1 de jan. de 2013

REVOLUÇÃO FRANCESA: 01/17 // A França de Luís XV


  Três séculos... Três revoluções se sucedem numa ordem rigorosamente lógica. A democratização das idéias do século 18 prepara a democratização dos bens no século 19, que anuncia a democratização da informação no século 20.

    
Luís XVI (1754-1793), rei da França
(1774-1791) e depois, rei dos
franceses (1791-1792). Filho do
Delfim Luís e de Maria Josefa da
Saxônia.
      A Idade Moderna é o período entre a queda do Império Romano do Oriente, em 1453, e a Revolução Francesa (5 de maio de 1789 a 9 de novembro de 1799), que é a denominação dada à fase revolucionária porque passou a França com a eclosão do movimento que derrubou a monarquia de Luís XVI e propiciou a conquista do poder pela burguesia, alterando o quadro político e social do país. No tempo transcorrido entre esses dois fatos marcantes, são marcos principais: o fortalecimento dos Estados nacionais monárquicos, a expansão do Capitalismo – que se torna a forma de produção predominante –, o renascimento cultural e científico, a fermentação revolucionária do Iluminismo e a independência dos Estados Unidos da América (1776).

     A Idade Contemporânea cobre o período do final do século 18 até a atualidade, tendo iniciado a Revolução Francesa com a convocação dos Estados Gerais e a Queda da Bastilha, e encerrada com o golpe de Estado do 18 de brumário de Napoleão Bonaparte.


Jean-Jacques Rousseau (1712-1778).
Escritor e filósofo suíço de língua
francesa
      Em causa estavam o Antigo Regime (Ancien Régime) e os privilégios do clero e da nobreza, mas foi graças a ela que se aboliu a servidão, os direitos feudais e se proclamou os princípios universais de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” (Liberté, Egalité, Fraternité), frase de autoria de Jean-Jacques Rousseau.

     A Revolução Francesa, que provocou conflitos armados com outros países europeus e alcançou enorme repercussão nos países americanos, aboliu e substituiu a monarquia, com uma república democrática radical, pondo em evidência a ascensão burguesa – que viria a impor-se com a Revolução Industrial – e inspirou numerosos outros movimentos de caráter revolucionário, dentre eles a radical mudança social para formulários com base em princípios iluministas de cidadania e de direitos inalienáveis.

     Na Idade Contemporânea, destacam-se de início o período napoleônico (1799 a 1815), a restauração monárquica e as Revoluções Liberais, a Revolução Industrial e a expansão do Capitalismo, a disseminação das nacionalidades e das doutrinas sociais.   

Façam a guerra se quiserem a paz

Luís XV o Bem Amado (1710-1774),
rei da França (1715-1774). Filho do
Duque da Borgonha e de Maria
Adelaíde de Savóia, e bisneto de
Luís XIV.
      Com o raiar do século 18, a sociedade civil se volta para novo debate de idéias, priorizando uma teoria de separação dos poderes. Busca-se uma concepção talvez trinitária, que desmembre o poder entre várias cabeças e mãos (legislativo, executivo, judiciário); mas, esse debate logo se transforma em combate. É a Revolução Francesa, que se encontra entre as maiores revoluções da história da humanidade.

     A declaração de paz ao mundo e de amor ao próximo é rapidamente transformada em nova ordem conceitual: façam a guerra se quiserem a paz. E não haverá jamais frustração no número de pessoas sacrificadas aos interesses ou paixões alheias, pois é preciso que existam homens conflitantes por detrás das idéias, sejam antigas ou novas, conservadoras ou revolucionárias.

     Assim, entre 1789 e 1815, só a França contabiliza a “insignificância” de dois milhões de vítimas, sendo 400 mil antes de 1800, um milhão nas guerras napoleônicas e 600 mil nas guerras intestinas. A idéia de paz alimenta o cadafalso exigentíssimo, e justamente no século que foi chamado das luzes, ressalta o francês Jacques Perruchon de Brochard, Membro Acadêmico Correspondente, Cadeira 31 da ANE, em sua obra “Miragem do Futuro”.

Bastilha
     Os franceses passam da monarquia paternalista ao império policial. A revolução termina com a constatação de um fracasso total: social, cultural, econômico, científico, territorial, religioso.

     Para a França, abriu-se em 1789 o longo período de convulsões políticas do século XIX, fazendo-a passar por várias repúblicas, uma ditadura, uma monarquia constitucional e dois impérios.

     A França contou seus mortos, seus mutilados, a destruição de suas obras de arte, suas perdas de territórios e principalmente seu considerável atraso no terreno científico.

     Querendo impor a felicidade aos homens, os franceses foram incapazes de promovê-la, porque, na realidade, foram os Estados Unidos da América, com nove anos de antecedência, em 1780, que lançaram os fundamentos dos princípios das democracias modernas, tendo por base três poderes independentes, eleitos, e separados, resultantes unicamente da vontade popular.  

A França de Luís XV (1)
O Casamento e a Sagração de Luís XVI

     A França tomada pelo Antigo Regime era um grande edifício construído por cinquenta gerações, por mais de quinhentos anos. As suas fundações mais antigas e mais profundas eram obras da Igreja, estabelecidas durante mil e trezentos anos.

Charge das Três Ordens ou Estados.
O Terceiro-Estado carregando o
Primeiro e o Segundo Estados
nas costas.

     A sociedade francesa do século 18 mantinha a divisão em três Ordens ou Estados típica do Antigo Regime – Clero ou Primeiro Estado, Nobreza ou Segundo Estado, e Povo ou Terceiro Estado – cada qual se regendo por leis próprias (privilégios), com um Rei absoluto (ou seja, um Rei que detinha um poder supremo independente) no topo da hierarquia dos Estados.

     O Rei fora antes de tudo o obreiro da unidade nacional através do seu poder independente das Ordens, significando que era ele quem tinha a última palavra sobre a justiça, a economia, a diplomacia, a paz e a guerra, e quem se lhe opusesse teria como destino a prisão da Bastilha.

     Para compreender com que sentimentos foram acolhidos as bodas e a sagração de Luis XVI, é pre­ciso lançar um rápido olhar retrospectivo à situação do reino e ao estado de espírito do povo, no fim do governo de Luis XV.

     A França não tivera, em conjunto, muito com que se ufanar desse longo reinado de meio século. Já ia longe o tempo em que a popularidade do rei fizera atribuir a Luís o cognome de "o Bem-Amado".

Hermann Maurício de Saxe (1696-
1750), Marechal de Saxe. Conde de
Saxe e Marechal da França (1746).
      A lembrança das grandes vitórias conseguidas pelo gênio do Marechal de Saxe, morto em janeiro de 1751, logo se apagara sob a impressão de desencanto duma paz estéril, em que a França abandonara todas as conquistas.

     "A verdade é que, quando se perde o domínio dos mares, tarde ou cedo hão de cair as colônias" – observava com melancólico bom-senso o Duque de Croy, em suas Memórias.

     Luís XV apoiou a política fiscal de Jean-Baptiste de Machault d’Arnouville (1701-1794), mas entrou em luta aberta contra o Parlamento (questão das cartas de confissão, 1752). A oposição parlamentar, as despesas reais desacreditavam o rei (atentado de Damiens, 1757).

     A Guerra dos Sete Anos (1756-1763), empreendida para causar dificuldades à Prússia e à Inglaterra, teve por conseqüência, apesar do Pacto de Família (uma aliança com a Casa Bourbon de Espanha, para tentar recuperar os resultados desastrosos com a aliança da Áustria), assinado por Étienne François (1719-1785), conde de Stainville e duque de Choiseul, a perda das possessões francesas da Índia e do Canadá; a França cedeu também a Lousiana ocidental à Espanha (1762). O Pacto de Família veio muito tarde. Embaixador e depois secretário de Estado de Luís XV (primeiro-ministro de fato), Choiseul reorganizou a França, quando adquiriu pacificamente a Lorena (1766) e a Córsega (1768).

Guerra dos Sete Anos

O conflito das grandes monarquias
     A Guerra dos Sete Anos foram conflitos internacionais que ocorreram entre 1756 e 1763, durante o reinado de Luís XV, entre a França, a Áustria e seus aliados (Saxônia, Rússia, Suécia e Espanha), de um lado, e a Inglaterra, Portugal, a Prússia e Hannover, de outro.

     Vários fatores desencadearam a guerra: a preocupação das potências européias com o crescente prestígio e poderio de Frederico II, o Grande, Rei da Prússia; as disputas entre a Áustria e a Prússia pela posse da Silésia, província oriental alemã, que passara ao domínio prussiano em 1742 durante a guerra de sucessão austríaca; e a disputa entre a Grã-Bretanha e a França pelo controle comercial e marítimo das colônias das Índias e da América do Norte.

Guerra Franco-Indígena
     A Guerra dos Sete Anos também foi motivada pela disputa por territórios situados na África, Ásia e América do Norte.

     A fase norte-americana foi denominada Guerra Franco-Indígena (ou Guerra Francesa e Indígena), e participaram a Inglaterra e suas colônias norte-americanas contra a França e seus aliados algonquinos.

     A fase asiática iniciou o domínio britânico nas Índias.

O Primeiro conflito de caráter mundial
     Foi o primeiro conflito a ter caráter mundial, e o seu resultado é muitas vezes apontado como o ponto fulcral que deu origem à inauguração da era moderna.

     A Guerra dos Sete Anos foi precedida por uma reformulação do sistema de alianças entre as principais potências européias, a chamada Revolução Diplomática de 1756, e caracterizou-se pelas sucessivas derrotas francesas na Alemanha (Rossbach), no Canadá (queda de Québec e Montreal) e na Índia.

     A guerra deu continuidade a disputas não apaziguadas pelo Tratado de Aix-la-Chapelle (1748) e tinha relação com a rivalidade colonial e econômica anglo-francesa, e com a luta pela supremacia nos Estados Alemães entre a Áustria e a Prússia.

Sem declarar guerra, a Inglaterra capturou
300 navios franceses
     A Guerra prosseguiu na América do Norte, com a expedição de Braddock, que entre 1695 e 1755 comandou as forças britânicas contra os franceses e indígenas.

     Cada facção estava insatisfeita com seus antigos aliados.

     A Inglaterra tomou a iniciativa quando capturou trezentos navios franceses sem declarar guerra, e de seguida, com o Acordo de Westminster (1756), pelo qual estabelece uma aliança militar com Frederico II da Prússia para defender Hanover de um possível ataque francês.

Maria Teresa da Áustria
     A França, por sua vez, com os dois Tratados de Versalhes (1756 e 1757) obtém a promessa de aliança de Maria Teresa da Áustria (mãe de Maria Antonieta, futura esposa do Delfim Luís de França) e de seu ministro Kaunitz. Maria Teresa também se aliou com Elizabeth da Rússia.

     Todos estavam dispostos a um acordo de paz. No cômputo global do conflito, a Inglaterra e a Prússia foram as grandes vitoriosas.

     Em 1762, o Tratado de São Petersburgo devolveu a Pomerânia à Prússia. Pelo Tratado de Paris, firmado em 1763, franceses, austríacos e ingleses assinarem a paz. No acordo firmado, os ingleses ganham o Canadá e parte da Louisiana, Flórida (que foi cedida pela Espanha), algumas ilhas das Antilhas (São Vicente, Tobago, Granada e Granadinas), São Luís, e feitorias costeiras do Senegal, na África, além de ter de reconhecer todas as conquistas inglesas nas Índias Ocidentais.

     A favor de Espanha, para compensá-la dos prejuízos advindos da guerra, a França cedeu o resto da Louisiana e Nova Orleans. Os franceses perdiam também toda a influência na Índia.

     Finalmente, em 15 de fevereiro de 1763, foi firmada a paz definitiva em Hubertusburgo. Pelo Tratado de Hubertsburg, a Áustria renunciou definitivamente à Silésia e a cedeu à Prússia, enquanto a Polônia era dividida pela primeira vez, ocupada pela Prússia, Rússia e Áustria.

Batalha de Colin
     A Prússia se afirma como concorrente da Áustria na liderança dos estados alemães, lançando as bases do futuro Império Alemão. As importantes vitórias inglesas sobre a França, solidificadas no Tratado de Paris, lançam as bases do futuro Império Colonial Britânico.

     No Brasil houve repercussão dessa luta. Portugal não aderiu ao "pacto de família", o que motivou o ataque dos espanhóis do rio da Prata ao sul do Brasil. O Tratado de Santo Ildefonso, assinado em 1777, encerrou o conflito: a Espanha tomou posse da Colônia do Sacramento e de grande parte do atual território do Rio Grande do Sul, enquanto Portugal recuperava a ilha de Santa Catarina.
     Assim... Não havia quem não sentisse a mesma penosa impressão do declínio da influência e do poder da França na Europa. Era como se o povo francês, exausto de tanta glória, tivesse deixado distender-se a ener­gia antiga.

Henry Robert

Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
.
Nota do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.