1 de jan. de 2013

REVOLUÇÃO FRANCESA: 16/17 // Violência popular


Cresce a violência popular

     Em abril de 1791 a família real anunciou o propósito de passar o verão em Saint-Cloud.

     Imediatamente os patriotas afluem ao Carrousel e à Praça Luís XV. Ouvem-se clamores hostis. E, quando a carruagem real aparece, saindo do pátio das Tulherias, o povo lhe impede a passagem, segu­rando as rédeas dos cavalos.

     Em vão La Fayette e Bailly intervêm, procuram parlamentar e conseguir que deixem passar o rei.

     – “Não queremos que ele parta; juramos que não há de partir!” – repetem obstinadamente os patriotas.

     Luís XVI tenta, sem êxito, convencer a multidão de que é um abuso retê-Io:

     – “Seria extraordinário – diz – que, depois de ter dado liberdade à nação, eu próprio não fosse livre!”

     Pobre homem! Havia mesmo por que se espan­tar desse ilogismo?

     A cena durou uma hora e meia, sem que os pa­triotas se deixassem abrandar. Foi o rei que se re­signou.

     – “Não querem que eu saia” – acabou por dizer, com bom-humor aparente. – “Pois bem, vou ficar!”

     Imediatamente a carruagem deu meia volta e a família real voltou para o palácio. Mas, em breve, também essa residência parecia excessiva, atentatória do espírito da Revolução.

     Sabe-se como, a 20 de junho, sob o pretexto da demissão dos ministros Gi­rondinos, o povo parisiense amotinado invadiu as Tu­lherias, saqueou os aposentos reais, enfiou na cabeça de Luís XVI e do delfim o barrete frígio, e, se­gundo a expressão de Roederer, “tomou o pulso do trono” antes de lançá-Io definitivamente por terra.

     Mme Elisabeth deixou uma narrativa emo­cionante dessa jornada tão cruel para a família real.

     Mas a sedição, sempre triunfante e sempre im­pune, estimulada sem cessar pelos jornais incendiários de Marat e pelas palavras de ordem dos clubes revolucionários, não se deteria com essa façanha. Ia em breve empreender o último assalto ao palácio das Tulherias.

     Não queria mais ver ali nem mesmo aquele si­mulacro de rei, sem prestígio nem poder, despojado sucessivamente de todas as suas prerrogativas, mas cuja simples presença causava ainda inquietação à intransigência dos patriotas. Com efeito, enquanto ele existisse, não se poderia temer uma reviravolta da opinião pública a seu favor?

     Não constituía um perigo e como que uma censura viva, para as idéias de liberdade e fraternidade, esse monarca decaído e prisioneiro?

     Era preciso que o rei desaparecesse e que se aniquilassem com ele a última esperança e o der­radeiro vínculo dos realistas proscritos e encurrala­dos!

     No dia seguinte ao do tumulto de 20 de junho, que profanara as Tulherias, puderam-se observar mais uma vez esse fenômeno de oscilações alternadas, que caracteriza a marcha da Revolução; a todo excesso de violência popular sucedem, imediatamente, uma reação da opinião pública e um renascimento do fer­vor realista.

     Os dois lados, como depois das jornadas de ou­tubro, pareciam esforçar-se por esquecer o incidente, diminuir-lhe a gravidade e atenuar-lhe o caráter de violência.

     Usou-se, para isso, dum eufemismo admirável.

     – “O povo – dizia-se – foi visitar o seu rei.”

     – “O povo” – escreve Soubran – “demonstrou que era digno da liberdade, pelo uso que fez dela!”

     E Condorcet conclui:

     – “Em suma, não houve senão algumas vidraças quebradas!”

     La Fayette foi aclamado quando apareceu a 28 de junho na Assembléia para “denunciar em nome do exército indignado” os promotores da insurreição das Tulherias. Os Jacobinos, que ficaram em minoria, pareciam desconcertados e desacreditados. Mas a Corte, iludida quanto à solidez dessa reviravolta da opinião, julgou-se bastante forte para prescindir de La Fayette.

Maria Antonieta e seus três filhos
     Maria Antonieta o detestava: – “É preferível morrer – dizia ela – a ser sal­vos pelo Sr. de La Fayette e pelos constitucionalistas.”

     A revista que La Fayette devia passar à guar­da nacional, em 29 de junho, foi suspensa por uma contra-ordem à última hora. Ele ficou despeitadís­simo. Desalentado por ver que assim o desserviam aqueles mesmos a quem queria servir, o general partiu para incorporar-se ao exército. A guerra fora declarada pouco antes, por instigação dos Girondinos e de Dumouriez.

     – “É preciso declarar a guerra aos reis e a paz aos povos!” – o exclamara Merlin de Thionville.

     Viena e Berlim marchavam contra a França. Os exércitos estrangeiros ameaçavam o território nacio­nal.

     – “A pátria está em perigo” – proclamava a Assembléia a 11 de julho.

     Lamourette, bispo de Lyon, dirigira um apelo patético aos deputados em favor da união de todos ante o perigo comum. Uma cena de extraordinária emoção havia atirado nos braços uns dos outros to­dos esses adversários da véspera. O rei participara da embriaguez geral: derramara lágrimas e abençoara a Assembléia. Mas o baiser Lamourette não produziu frutos.

     Os clubes revolucionários, insensíveis a essa reconciliação nacional, prosseguiam metodicamente a sua obra de excitação e de ódio à realeza.

     A guerra fornecia novo pretexto para ins­tigar o povo à ação: o manifesto de Brunswick foi a centelha que ateou o incêndio já preparado. Na ver­dade, o momento era crítico para a Revolução.

     Sob a ameaça da invasão estrangeira era preciso que ela vencesse imediatamente, sob pena de su­cumbir.

     Devia optar, sob a pressão da guerra, entre o es­tabelecimento duma ditadura revolucionária e a res­tauração do poder real.

     Robespierre compreendeu isso e, sem se oferecer ainda como ditador, já a 29 de julho pedia aos Jacobinos a suspensão do rei e uma Convenção Nacional. Essa palavra de ordem, lançada às diferentes seções de Paris, foi a origem dos acontecimentos do dia 10 de agosto.

Partitura "A Marselhesa"
     Barbaroux pedira a municipalidade de Marselha, “seiscentos homens que soubessem morrer”. Essa tro­pa revolucionária chegava a Paris em fins de julho, vociferando braviamente o novo hino, composto por Rouget de Lisle para o exército do Reno, mas que, graças àquela circunstância, foi batizado imediatamen­te com o nome de A Marselhesa.

     A 14 de agosto os marselheses, sob ameaça, ti­nham conseguido da municipalidade ordem para en­trega de cartuchos.

    No dia 6 de agosto, a Assembléia fora invadida por peticionários que reclamavam, em nome das se­ções, a destituição de Luís XVI. Os deputados, em­bora tremendo de medo, recusaram o que se pedia, mas concederam as honras da sessão aos peticioná­rios e decidiram enviar ao exército do Norte os pou­cos batalhões suíços que constituíam a melhor salva-guarda do rei.

     Toda a gente sabia que uma revolta decisiva iria estalar de um dia para outro.

     – “Choverá sangue.”

     – “Todos os espíritos fermentavam intensamente", - disse Lucille Desmoulins no mesmo dia, em carta cheia de fervor revolucionário.

Crise na família real
     A Corte, por sua parte, preparava a resistência. Restavam-lhe seiscentos suíços e, com os dedicados no­bres reunidos em torno dela, e os guardas nacionais que permaneciam fiéis à Constituição, podiam arregimentar cerca de mil e oitocentos homens.

     Era pouco, sem dúvida. Mas teria sido suficien­te se a defesa não fosse desorganizada, no último mo­mento, por um ato de traição que a privou de seu co­mandante, e sobretudo se o próprio rei, desmoraliza­do, não tivesse dado o sinal da capitulação.

     Mandat, o comandante das tropas das Tulherias, era um homem honrado e realista a toda a prova, chefe acatado pelos soldados. Faltavam-Ihe, é certo, munições, pois não tinham mais que três tiros por homem, mas suas disposições de defesa eram excelen­tes.

     Com um dos corpos de guarda ocupando o Pont­-Neuf, os sediciosos corriam o perigo de ficar entre dois fogos e de verem cortada a sua retirada. Esse fato dava muito que pensar aos chefes revolucionários, sempre prontos a prodigalizar estímulos verbais, mas muito menos dispostos a derramar o próprio sangue. Foi assim que, a 10 de agosto, ninguém viu Robespierre. Passou o dia numa adega.

Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.