1 de jan. de 2013

REVOLUÇÃO FRANCESA: 08/17 // A sagração de Luís XVI








A Sagração de Luís XVI
 
     O dia da sagração de Luís XVI fora fixado para 11 de junho de 1775, domingo da Trindade.

Catedral de Reims
     A cerimônia da sagração começava às seis ho­ras. Os antepassados franceses eram mais madrugadores do que nós, pois desde as quatro horas toda a nave estava cheia, e as damas, com trajes de gala, instala­das em seus lugares.

     Erigira-se uma tribuna para que Maria Antonieta e as princesas pudessem ver me­lhor sem se misturarem com a multidão. À nave tinham-se colocado, pela ordem, os príncipes de san­gue, os duques, os marechais de França, os pares eclesiásticos, o clero e a magistratura.

     Às seis horas e meia, entrada solene dos seis príncipes, coroados e envergando seus mais suntuosos trajes de cerimônia; representavam os três mais an­tigos ducados e os três mais antigos condados do rei­no.

Luís XVI, em trajes da sagração
     Às sete horas, os dois bispos de Laon e de Beau­vais são delegados para ir buscar o rei.

     Segundo o cerimonial tradicional, o rei espera, deitado, vestido, com longa túnica de rendas de pra­ta, no leito de Luís XIII, como se estivesse dormindo.

     Os dois bispos batem a porta. Do interior, o Duque de Bouillon, camareiro-mor, pergunta:

     – “A quem procurais?”

     – “Ao rei” – dizem os bispos.

     – “O rei dorme” – replica o camareiro-mor.

     – “Procuramos Luís XVI, que Deus nos deu pa­ra rei” – volvem os bispos.

     Abre-se, então, a porta e os dois bispos abençoam o rei; depois, acontece a entrada solene na catedral.

Guardas Suíços
     Enquanto os sinos repicam, o arcebispo e o clero vêm à frente do cortejo real, seguidos de cem guar­das suíços com oboés, tambores, clarins, flautas e pífanos, dos três Duques de Bouillon, de Duras e de Lian­court, e de nove condes, com suas coroas, longos man­tos de arminho e túnicas de ouro.

     Depois, o rei, que marcha entre os dois bispos delegados, os capitães das guardas, com túnicas e mantos de tecido de ouro, e, enfim, todo o séquito com mantos de cetim branco.

     É soberbo o espetáculo desse desfile de trajes de ouro, de prata, de rendas, de veludo, de seda, em que dominam o negro, o branco e o roxo, com alguns tons de púrpura e de vermelho realçando o todo.

     Sua Majestade senta-se numa poltrona colocada sob o grande dossel erguido no meio do santuário.

Santa Âmbula
     O venerável arcebispo de Reims, o Cardeal de la Roche-Aymon, belo velho de mais de oitenta anos, fez questão de oficiar em pessoa, apesar da idade. Depois dum Veni Creator, o prior-mor da abadia de Saint-Rémy apresenta-se à entrada da catedral, trazendo a Santa Âmbula.

     A Santa Âmbula original tem origem milagrosa. Foi trazida, dizem, por uma pomba vinda do céu, para a sagração de Clodoveu. Desde então, ficou sob a guar­da do prior de Saint-Rémy. Não deixa a abadia senão para a unção dos reis da França. O prior-mor a con­duz, montando um cavalo branco como a pomba mila­grosa, sob um dossel levado pelos quatro barões da santa âmbula: os Srs. de La Rochefoucauld, de Talleyrand, de Rochechouart e de La Roche-Aymon.

     O arcebispo se aproxima do rei e pede-lhe segu­rança e proteção para a Igreja, que o rei promete. Depois, os dois bispos de Laon e de Beauvais apre­sentam-lhe a fórmula do juramento real, que ele pro­nuncia em voz alta. Obriga-sea impedir as iniqüidades, a fazer observar a justiça, a viver e morrer na religião, a manter a ordem no reino”.

     O rei prosterna-se então sobre um comprido ta­pete de veludo roxo. 0 arcebispo se prosterna no seu lado, enquanto os bispos recitam as ladainhas.

     Realiza-se em seguida a consagração com o óleo santificado da santa âmbula. O arcebispo faz seis un­ções no rei, dizendo:

     – “Eu vos sagro rei, com este santo óleo, em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo.”

Carlos Magno, em Ouro
     Sobre o altar se acham preparados a coroa de ouro, pedras preciosas e diamantes, o cetro de ouro de Carlos Magno, o bastão da justiça e o manto real.

     Entrega-se o cetro ao rei, com estas palavras:

     – “Recebei este cetro, símbolo do poder real, ce­tro de retidão e regra de virtude, para bem conduzir­des, vós próprio, a Igreja e o povo, para vos defen­derdes dos maus, corrigirdes os perversos e a fim de que passeis dum reino temporal a um reino eterno.”

     Finalmente, os cinco duques do reino e os cinco pares eclesiásticos aproximam-se para a coroação.

     O arcebispo coloca sobre a cabeça do rei a coroa de Car­los Magno, enquanto os duques e os pares a tocam com a mão, como símbolo de assistência, obediência e fidelidade.

Luís XVI com o grande manto azul
     Depois que o rei pôs sobre os ombros o grande manto azul forrado de arminho e semeado de flores­-de-lis de ouro, é conduzido – com a coroa na cabeça, o cetro na mão direita, o bastão da justiça na esquer­da – até o trono, onde se senta e é visto por todos.


A coroa de Carlos Magno
     É a cerimônia da entronização. Abrem-se então de par em par as portas da catedral, para que o povo possa contemplar o rei que Deus lhe deu. A multidão se precipita para o interior aclamando o rei, enquan­to os sinos repicam, tocam os clarins e se dão salvas de mosquetes em sinal de júbilo; soltam-se milhares de passarinhos na nave da catedral; o povo que ficou diante da porta, e a quem se atiram punhados de me­dalhas comemorativas da sagração, mistura seus vi­vas e aplausos à alegria geral.

     Nesse momento entre todos emocionante, Maria Antonieta, presa de agitação, não pode conter as lágrimas. Escondeu o rosto nas mãos para chorar mais à vontade; mas eram lágrimas de alegria, e ela se lem­braria sempre dos dias de Reims como dos mais felizes de sua vida.

     A emoção da rainha não passou desper­cebida. Todos os olhos se voltaram para ela e o povo redobrou de aclamações em sua honra, demonstrando assim que confundia no mesmo sentimento de afeição e fidelidade Luís XVI e Maria Antonieta.

Marmontel
     Jean-François Marmontel escreveu que, nesse instante, a emo­ção era geral e que o próprio enviado de Trípoli não pudera reter as lágrimas diante de tal espetáculo.

     Após a cerimônia, o rei passeou democratica­mente no meio de seu povo, recomendando aos guardas encarregados da manutenção da ordem que não importunassem a multidão.

     – “Não quero que nada impeça que o povo e eu nos vejamos” – dizia.

     Enfim, entre as cerimônias da sagração, há uma cena singularmente pitoresca, que nos descrevem os relatos daquele tempo. É a da cura ou tentativa de cura das escrófulas pelo rei.

As curas de Reims
     Uma crença perpetuada desde São Luís pretendia que os reis da França tivessem o poder quase milagroso de curar pelo toque as escrófulas e até os cancros. E a tradição manti­vera-se constantemente em vigor, de modo que o rei, nas festas da sagração, destinou um dia para tentar curar todas as lamentáveis chagas físicas dos doentes de seu reino.

     Era uma tarefa repelente e meritória.

     Dois mil e quatrocentos escrofulosos e cancero­sos enfileiravam-se a ambos os lados duma comprida alameda, que atravessava o parque à direita da igreja.

     – “Com o calor” – diz o Duque de Croy, que assis­tia ao episódio – "o mau cheiro era tremendo e o ar estava infeto, de sorte que era preciso muita coragem e força ao rei para tomar parte nessa cerimônia, que eu não teria julgado, antes de vê-la, tão rude e repugnante.”

Luís XVI distribui esmolas enquanto cumpre a
penosa missão de abençoar os doentes
     Luís XVI, entretanto, sem se deixar desanimar pelo cheiro e pelo aspecto daquelas chagas horren­das, tocava paternalmente cada um dos enfermos na fronte, nas duas faces e no queixo, esboçando o sinal da cruz, e dizia, cada vez, esta frase:

     – “Deus te cure, o rei te toca.”

     Um médico o assistia, levando um vaso de vina­gre, em que o rei molhava a mão antes de passar ao doente seguinte. Atrás dele vinham os marechais da França e os grandes oficiais da coroa.

     Chegado, enfim, ao termo da penosa missão, Luís XVI lavou as mãos, primeiro em vinagre, depois em água pura e finalmente em álcool de flores de laran­jeira, o que prova que, antes de se conhecerem os micróbios, já se tomavam, empiricamente, cuidados de anti-sepsias suficientes para evitá-los.

Nova idade de ouro?

Cidade de Reims
     O rei e a rainha deixaram Reims em 15 de junho, à tarde, delirantemente aclamados por toda parte à sua passagem. Julgavam todos ver renascer, com o reinado desses novos soberanos tão populares, os mais belos dias da monarquia. Mas esse sonho dum povo inteiro, pelo próprio excesso de suas esperanças, estava car­regado de decepções próximas.

     Esse entusiasmo demasiado grande era perigoso em si mesmo, porque estava túmido de ilusões e se inspirava, em parte, naquele espírito de revolta con­tra os deveres importunos, que caracterizava a época, ao mesmo tempo otimista e frívola.

Malesherbes
     Queria-se sacudir toda sujeição, suprimir todo protocolo, abolir todo rigor, para que permanecesse apenas a bondade da natureza humana e o reinado da filosofia. Acredita­va-se que tudo seria fácil no dia imediato àquele em que cessasse de pesar o jugo severo e detestado dos últimos anos de Luís XV.

     Um jovem rei, bom, paternal, generoso, caritati­vo, virtuoso, um rei que se apressava a convocar o Parlamento adversário dos impostos, um rei que se rodeava de ministros amigos dos filósofos, como Guillaume-Chrétien de Lamoignon de Ma­lesherbes e Anne Robert Jacques Turgot, e que não se mostrava hostil às idéias novas de tolerância, liberdade, igualdade, hu­manidade – tal fraseologia filosófica andava, então, em todas as bocas – esse rei devia necessariamente trazer a felicidade a todos e fazer reinar para seu po­vo, como escrevia um poeta, "nova idade de ouro!"

Turgot
     Anne Robert Jacques Turgot (1727-1781) foi um economista francês cuja obra é considerada um elo entre a fisiocracia e a escola britânica de economia clássica. Ele estudou na Universidade de Sorbonne e foi trabalhar na administração real.
Grande admirador dos enciclopedistas, os pensadores iluministas que formaram a primeira escola de economia científica, tornou-se um adepto da fisiocracia.

     Como intendente de Limonges (a partir de 1761), Turgot aplicou com grande sucesso uma série de medidas destinadas à racionalizar a economia. Defendeu o livre comércio e a interdependência entre as diferentes classes econômicas.

     Pelo sucesso, foi nomeado ministro-geral das Finanças do rei Luís XVI de França (1774). Porém, suas idéias de reforma econômica liberal despertaram a ira do clero e da nobreza, pois lhes tiravam certas mordomias e privilégios.

     Infelizmente, por singular ironia da sorte, as “ida­des de ouro” que repousam em semelhantes ilusões se transformam depressa naquelas em que o ouro é o que mais falta. O povo desperta em breve desse sonho dourado, no meio de angustiosa crise financeira, e a necessidade imperiosa de conseguir dinheiro, muito dinheiro, não tardará a tornar odioso o governo que, no começo, fora o mais popular.

     Eis em resumo, a história do infeliz Luís XVI. Mas essa história não lhe é absolutamente peculiar. Ela é eterna como as ilusões humanas. Pode, portanto, ser de todos os tempos e renovar-se sob todas as for­mas de governo.

     Se não quisermos correr o risco de conhecer, por nossa vez, as suas cruéis decepções, tenham a prudência de não acreditar no advento duma “nova idade de ouro”.

Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.