Cresce a violência popular
Imediatamente os patriotas afluem ao Carrousel e à Praça Luís XV. Ouvem-se clamores hostis. E, quando a carruagem real aparece, saindo do pátio das Tulherias, o povo lhe impede a passagem, segurando as rédeas dos cavalos.
Em vão La Fayette e Bailly intervêm, procuram parlamentar e conseguir que deixem passar o rei.
– “Não queremos que ele parta; juramos que não há de partir!” – repetem obstinadamente os patriotas.
Luís XVI tenta, sem êxito, convencer a multidão de que é um abuso retê-Io:
– “Seria extraordinário – diz – que, depois de ter dado liberdade à nação, eu próprio não fosse livre!”
Pobre homem! Havia mesmo por que se espantar desse ilogismo?
A cena durou uma hora e meia, sem que os patriotas se deixassem abrandar. Foi o rei que se resignou.
– “Não querem que eu saia” – acabou por dizer, com bom-humor aparente. – “Pois bem, vou ficar!”
Imediatamente a carruagem deu meia volta e a família real voltou para o palácio. Mas, em breve, também essa residência parecia excessiva, atentatória do espírito da Revolução.
Sabe-se como, a 20 de junho, sob o pretexto da demissão dos ministros Girondinos, o povo parisiense amotinado invadiu as Tulherias, saqueou os aposentos reais, enfiou na cabeça de Luís XVI e do delfim o barrete frígio, e, segundo a expressão de Roederer, “tomou o pulso do trono” antes de lançá-Io definitivamente por terra.
Mme Elisabeth deixou uma narrativa emocionante dessa jornada tão cruel para a família real.
Mas a sedição, sempre triunfante e sempre impune, estimulada sem cessar pelos jornais incendiários de Mara t e pelas palavras de ordem dos clubes revolucionários, não se deteria com essa façanha. Ia em breve empreender o último assalto ao palácio das Tulherias.
Não queria mais ver ali nem mesmo aquele simulacro de rei, sem prestígio nem poder, despojado sucessivamente de todas as suas prerrogativas, mas cuja simples presença causava ainda inquietação à intransigência dos patriotas. Com efeito, enquanto ele existisse, não se poderia temer uma reviravolta da opinião pública a seu favor?
Não constituía um perigo e como que uma censura viva, para as idéias de liberdade e fraternidade, esse monarca decaído e prisioneiro?
Era preciso que o rei desaparecesse e que se aniquilassem com ele a última esperança e o derradeiro vínculo dos realistas proscritos e encurralados!
No dia seguinte ao do tumulto de 20 de junho, que profanara as Tulherias, puderam-se observar mais uma vez esse fenômeno de oscilações alternadas, que caracteriza a marcha da Revolução; a todo excesso de violência popular sucedem, imediatamente, uma reação da opinião pública e um renascimento do fervor realista.
Os dois lados, como depois das jornadas de outubro, pareciam esforçar-se por esquecer o incidente, diminuir-lhe a gravidade e atenuar-lhe o caráter de violência.
Usou-se, para isso, dum eufemismo admirável.
– “O povo – dizia-se – foi visitar o seu rei.”
– “O povo” – escreve Soubran – “demonstrou que era digno da liberdade, pelo uso que fez dela!”
E Condorcet conclui:
– “Em suma, não houve senão algumas vidraças quebradas!”
La Fayette foi aclamado quando apareceu a 28 de junho na Assembléia para “denunciar em nome do exército indignado” os promotores da insurreição das Tulherias. Os Jacobinos, que ficaram em minoria, pareciam desconcertados e desacreditados. Mas a Corte, iludida quanto à solidez dessa reviravolta da opinião, julgou-se bastante forte para prescindir de La Fayette.
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| Maria Antonieta e seus três filhos |
– “É preciso declarar a guerra aos reis e a paz aos povos!” – o exclamara Merlin de Thionville.
Viena e Berlim marchavam contra a França. Os exércitos estrangeiros ameaçavam o território nacional.
– “A pátria está em perigo” – proclamava a Assembléia a 11 de julho.
Lamourette, bispo de Lyon, dirigira um apelo patético aos deputados em favor da união de todos ante o perigo comum. Uma cena de extraordinária emoção havia atirado nos braços uns dos outros todos esses adversários da véspera. O rei participara da embriaguez geral: derramara lágrimas e abençoara a Assembléia. Mas o baiser Lamourette não produziu frutos.
Os clubes revolucionários, insensíveis a essa reconciliação nacional, prosseguiam metodicamente a sua obra de excitação e de ódio à realeza.
A guerra fornecia novo pretexto para instigar o povo à ação: o manifesto de Brunswick foi a centelha que ateou o incêndio já preparado. Na verdade, o momento era crítico para a Revolução.
Sob a ameaça da invasão estrangeira era preciso que ela vencesse imediatamente, sob pena de sucumbir.
Devia optar, sob a pressão da guerra, entre o estabelecimento duma ditadura revolucionária e a restauração do poder real.
Robespierre compreendeu isso e, sem se oferecer ainda como ditador, já a 29 de julho pedia aos Jacobinos a suspensão do rei e uma Convenção Nacional. Essa palavra de ordem, lançada às diferentes seções de Paris, foi a origem dos acontecimentos do dia 10 de agosto.
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| Partitura "A Marselhesa" |
A 14 de agosto os marselheses, sob ameaça, tinham conseguido da municipalidade ordem para entrega de cartuchos.
No dia 6 de agosto, a Assembléia fora invadida por peticionários que reclamavam, em nome das seções, a destituição de Luís XVI. Os deputados, embora tremendo de medo, recusaram o que se pedia, mas concederam as honras da sessão aos peticionários e decidiram enviar ao exército do Norte os poucos batalhões suíços que constituíam a melhor salva-guarda do rei.
Toda a gente sabia que uma revolta decisiva iria estalar de um dia para outro.
– “Choverá sangue.”
– “Todos os espíritos fermentavam intensamente", - disse Lucille Desmoulins no mesmo dia, em carta cheia de fervor revolucionário.
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| Crise na família real |
Era pouco, sem dúvida. Mas teria sido suficiente se a defesa não fosse desorganizada, no último momento, por um ato de traição que a privou de seu comandante, e sobretudo se o próprio rei, desmoralizado, não tivesse dado o sinal da capitulação.
Mandat, o comandante das tropas das Tulherias, era um homem honrado e realista a toda a prova, chefe acatado pelos soldados. Faltavam-Ihe, é certo, munições, pois não tinham mais que três tiros por homem, mas suas disposições de defesa eram excelentes.
Com um dos corpos de guarda ocupando o Pont-Neuf, os sediciosos corriam o perigo de ficar entre dois fogos e de verem cortada a sua retirada. Esse fato dava muito que pensar aos chefes revolucionários, sempre prontos a prodigalizar estímulos verbais, mas muito menos dispostos a derramar o próprio sangue. Foi assim que, a 10 de agosto, ninguém viu Robespierre. Passou o dia numa adega.
Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.




