O dia da sagração de Luís XVI fora fixado para 11 de junho de 1775, domingo da Trindade.
A cerimônia da sagração começava às seis horas. Os antepassados franceses eram mais madrugadores do que nós, pois desde as quatro horas toda a nave estava cheia, e as damas, com trajes de gala, instaladas em seus lugares.
Erigira-se uma tribuna para que Maria Antonieta e as princesas pudessem ver melhor sem se misturarem com a multidão. À nave tinham-se colocado, pela ordem, os príncipes de sangue, os duques, os marechais de França, os pares eclesiásticos, o clero e a magistratura.
Às seis horas e meia, entrada solene dos seis príncipes, coroados e envergando seus mais suntuosos trajes de cerimônia; representavam os três mais antigos ducados e os três mais antigos condados do reino.
Às sete horas, os dois bispos de Laon e de Beauvais são delegados para ir buscar o rei.
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| Luís XVI, em trajes da sagração |
Segundo o cerimonial tradicional, o rei espera, deitado, vestido, com longa túnica de rendas de prata, no leito de Luís XIII, como se estivesse dormindo.
Os dois bispos batem a porta. Do interior, o Duque de Bouillon, camareiro-mor, pergunta:
– “A quem procurais?”
– “Ao rei” – dizem os bispos.
– “O rei dorme” – replica o camareiro-mor.
– “Procuramos Luís XVI, que Deus nos deu para rei” – volvem os bispos.
Abre-se, então, a porta e os dois bispos abençoam o rei; depois, acontece a entrada solene na catedral.
Enquanto os sinos repicam, o arcebispo e o clero vêm à frente do cortejo real, seguidos de cem guardas suíços com oboés, tambores, clarins, flautas e pífanos, dos três Duques de Bouillon, de Duras e de Liancourt, e de nove condes, com suas coroas, longos mantos de arminho e túnicas de ouro.
Depois, o rei, que marcha entre os dois bispos delegados, os capitães das guardas, com túnicas e mantos de tecido de ouro, e, enfim, todo o séquito com mantos de cetim branco.
É soberbo o espetáculo desse desfile de trajes de ouro, de prata, de rendas, de veludo, de seda, em que dominam o negro, o branco e o roxo, com alguns tons de púrpura e de vermelho realçando o todo.
Sua Majestade senta-se numa poltrona colocada sob o grande dossel erguido no meio do santuário.
O venerável arcebispo de Reims, o Cardeal de la Roche-Aymon, belo velho de mais de oitenta anos, fez questão de oficiar em pessoa, apesar da idade. Depois dum Veni Creator, o prior-mor da abadia de Saint-Rémy apresenta-se à entrada da catedral, trazendo a Santa Âmbula.
A Santa Âmbula original tem origem milagrosa. Foi trazida, dizem, por uma pomba vinda do céu, para a sagração de Clodoveu. Desde então, ficou sob a guarda do prior de Saint-Rémy. Não deixa a abadia senão para a unção dos reis da França. O prior-mor a conduz, montando um cavalo branco como a pomba milagrosa, sob um dossel levado pelos quatro barões da santa âmbula: os Srs. de La Rochefoucauld, de Talleyrand, de Rochechouart e de La Roche-Aymon.
O arcebispo se aproxima do rei e pede-lhe segurança e proteção para a Igreja, que o rei promete. Depois, os dois bispos de Laon e de Beauvais apresentam-lhe a fórmula do juramento real, que ele pronuncia em voz alta. Obriga-se “a impedir as iniqüidades, a fazer observar a justiça, a viver e morrer na religião, a manter a ordem no reino”.
O rei prosterna-se então sobre um comprido tapete de veludo roxo. 0 arcebispo se prosterna no seu lado, enquanto os bispos recitam as ladainhas.
Realiza-se em seguida a consagração com o óleo santificado da santa âmbula. O arcebispo faz seis unções no rei, dizendo:
– “Eu vos sagro rei, com este santo óleo, em nome do Padre , do Filho e do Espírito Santo.”
Sobre o altar se acham preparados a coroa de ouro, pedras preciosas e diamantes, o cetro de ouro de Carlos Magno, o bastão da justiça e o manto real.
Entrega-se o cetro ao rei, com estas palavras:
– “Recebei este cetro, símbolo do poder real, cetro de retidão e regra de virtude, para bem conduzirdes, vós próprio, a Igreja e o povo, para vos defenderdes dos maus, corrigirdes os perversos e a fim de que passeis dum reino temporal a um reino eterno.”
Finalmente, os cinco duques do reino e os cinco pares eclesiásticos aproximam-se para a coroação.
O arcebispo coloca sobre a cabeça do rei a coroa de Carlos Magno, enquanto os duques e os pares a tocam com a mão, como símbolo de assistência, obediência e fidelidade.
Depois que o rei pôs sobre os ombros o grande manto azul forrado de arminho e semeado de flores-de-lis de ouro, é conduzido – com a coroa na cabeça, o cetro na mão direita, o bastão da justiça na esquerda – até o trono, onde se senta e é visto por todos.
É a cerimônia da entronização. Abrem-se então de par em par as portas da catedral, para que o povo possa contemplar o rei que Deus lhe deu. A multidão se precipita para o interior aclamando o rei, enquanto os sinos repicam, tocam os clarins e se dão salvas de mosquetes em sinal de júbilo; soltam-se milhares de passarinhos na nave da catedral; o povo que ficou diante da porta, e a quem se atiram punhados de medalhas comemorativas da sagração, mistura seus vivas e aplausos à alegria geral.
Nesse momento entre todos emocionante, Maria Antonieta, presa de agitação, não pode conter as lágrimas. Escondeu o rosto nas mãos para chorar mais à vontade; mas eram lágrimas de alegria, e ela se lembraria sempre dos dias de Reims como dos mais felizes de sua vida.
A emoção da rainha não passou despercebida. Todos os olhos se voltaram para ela e o povo redobrou de aclamações em sua honra, demonstrando assim que confundia no mesmo sentimento de afeição e fidelidade Luís XVI e Maria Antonieta.
Jean-François Marmontel escreveu que, nesse instante, a emoção era geral e que o próprio enviado de Trípoli não pudera reter as lágrimas diante de tal espetáculo.
Após a cerimônia, o rei passeou democraticamente no meio de seu povo, recomendando aos guardas encarregados da manutenção da ordem que não importunassem a multidão.
– “Não quero que nada impeça que o povo e eu nos vejamos” – dizia.
Enfim, entre as cerimônias da sagração, há uma cena singularmente pitoresca, que nos descrevem os relatos daquele tempo. É a da cura ou tentativa de cura das escrófulas pelo rei.
Uma crença perpetuada desde São Luís pretendia que os reis da França tivessem o poder quase milagroso de curar pelo toque as escrófulas e até os cancros. E a tradição mantivera-se constantemente em vigor, de modo que o rei, nas festas da sagração, destinou um dia para tentar curar todas as lamentáveis chagas físicas dos doentes de seu reino.
Era uma tarefa repelente e meritória.
Dois mil e quatrocentos escrofulosos e cancerosos enfileiravam-se a ambos os lados duma comprida alameda, que atravessava o parque à direita da igreja.
– “Com o calor” – diz o Duque de Croy, que assistia ao episódio – "o mau cheiro era tremendo e o ar estava infeto, de sorte que era preciso muita coragem e força ao rei para tomar parte nessa cerimônia, que eu não teria julgado, antes de vê-la, tão rude e repugnante.”
Luís XVI, entretanto, sem se deixar desanimar pelo cheiro e pelo aspecto daquelas chagas horrendas, tocava paternalmente cada um dos enfermos na fronte, nas duas faces e no queixo, esboçando o sinal da cruz, e dizia, cada vez, esta frase:
– “Deus te cure, o rei te toca.”
Um médico o assistia, levando um vaso de vinagre, em que o rei molhava a mão antes de passar ao doente seguinte. Atrás dele vinham os marechais da França e os grandes oficiais da coroa.
Chegado, enfim, ao termo da penosa missão, Luís XVI lavou as mãos, primeiro em vinagre, depois em água pura e finalmente em álcool de flores de laranjeira, o que prova que, antes de se conhecerem os micróbios, já se tomavam, empiricamente, cuidados de anti-sepsias suficientes para evitá-los.
Nova idade de ouro?
O rei e a rainha deixaram Reims em 15 de junho, à tarde, delirantemente aclamados por toda parte à sua passagem. Julgavam todos ver renascer, com o reinado desses novos soberanos tão populares, os mais belos dias da monarquia. Mas esse sonho dum povo inteiro, pelo próprio excesso de suas esperanças, estava carregado de decepções próximas.
Esse entusiasmo demasiado grande era perigoso em si mesmo, porque estava túmido de ilusões e se inspirava, em parte, naquele espírito de revolta contra os deveres importunos, que caracterizava a época, ao mesmo tempo otimista e frívola.
Queria-se sacudir toda sujeição, suprimir todo protocolo, abolir todo rigor, para que permanecesse apenas a bondade da natureza humana e o reinado da filosofia. Acreditava-se que tudo seria fácil no dia imediato àquele em que cessasse de pesar o jugo severo e detestado dos últimos anos de Luís XV.
Um jovem rei, bom, paternal, generoso, caritativo, virtuoso, um rei que se apressava a convocar o Parlamento adversário dos impostos, um rei que se rodeava de ministros amigos dos filósofos, como Guillaume-Chrétien de Lamoignon de Malesherbes e Anne Robert Jacques Turgot, e que não se mostrava hostil às idéias novas de tolerância, liberdade, igualdade, humanidade – tal fraseologia filosófica andava, então, em todas as bocas – esse rei devia necessariamente trazer a felicidade a todos e fazer reinar para seu povo, como escrevia um poeta, "nova idade de ouro!"
Anne Robert Jacques Turgot (1727-1781) foi um economista francês cuja obra é considerada um elo entre a fisiocracia e a escola britânica de economia clássica. Ele estudou na Universidade de Sorbonne e foi trabalhar na administração real.
Grande admirador dos enciclopedistas, os pensadores iluministas que formaram a primeira escola de economia científica, tornou-se um adepto da fisiocracia.
Como intendente de Limonges (a partir de 1761), Turgot aplicou com grande sucesso uma série de medidas destinadas à racionalizar a economia. Defendeu o livre comércio e a interdependência entre as diferentes classes econômicas.
Pelo sucesso, foi nomeado ministro-geral das Finanças do rei Luís XVI de França (1774). Porém, suas idéias de reforma econômica liberal despertaram a ira do clero e da nobreza, pois lhes tiravam certas mordomias e privilégios.
Infelizmente, por singular ironia da sorte, as “idades de ouro” que repousam em semelhantes ilusões se transformam depressa naquelas em que o ouro é o que mais falta. O povo desperta em breve desse sonho dourado, no meio de angustiosa crise financeira, e a necessidade imperiosa de conseguir dinheiro, muito dinheiro, não tardará a tornar odioso o governo que, no começo, fora o mais popular.
Eis em resumo, a história do infeliz Luís XVI. Mas essa história não lhe é absolutamente peculiar. Ela é eterna como as ilusões humanas. Pode, portanto, ser de todos os tempos e renovar-se sob todas as formas de governo.
Se não quisermos correr o risco de conhecer, por nossa vez, as suas cruéis decepções, tenham a prudência de não acreditar no advento duma “nova idade de ouro”.
Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.













