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| Luís XVI e seus ministros |
Empenhava-se – dizia o rei – em tranqüilizar as províncias sobre o que se tinha passado. Fora com seu pleno assentimento que viera para a Capital, onde recebera testemunhos de respeito, de amor e de fidelidade, e onde “estava livre para cooperar com a Assembléia na restauração da felicidade publica”. Empregava admirável eufemismo ao dizer que “a milícia nacional desejara ter a honra de lhe servir de guarda”. Era dessa maneira que explicava o papel daqueles que, em realidade, se haviam tornado seus carcereiros.
Semelhante proclamação fazia o jogo dos revolucionários, uma vez que passava uma esponja sobre seus crimes, com uma resignação que tinha mais de fraqueza que de magnanimidade.
O único protesto ocasionado por ela foi o do Visconde de Mirabeau, que, mais realista do que o rei, exclamou em plena Assembléia:
– “Não duvido que o rei esteja livre como proclama; mas, se não o estivesse, poderia dizer outra coisa?”
Essa intervenção provocou escândalo. Numerosos deputados propuseram excluir o Visconde de Mirabeau da Assembléia. Pretenderia alguém, na verdade, dizer em voz alta e assim cruamente aquilo que cada qual pensava, no seu foro íntimo, sem ter a coragem de confessar?
Produzir e explorar novos descontentamentos populares
Entretanto, a Revolução, tendo atingido todos os objetivos que fixara a princípio, parecia hesitar. Era-lhe necessário recobrar as forças, isto é, deixar a desordem, que ela fizera nascer, produzir novos descontentamentos populares, que pudesse explorar.
Luís XVI tinha, pois, urna derradeira oportunidade para salvar-se, aproveitando as poucas semanas de trégua forçada e de liberdade relativa que ainda lhe deixavam. Mirabeau compreendeu-o, e em 15 de outubro enviava ao Conde de Provença um plano de ação política destinado ao rei.
– “O único meio de salvar o Estado e a Constituição” – dizia – “é colocar o rei em posição que lhe permita, sem demora, fazer uma coligação com os seus povos.”
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| Ruão, na França |
De que precisaria para sair-se bem?
Simplesmente dum bom ministro! Mirabeau estava disposto a oferecer seus serviços.
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| Luís XVI gostava da solidão |
Não se sabe.
Era um homem desconcertante esse Luís XVI!
Montmorion dizia dele:
– “Quando uma pessoa fala de negócios a este ser inerte, parece que lhe está falando de coisas relativas ao imperador da China!”
O rei aborrecia-se, como seu avô Luís XV. Um aborrecimento sombrio formava o fundo, a urdidura dessas existências reais. Luís XV tinha ainda suas amantes para distração. Mas a única distração que podia aliviar Luís XVI desse indizível tédio era a caça. E ele não caçava mais. Uma palavra retorna, cada vez mais freqüente, em seu diário – palavra que lhe resume a ação e o papel nesse momento tão crítico: “Nada!”
Ele não fazia nada, com efeito, para escapar de sua sorte, nada para lutar contra a Revolução. Seus ministros, tão tímidos e irresolutos quanto ele, não tinham nenhum plano e contentavam-se em adiar a solução das dificuldades. Sua única força, diante das exigências da Assembléia, era a inércia.
O rei espera servir-se da Revolução usando de astúcia com ela!
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| Luís XVI e Maria Antonieta |
Assim, odeia Mirabeau, em quem vê sempre o homem do Duque de Orléans, seu inimigo pessoal. Pois é o Duque de Orléans que ela crê ser o único responsável pelas jornadas sangrentas de 5 e 6 de outubro. Compreenderá tarde demais que Mirabeau não procurava, junto do Duque de Orléans, senão a satisfação de suas ambições pessoais e de seu espírito de ganância, e que ele está, agora, pronto a servi-la com a mesma sinceridade... interesseira!
Também Maria Antonieta deixou passar o momento favorável para agir utilmente de acordo com La Fayette e Mirabeau.
Mas os projetos de evasão que se formam em torno dela, e que ela estimula, chegam pouco a pouco ao conhecimento dos revolucionários. Encontram-se, na casa dum tal Augeard, pIanos relativos a um projeto de ida para Metz. Supõe-se que haja outras conspirações, e nisso se baseiam os libelos revolucionários para excitar as suspeitas do povo. Mara t exorta o povo a vigiar bem o monarca hipócrita, revoltado contra a Nação.
Luís XVI é pintado como sendo um rei fugitivo que regressa à frente dum exército estrangeiro e reduz Paris à fome.
Às vezes se espalha o boato de que o rei fugiu, e a multidão corre às Tulherias para exigir que ele apareça. Crescem as suspeitas contra ele. Começam a apresentar Luís XVI como sendo o responsável pela crise dos negócios, pela desocupação, pela escassez do pão, pela carestia da vida, pela desastrosa situação financeira do reino.
Porque o Tesouro está vazio, não se arrecadam mais impostos, os camponeses recusam-se a pagá-Ios; incendeiam e pilham os castelos, de maneira que a emigração recrudesce e todo o dinheiro de contado é escondido ou atravessa as fronteiras com os aristocratas, deixando a França numa miséria financeira que explica o marasmo geral.
Por toda a parte campeia a desordem. A miséria e pavorosa. Os mendigos, em Paris, somam duzentos mil. As oficinas de caridade recusam gente. As municipalidades esgotam-se para prover à subsistência dos desempregados. 0 exército, mal pago, amotina-se em diversos lugares. Mas a Assembléia Nacional, que se declara “dolorosamente surpreendida” com esses incidentes, não permite que se aplique nenhuma sanção, e a indisciplina se avoluma.
É nesse momento que irrompe o escândalo do caso Favras. Mais uma conspiração cujo fim era arrebatar o rei, e na qual o Conde de Provença aparecia seriamente comprometido.
A popularidade de Luís XVI ficou, com isso, muito abalada. Com que, então, o rei não pensava senão em fugir ou fazer-se raptar! Seu único sonho era subtrair-se a seus deveres, repudiar as suas promessas e livrar-se da Constituição que ele próprio assinara, em lugar de cooperar sinceramente com a Assembléia para a felicidade do povo!
Essas as reflexões que o caso Favras sugeria ao país inquieto com seu destino, exacerbado por todas as calamidades que se abatiam sabre ele desde que acreditara conquistar mais justiça e mais liberdade.
O rei, cuja modesta ambição parecia ser a de fazer-se tolerar mediante concessões sempre maiores, decidiu, mais uma vez, reconquistar as graças da opinião pública por um passo em que saía ferido o seu amor-próprio. No dia 4 de fevereiro de 1790, compareceu à Assembléia e, com surpresa dos deputados, pronunciou um discurso em que protestava sua lealdade à Constituição, e que se declarava disposto a manter e mesmo, em caso de necessidade, a defender!
Ninguém teria ousado lhe pedir tanto. Concitou a Assembléia a trabalhar para assegurar a ordem, tão cruelmente abalada no interior.
– “Esclarecei quanto aos seus verdadeiros interesses – dizia Luís XVI – o povo que anda desencaminhado, esse bom povo que me é tão caro e pelo qual sou amado, segundo me assegura quando vêm consolar-me as penas. Professemos todos uma única opinião, um único interesse e uma única vontade, o apego à Constituição e o desejo ardente da paz, da felicidade e da prosperidade da Nação!”
Esse comovente apelo à união nacional foi recebido pela Assembléia com gritos de entusiasmo.
Por singular ironia, os deputados exclamavam: “Viva o rei!” com mais ardor do que nunca, no momento em que o rei vinha despojar-se de sua soberania e consagrar, de certo modo, a própria destituição, ao reconhecer, pela atitude implorativa e pelo sentido do seu discurso, a soberania da Assembléia Nacional.
Um único homem compreendeu toda a gravidade do passo dado por Luís XVI, que procurava assim, sem dúvida, recobrar um pouco de popularidade em detrimento de sua dignidade. Exasperado com essa cena lastimável e com a falta de caráter desse rei muito pouco realista, o coronel Visconde de Mirabeau deixou imediatamente a Assembléia, exclamando num nobre impulso de cólera:
– “Quando um rei parte assim o cetro, a seu servidor nada mais resta do que quebrar a espada!”
E foi o que fez, num gesto de desespero.
Luis XVI não conseguiu senão um ilusório benefício dessa última concessão. A união foi apenas efêmera, o acordo apenas aparente.
Era manifesto que os sacrifícios do seu amor-próprio não desarmariam os adversários e que, pelo contrário, renunciando às suas derradeiras prerrogativas, nada mais fazia do que apressar o momento em que os revolucionários proclamassem a função do rei um encargo inútil para a Nação. As concessões que fazia, na esperança de continuar a ser tolerado, fortaleciam os seus inimigos, aumentavam-lhes ainda mais as exigências e tiravam-lhe os últimos meios de resistir.
“Livro vermelho” aponta despesas escandalosas da Corte
Em breve os panfletos recomeçaram, mais violentos. Os revolucionários tiveram a idéia oportuna de publicar uma lista recapitulativa de todas as pensões pagas pela Corte, durante o reinado de Luís XVI. A esse relatório chamaram o “Livro vermelho”.
– “Seria melhor que o chamassem livro de ouro – dizia, com ironia terrível, Camilo Desmoulins – pois é, na verdade, o nome que lhe convém.”
Foi grande a repercussão do livro, tanto mais que o país se achava a braços com a mais cruel das crises financeiras que nos últimos tempos assolara a França.
– “A bancarrota, a horrenda bancarrota está às nossas portas” – exclamava Mirabeau.
E era nesse momento que se vinha a saber, pelo “Livro vermelho”, que importâncias haviam recebido todos os aristocratas detestados, os cortesãos de Versalhes, os militares, os magistrados, os padres, as amigas da rainha, a Princesa de Lamballe e Mme de Polignac, todos os inimigos da Revolução, em suma.
O total das pensões, durante os quinze anos de reinado, elevava-se a duzentos e vinte e oito milhões. Sem dúvida, grande parte dessas despesas se justificava pelos serviços prestados. Mas os panfletos encontravam aí uma boa oportunidade para assinalar os abusos e deplorar com virtuosa indignação a prodigalidade do Tesouro Público, no momento em que sua penúria alarmava o país.
– “Este livro” – escrevia-se – “deve ser o catecismo de todos os amigos da Revolução.”
Assim, pouco a pouco, ia-se esboroando a popularidade de Luís XVI, que era o último baluarte da monarquia agonizante.
Uma multidão malévola, esperando a oportunidade para a revolta, rondava dia e noite as Tulherias, sob o pretexto de certificar-se de que o rei continuava lá. Maria Antonieta era espreitada, seguida passo a passo em todos os seus passeios.
Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.




