1 de jan. de 2013

REVOLUÇÃO FRANCESA: 15/17 // O jogo dos revolucionários


O jogo dos Revolucionários

Luís XVI e seus ministros
     O rei Luís XVI, já a 9 de outubro, dirigiu uma proclama­ção ao povo, em que expressava seus sentimentos de benignidade e procurava salvar as aparências redu­zindo o papel da sedição, ante a qual, na realidade, tivera que ceder.

     Empenhava-se – dizia o rei – em tranqüilizar as províncias sobre o que se tinha passado. Fora com seu pleno assentimento que viera para a Capital, onde recebera testemunhos de respeito, de amor e de fide­lidade, e onde “estava livre para cooperar com a Assembléia na restauração da felicidade publica”. Em­pregava admirável eufemismo ao dizer que “a milícia nacional desejara ter a honra de lhe servir de guarda”. Era dessa maneira que explicava o papel daqueles que, em realidade, se haviam tornado seus carcereiros.

     Semelhante proclamação fazia o jogo dos revolucionários, uma vez que passava uma esponja sobre seus crimes, com uma resignação que tinha mais de fraqueza que de magnanimidade.

     O único protesto ocasionado por ela foi o do Vis­conde de Mirabeau, que, mais realista do que o rei, exclamou em plena Assembléia:

     – “Não duvido que o rei esteja livre como procla­ma; mas, se não o estivesse, poderia dizer outra coisa?”

     Essa intervenção provocou escândalo. Numerosos deputados propuseram excluir o Visconde de Mira­beau da Assembléia. Pretenderia alguém, na verdade, dizer em voz alta e assim cruamente aquilo que cada qual pensava, no seu foro íntimo, sem ter a coragem de confessar?

Produzir e explorar novos descon­tentamentos populares

     Entretanto, a Revolução, tendo atingido todos os objetivos que fixara a princípio, parecia hesitar. Era­-lhe necessário recobrar as forças, isto é, deixar a de­sordem, que ela fizera nascer, produzir novos descon­tentamentos populares, que pudesse explorar.

     Luís XVI tinha, pois, urna derradeira oportuni­dade para salvar-se, aproveitando as poucas semanas de trégua forçada e de liberdade relativa que ainda lhe deixavam. Mirabeau compreendeu-o, e em 15 de outubro enviava ao Conde de Provença um plano de ação política destinado ao rei.

     – “O único meio de salvar o Estado e a Constituição” – dizia – “é colocar o rei em posição que lhe permita, sem demora, fazer uma coligação com os seus povos.”

Ruão, na França
     Em conseqüência, era preciso deixar Paris ime­diatamente e retirar-se, não para Metz, como deseja­va Maria Antonieta, porque pareceria estar procu­rando o apoio do estrangeiro contra a nação, mas pa­ra Ruão, a fim de unir todas as províncias do Oeste que haviam ficado fiéis. De lá, com plena liberdade de ação, no meio de populações ardentemente realis­tas, o rei poderia lutar com êxito contra a Revolução, desaprovar as iniciativas infelizes da Assembléia Na­cional, desacreditando-a pouco a pouco, enquanto arrebatando-lhe toda influencia e popularidade. Ele próprio, ampa­rado na afeição popular, realizaria “a indivisibilida­de do monarca e do povo”; em suma, uma democra­cia real.

     De que precisaria para sair-se bem?

     Simplesmente dum bom ministro! Mirabeau esta­va disposto a oferecer seus serviços.

Luís XVI gostava da solidão
     Teve o rei conhecimento do memorial? Compre­endeu essa política maquiavélica? Não aceitou porque julgava o plano muito complicado e lhe repugna­va ter Mirabeau como ministro? Hesitante como sem­pre, oscilou entre diversos alvitres sem finalmente adotar nenhum?

     Não se sabe.

     Era um homem desconcertante esse Luís XVI!

     Montmorion dizia dele:

     – “Quando uma pessoa fala de negócios a este ser inerte, parece que lhe está falando de coisas relativas ao imperador da China!”

     O rei aborrecia-se, como seu avô Luís XV. Um abor­recimento sombrio formava o fundo, a urdidura des­sas existências reais. Luís XV tinha ainda suas amantes para distração. Mas a única distração que podia aliviar Luís XVI desse indizível tédio era a caça. E ele não caçava mais. Uma palavra retorna, cada vez mais freqüente, em seu diário – palavra que lhe resume a ação e o papel nesse momento tão crítico: “Nada!”

     Ele não fazia nada, com efeito, para escapar de sua sorte, nada para lutar contra a Revolução. Seus ministros, tão tímidos e irresolutos quanto ele, não tinham nenhum plano e contentavam-se em adiar a solução das dificuldades. Sua única força, diante das exigências da Assembléia, era a inércia.

     Em torno de Maria Antonieta, pelo contrário, há agitação, formam-se projetos de fuga. Mas a própria Maria Antonieta é entravada na sua realização pela resistência do rei. A Luís XV repugna fugir. Julga de seu dever ficar no posto. Talvez se iluda com sua popularidade, que, segundo crê, o torna invulnerável.

O rei espera servir-se da Revolução usando de astúcia com ela!

Luís XVI e Maria Antonieta
     Maria Antonieta não tem as mesmas ilusões, mas as suas opiniões políticas são sobretudo intuitivas. Obedece a sentimentos, a simples impressões, nem sem­pre fundadas. É levada por motivos femininos, por caprichos, pela vaidade ferida e por hostilidades pes­soais.

     Assim, odeia Mirabeau, em quem vê sempre o ho­mem do Duque de Orléans, seu inimigo pessoal. Pois é o Duque de Orléans que ela crê ser o único responsável pelas jornadas sangrentas de 5 e 6 de outubro. Compreenderá tarde demais que Mirabeau não pro­curava, junto do Duque de Orléans, senão a satisfa­ção de suas ambições pessoais e de seu espírito de ganância, e que ele está, agora, pronto a servi-la com a mesma sinceridade... interesseira!

     Também Maria Antonieta deixou passar o momento favorável para agir util­mente de acordo com La Fayette e Mirabeau.

     Mas os projetos de evasão que se formam em torno dela, e que ela estimula, chegam pouco a pou­co ao conhecimento dos revolucionários. Encontram-se, na casa dum tal Augeard, pIanos relativos a um projeto de ida para Metz. Supõe-se que haja outras conspirações, e nisso se baseiam os libelos revolucionários para excitar as suspeitas do povo. Marat exorta o povo a vigiar bem o monarca hipócrita, revoltado contra a Nação.

Luís XVI é pintado como sendo um rei fugitivo que regressa à frente dum exército estrangeiro e reduz Paris à fome.

     Às vezes se espalha o boato de que o rei fugiu, e a multidão corre às Tulherias para exigir que ele apareça. Crescem as suspeitas contra ele. Começam a apresentar Luís XVI como sendo o responsável pela crise dos negócios, pela desocupação, pela escassez do pão, pela carestia da vida, pela desastrosa situação financeira do reino.

     Porque o Tesouro está vazio, não se arrecadam mais impostos, os camponeses recusam-se a pagá-Ios; incendeiam e pilham os castelos, de maneira que a emigração recrudesce e todo o dinheiro de contado é escondido ou atravessa as fronteiras com os aristocra­tas, deixando a França numa miséria financeira que explica o marasmo geral.

     Por toda a parte campeia a desordem. A miséria e pavorosa. Os mendigos, em Paris, somam duzentos mil. As oficinas de caridade recusam gente. As municipalidades esgotam-se para prover à subsistência dos desempregados. 0 exérci­to, mal pago, amotina-se em diversos lugares. Mas a Assembléia Nacional, que se declara “dolorosamente surpreendida” com esses incidentes, não permite que se aplique nenhuma sanção, e a indisciplina se avoluma.

     É nesse momento que irrompe o escândalo do caso Favras. Mais uma conspiração cujo fim era arre­batar o rei, e na qual o Conde de Provença aparecia seriamente comprometido.

     A popularidade de Luís XVI ficou, com isso, muito abalada. Com que, então, o rei não pensava senão em fugir ou fazer-se raptar! Seu único sonho era subtrair-se a seus deveres, repudiar as suas pro­messas e livrar-se da Constituição que ele próprio assinara, em lugar de cooperar sinceramente com a Assembléia para a felicidade do povo!

     Essas as reflexões que o caso Favras sugeria ao país inquieto com seu destino, exacerbado por todas as calamidades que se abatiam sabre ele desde que acreditara conquistar mais justiça e mais liberdade.

     O rei, cuja modesta ambição parecia ser a de fazer-se tolerar mediante concessões sempre maiores, decidiu, mais uma vez, reconquistar as graças da opinião pública por um passo em que saía ferido o seu amor-próprio. No dia 4 de fevereiro de 1790, compa­receu à Assembléia e, com surpresa dos deputados, pronunciou um discurso em que protestava sua leal­dade à Constituição, e que se declarava disposto a man­ter e mesmo, em caso de necessidade, a defender!

     Ninguém teria ousado lhe pedir tanto. Concitou a Assembléia a trabalhar para assegurar a ordem, tão cruelmente abalada no interior.

     – “Esclarecei quanto aos seus verdadeiros inte­resses – dizia Luís XVI – o povo que anda desencaminha­do, esse bom povo que me é tão caro e pelo qual sou amado, segundo me assegura quando vêm consolar-­me as penas. Professemos todos uma única opinião, um único interesse e uma única vontade, o apego à Constituição e o desejo ardente da paz, da felicidade e da prosperidade da Nação!”

     Esse comovente apelo à união nacional foi rece­bido pela Assembléia com gritos de entusiasmo.

     Por singular ironia, os deputados exclamavam: “Viva o rei!” com mais ardor do que nunca, no mo­mento em que o rei vinha despojar-se de sua sobera­nia e consagrar, de certo modo, a própria destituição, ao reconhecer, pela atitude implorativa e pelo sen­tido do seu discurso, a soberania da Assembléia Na­cional.

     Um único homem compreendeu toda a gravidade do passo dado por Luís XVI, que procurava assim, sem dúvida, recobrar um pouco de popularidade em detrimento de sua dignidade. Exasperado com essa ce­na lastimável e com a falta de caráter desse rei muito pouco realista, o coronel Visconde de Mirabeau deixou imediatamente a Assembléia, exclamando num nobre impulso de cólera:

     – “Quando um rei parte assim o cetro, a seu ser­vidor nada mais resta do que quebrar a espada!”

     E foi o que fez, num gesto de desespero.

     Luis XVI não conseguiu senão um ilusório benefício dessa última concessão. A união foi apenas efêmera, o acordo apenas aparente.

     Era manifesto que os sacrifícios do seu amor-próprio não desarmariam os adversários e que, pelo contrário, renunciando às suas derradeiras prerroga­tivas, nada mais fazia do que apressar o momento em que os revolucionários proclamassem a função do rei um encargo inútil para a Nação. As concessões que fazia, na esperança de continuar a ser tolerado, fortaleciam os seus inimigos, aumentavam-lhes ainda mais as exigências e tiravam-lhe os últimos meios de resistir.

“Livro vermelho” aponta despesas escandalosas da Corte

     Em breve os panfletos recomeçaram, mais violen­tos. Os revolucionários tiveram a idéia oportuna de publicar uma lista recapitulativa de todas as pensões pagas pela Corte, durante o reinado de Luís XVI. A esse relatório chamaram o “Livro vermelho”.

     – “Seria melhor que o chamassem livro de ou­ro dizia, com ironia terrível, Camilo Desmoulins – pois é, na verdade, o nome que lhe convém.”

     Foi grande a repercussão do livro, tanto mais que o país se achava a braços com a mais cruel das crises financeiras que nos últimos tempos assolara a França.

     – “A bancarrota, a horrenda bancarrota está às nossas portas” – exclamava Mirabeau.

     E era nesse momento que se vinha a saber, pelo “Livro vermelho”, que importâncias haviam recebido to­dos os aristocratas detestados, os cortesãos de Versa­lhes, os militares, os magistrados, os padres, as ami­gas da rainha, a Princesa de Lamballe e Mme de Polignac, todos os inimigos da Revolução, em suma.

     O total das pensões, durante os quinze anos de reinado, elevava-se a duzentos e vinte e oito milhões. Sem dúvida, grande parte dessas despesas se justifi­cava pelos serviços prestados. Mas os panfletos en­contravam aí uma boa oportunidade para assinalar os abusos e deplorar com virtuosa indignação a pro­digalidade do Tesouro Público, no momento em que sua penúria alarmava o país.

     – “Este livro” – escrevia-se – “deve ser o cate­cismo de todos os amigos da Revolução.”

     Assim, pouco a pouco, ia-se esboroando a popu­laridade de Luís XVI, que era o último baluarte da monarquia agonizante.

     Uma multidão malévola, esperando a oportuni­dade para a revolta, rondava dia e noite as Tulhe­rias, sob o pretexto de certificar-se de que o rei con­tinuava lá. Maria Antonieta era espreitada, seguida passo a passo em todos os seus passeios.

Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.