1 de jan. de 2013

REVOLUÇÃO FRANCESA: 14/17 // Família Real nas Tulherias


A Família Real nas Tulherias

Avenida Paris
     Às duas horas, o cortejo, que ia levar oito horas para conduzir à Capital "o padeiro, a padeira e o pa­deirinho", passava, no meio duma descarga geral de mosquetes, diante das primeiras casas da Avenida de Paris.

     Dois chuços sangrentos abriam a marcha, exi­bindo ao povo amontoado até sobre os telhados as ca­beças dos guardas mortos.

     Destacamentos de tropas e de artilharia formavam a vanguarda. Avançavam seguidos duma multidão de homens e mulheres, ataviados de retalhos de uniformes.

     Alguns iam a pé, agitando ramos de choupo e vomitando injúrias, ou­tros empilhados em fiacres, carroças e carretas de artilharia. Depois vinha a guarda nacional, grana­deiros do regimento de Flandres, soldados dos Três Bispados e ainda outros que tinham sido vistos, em traje de gala, no famoso banquete organizado pelos membros da guarda pessoal. Estes, cercados pelos seus vencedores, tinham um ar de reses conduzidas ao ma­tadouro.

     Sessenta carretas de cereais e farinha seguiam pesadamente no meio das aclamações.

     Enfim, precedendo outros comboios de cereais, vinha a carruagem real, sobre a qual tripudiavam diversos homens, soltando gritos horríveis.

     Alguns de­putados estavam reunidos quando o cortejo passou diante do palácio dos Menus-Plaisirs. Num degrau da escadaria da frente, dominando os outros, com a vigorosa fronte carregada de insolência, vestindo o traje escuro do Terceiro Estado, Mirabeau olhava...

     Mirabeau olhava... Em que estaria pensando o grande tribuno dian­te de tal espetáculo?

     Sem dúvida, imenso orgulho dominava o seu co­ração quando se dizia que essa derrocada inaudita do poder real era, em grande parte, obra sua!

     O sopro irresistível daquela eloqüência sacudira o trono! Ele, Mirabeau, que as mulheres de Paris acla­mavam ainda havia pouco, personificara, em verda­de, o espírito revolucionário, encarnara a alma, fo­ra a esperança da Revolução.

     Nessa luta angustiosa contra os privilégios e pela liberdade, o povo inteiro depositara sua fé e sua confiança em Mirabeau. E agora que Luís XVI fora derrotado, que o rei, seu adversário, estava a sua mercê, que ele se tornara, de certo modo, o árbitro dos destinos da França, que iria fazer?

     A Revolução, em alguns meses de rajadas suces­sivas, tudo varrera desse antigo regime que construíra a França.

     O que restava dele, esse fantasma de rei – o cor­tejo ao mesmo tempo burlesco e trágico das megeras e dos amotinadores levava-o agora prisioneiro, re­signado, passivo, em direção a Paris, entre insultos, dichotes, ameaças e aclamações.

     Porque, nessa multidão pitoresca e sinistra, constituída por tantos ele­mentos heterogêneos, em que o povo bom, sincera­mente afeiçoado ao rei, se deixara levar por agita­dores sedentos de sangue, a mais espantosa mistura de sentimentos contraditórios expressava-se ao mesmo tempo pelas mais variadas exclamações, entre as quais, porém, os gritos de “Viva o rei!” eram ainda os mais numerosos.

     E, certamente, Mirabeau pensava que aquele po­bre rei, ainda tão aclamado, era o derradeiro símbolo em torno do qual se podia manter a unidade dessa França que seus antepassados haviam construído.

     Se Luís XVI desaparecesse, que restaria para represen­tar a autoridade legal, para manter a ordem, para constituir um governo aceito por todos? Não cairia o país na anarquia, em desordens sangrentas em que a unidade da pátria correria o risco de soçobrar, até o dia em que a nação, cansada das dissensões inter­nas, aceitasse o jugo dum despotismo militar?

     Era isso que Mirabeau desejava?

     Não, por certo. Ele estava devorado pela ambi­ção, premido por imperiosa necessidade de dinheiro, arruinado pelos excessos, invejoso dos favores da fortuna, mas o seu senso político era demasiado lú­cido e justo para fazê-lo desejar o pior. O que ele queria, no fundo, era ser ministro, e, para isso, tor­nar-se uma força, o que lhe permitiria impor-se no momento oportuno como o homem necessário. Esta­va tão convencido de que assim havia de suceder que despedia comumente os credores dizendo:

     – “Volte quando eu for ministro.”

     E não chegara o momento?

     Era nisso que pensava Mirabeau, ao ver passar a seus pés a revolta parisiense vitoriosa, arrastando como refém, no meio de carretas de farinha, o rei Luís XVI, impassível e silencioso, arrancado ao es­plendor de seu palácio de Versalhes, e cuja carrua­gem avançava a passos lentos como um coche fune­rário.

     – “Aluga-se um palácio!” – gritavam zombeteira­mente alguns gracejadores de mau gasto, diante do castelo deserto e devastado pelo motim.

     – “Ele tem o ar dum bom papai" – diziam as mu­lheres do povo, venda passar o infeliz monarca in­dolente e decaído.

     Quanto à rainha continha as lagrimas, domina­va a dor e a humilhação, e impunha-se a todos pela nobre altivez de sua atitude. Segurava nos braços o pequeno delfim, que olhava tudo com os olhos admi­rados de criança, sem compreender o que naquilo ha­via de trágico para o seu destino, mas achando muito comprido o tempo e repetindo com freqüência:

     – “Es­tou com fome.”

     Um tiro partido da multidão contra a carruagem da rainha, e que felizmente não feriu ninguém, não a fez perder a calma e a dignidade. Ela passava, como se não ouvisse, triste e distante, no meio das injúrias, ameaças e ignomínias do populacho desvairado. Esse martírio moral durou mais de seis horas. A fortaleza de ânimo de que Maria Antonieta deu provas impôs-se à admiração de seus próprios adversários.

     A jornada de 6 de outubro, diz Michelet, que não é suspeito, “fez uma multidão de realistas”.

     Os mais ilustres desses convertidos foram La Fayette e Mirabeau, que voltaram realistas a Paris.

     No exterior, a emoção foi imensa. Mas se se las­timava Maria Antonieta, em geral se julgava severa­mente a inércia e a passividade resignada de Luís XVI.

     – “É inconcebível" – escreveu Leopoldo, grão-duque de Toscana – "que, por ocasião do ataque a Ver­salhes, o rei não tenha preferido morrer a ceder. É preciso que uma pessoa tenha sangue de água, ner­vos de estopa e alma de algodão para comportar-se dessa maneira. Estou indignado, e só deploro a rai­nha, porque tenho o pressentimento de que terminarão prendendo-a."

     Burke, o célebre sociólogo inglês, deixou sobre esses acontecimentos trágicos uma página memorável, de que vos quero recordar apenas o final:

     – “Ficará gravado na História que esse rei, que essa rainha, que seus filhinhos foram forçados a aban­donar o mais esplêndido palácio do mundo e fugir de uma habitação inundada de sangue, poluída por homicídios e juncada de membros e corpos mutila­dos; que, de lá, foram conduzidos para a Capital do seu reino; que na carnificina, confusa e sem moti­vo, dos gentis-homens que compunham a guarda do rei, escolheram-se dois para ser decapitados, no meio do pátio do palácio, com toda a pompa duma execu­ção jurídica; que as cabeças das vítimas, levadas nas pontas de chuços, serviram de guias; que essas cabe­ças abriam e dirigiam o cortejo; que o rei e sua família o encerravam como cativos; que a carruagem de Suas Majestades foi lentamente arrastada, entre ui­vos terríveis, gritos agudos, danças frenéticas, após­trofes infames e todos os horrores inexprimíveis das fúrias do inferno, sob a forma das mais vis mulheres; que, depois de terem sido forçados a provar assim, gota a gota, um amargor mais cruel do que a morte, a padecer semelhante suplício durante um trajeto de doze milhas que durou mais de seis horas, Suas Ma­jestades foram confiados à guarda daqueles mesmos soldados que os haviam conduzido no meio de tal tri­unfo, e encerrados numa das antigas casas reais de Paris, que se converteu agora em Bastilha para os reis!"

Louvre
     Essa página comovente, na secura voluntária de sua estrita exatidão histórica, define com rigor o que iria ser doravante a lastimável situação de Luís XVI.

     O Louvre, apesar das aparências, já não era mais do que um cárcere que preparava a transição entre Versalhes e o Templo.

     0 prestígio da realeza e, segundo a expressão de Jaurés, "seu encanto secular" eram ainda muito poderosos na França, para que o povo pudesse suportar, sem esse rodeio, a prisão ignomi­niosa daquele a quem denominavam então o “Restau­rador da Liberdade!”.

     Mas se se guardavam as aparências, Luís XVI – reconhece Michelet – nem por isso deixava de ser refém, "o grande refém" da Comuna, fortalecida pela vitória. Se ele era ainda benquisto do povo, esse amor constituía a sua derradeira proteção, a sua úl­tima defesa contra a Revolução triunfante. Estava à­ mercê desta, porquanto os guardas do rei haviam si­do substituídos pelos guardas nacionais, por aqueles mesmos que o tinham arrancado de Versalhes, e, lon­ge de levantar a menor crítica contra esse golpe de força ou de propor a mais leve repressão contra os autores dos homicídios, Bailly, o virtuoso Bailly, prefeito de Paris, saudou o rei no Hôtel de Ville cele­brando “o belo dia” que trazia o pai para junto de seus filhos!

     Sem embargo, durante as semanas que se segui­ram, cada qual, como que por consenso unânime, se esforçou para esquecer os excessos cometidos naquele "belo dia" e a violência revolucionária a que o rei tivera de ceder. Houve, de parte a parte, uma espécie de trégua, como se possível fosse um renascimento do amor e da união entre Luís XVI e o povo. Os mais irredutíveis revolucionários dão provas desse sentimento de alegria geral, dessa recrudescência de confiança no futuro.

Camille Desmoulins, nos jardins do Palais Royal
     – “Consummatum est” – exclama Camille Desmou­lins no primeiro número de suas Revoluções de Fran­ça e de Brabante: – “Tudo está consumado! 0 rei se acha no Louvre, a Assembléia Nacional nas Tulhe­rias; o mercado transborda de trigo; os cofres públicos se enchem; os moinhos giram; os traidores fo­gem; a batina está por terra; a aristocracia expira; a constituição está assinada; os patriotas venceram; Paris escapou à bancarrota, à fome, ao despovoamen­to que a ameaçavam. Paris vai ser a rainha das cida­des, o esplendor da Capital corresponderá à grande­za e à majestade do império francês. A Assembléia Nacional depura-se, a olhos vistos, dos maus cidadãos.”

     Essa última frase aludia à emigração do presi­dente Mounier e de Lally-Tollendal, no dia seguinte aos 6 de outubro. Mounier, perseguido, escapara por milagre a vinte assassinos que queriam fazer-lhe da cabeça mais um troféu.

     Lally-Tollendal, profundamente desalentado e enojado com o espetáculo oferecido pela Assembléia e com a exultação insolente do crime impune, excla­mara que "não tornaria a por os pés naquela caverna de antropófagos".

     – “Eles me proscreverão" – escrevia a um amigo – "e confiscarão todos os meus bens. Trabalharei a terra, mas não os verei mais."

     É o que Michelet chama “emigração do terror”, e declara menos repreensível que a "emigração do ódio".

Qual era, nesse meio tempo, a sorte de Luís XVI e da família real?

     Chegados finalmente, pelas dez horas da noite, ao palácio do Louvre, desabitado havia um século, tinham começado por cear. 0 apetite imperturbável de Luís XVI, em tão críticas conjunturas, causara admiração a todos. Nada alterava jamais nem o sono, nem o apetite, nem a placidez do rei.

     – “Esta casa é triste e feia” – dissera o delfim.

     E Maria Antonieta respondera maquinalmente ao menino:

     – “Luís XIV viveu bem aqui!

     Entretanto, a atitude dos parisienses devia, nos dias seguintes, fazer esquecer um pouco a família real seu infortúnio shakespeariano.

     Desde a manhã de 7 de outubro, a multidão se comprimia nas imediações das Tulherias, emocionada, entusiasta, para ver e aclamar seu rei. Foi preciso que ele se mostrasse a sacada, depois descesse ao jar­dim; a cada aparecimento, as ovações redobravam.

     – “A revolução acabou” – dizia-se; – “O rei, li­bertado de seu isolamento funesto de Versalhes e da má influência dos cortesãos, reuniu-se ao povo.”

     O dia inteiro, delegações de diferentes corpora­ções desfilaram pelas Tulherias a fim de saudar Luís XVI e a própria Maria Antonieta. Ela recebeu, as­sim, as tendeiras do Mercado, realistas ardorosas cuja fidelidade a acompanharia até a prisão do Templo. Recusou, entretanto, receber uma delegação dos ven­cedores da Bastilha.

     Compreende-se a recusa. Aliás, ninguém, a prin­cípio, pensou em levá-la a mal. Uma necessidade de união, de concórdia, de trégua, parecia suceder aos trágicos horrores da véspera.

Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.