme de Noailles, guardiã inflexível da etiqueta, não era feita de molde para corresponder a semelhantes efusões.

     Em Estrasburgo, fez-se uma recepção triunfal a Maria Antonieta.

     As mais lindas crianças da cidade, vestidas de pastores e pastoras de Lancret, ofereceram-lhe ramalhetes, e vinte e quatro moças das principais famílias de Estrasburgo, trajadas de alsacianas, vinham à fren­te da carruagem desfolhando rosas.

     Houve danças ao ar livre, fontes de vinho para o povo, coros, luminárias, repiques de sinos, salvas de artilharia, festa no palácio episcopal e, como fe­cho, esplêndidos fogos de artifício sabre a ilha.

Catedral de Estrasburgo
     No dia seguinte, Maria Antonieta ouviu missa solene na admirável catedral de Estrasburgo, à porta da qual a esperava para dar-lhe as boas-vindas, o jovem e belo em sua batina roxa, no meio do clero, o coadjutor Luís de Rohan.

     – “Sereis entre nós, senhora – disse-Ihe gentil­mente –, a imagem viva dessa imperatriz querida, que é, há tanto tempo, a admiração da Europa, como há de sê-lo da posteridade. É a alma de Maria Teresa que vai unir-se à dos Bourbons!”

     A pequena Delfina de quinze anos ouvia todas aquelas palavras tão suaves, que, para ela, se misturavam ao perfume do incenso, ao alegre badalar dos sinos, às aclamações, à radiosa luz duma manhã de maio que brincava através dos coruscantes vitrais.

     A viagem prosseguiu, como uma apoteose, entre os arcos de triunfo, as grinaldas de flores, os tape­tes de rosas e as aclamações do povo entusiasmado.

Cidade de Raims, castelo construído na Idade Média.
     Maria Antonieta passou por Nancy, Lunéville, Bar-Ie-Duc. Ao deixar Reims, a cidade das sagrações, conta-se que ela exclamou gentilmente:

     – “Esta é a cidade francesa que desejo rever o mais tarde possível.”

     Luís XV certamente a beijaria por essa frase deliciosa.

     A família real, para ir ao encontro da Delfina, viera passar a noite de 13 de maio em Compiègne.

     No dia 14, de manhã, as carruagens reais se diri­giram a uma encruzilhada dessa bela floresta de Com­piègne, onde se devia realizar a primeira entrevista.

     Choiseul obtivera a grande honra de ir adiante, para ser o primeiro a saudar aquela que personifi­cava o triunfo de sua política.

     – “Nunca esquecerei, senhor – disse-lhe ela – ­que fizestes a minha felicidade.”

     – “E a da França” – respondeu galantemente ChoiseuI, orgulhoso de semelhante acolhida.

Luís XV
     Luís XV descera da carruagem e esperava Ma­ria Antonieta no meio da clareira, cercado das três filhas e do Delfim. A Delfina, ao avistá-lo, saltou vivamente do carro e foi ajoelhar-se diante dele. 0 rei a ergueu de imediato, beijou-a paternalmente e lhe apresentou o Delfim, que a beijou também, cheio de embaraço... porque, dois dias antes da cerimônia, ela ainda não conhecia o futuro marido. Mas as moças de hoje, que vêem com freqüência os noivos, acaso os conhecerão muito melhor?

     Terminadas as apresentações, o rei fez sentar a pequena Delfina a seu lado na carruagem. O Delfim sentou-se diante dela, com Mme de Noailles. E o povo, aglomerado à beira do caminho, aclamava na passagem, o encantador e jovem par de seus futuros soberanos.

Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.