Maria Antonieta da Áustria
A elegância natural da menina Maria Antonieta da Áustria de quinze anos de idade, a frescura delicada de sua tez de loura, o encanto do sorriso, a leveza dos passos, o brilho dos olhos lhe atraíram logo todos os sufrágios e conquistaram todos os corações.
Quando Maria Antonieta da Áustria se dirigiu à Muette com o rei e o Delfim Luís da França, Paris inteira havia saído ao seu encontro para vê-la e aclamar.
Sua carruagem desfilou entre duas alas de carros que conduziam tudo o que Paris tinha de elegante, no meio de aplausos e ovações sem fim.
O Castelo de la Muette (Château de la Muette), é um palácio situado no 16.º distrito (arrondissement) de Paris, próximo do Bosque de Bolonha e da Porte de la Muette.
Um jantar de quarenta talheres reuniu na Muette toda a família real, os príncipes e princesas de sangue, algumas pessoas de alta nobreza... e Mme du Barry, a quem a jovem Delfina observou e achou muito linda.
Procurou mesmo, ingenuamente, informar-se da situação e do cargo que aquela dama ocupava na Corte. Responderam-lhe, não sem algum constrangimento, que ela estava incumbida de distrair o rei e amenizar-lhe o mau humor e o incurável aborrecimento.
Essa função inesperada, de que jamais ouvira falar na Corte de Viena, não deixou de surpreender bastante a menina Maria Antonieta... mas percebeu que era melhor não insistir.
O embaixador da Áustria, Mercy Argenteau, indignou-se com o cinismo de Luis XV.
"Parece incrível" – escreveu – "que o rei tenha escolhido essa ocasião para conceder à favorita uma honra que até então lhe fora recusada."
Incrível ou não, é certo que Luís XV o fez deliberadamente. Queria aproveitar-se da chegada da pequena Delfina, que impunha aos convivas maior discrição, para fazer a família aceitar de uma vez por todas, a presença da intrusa, cujo domínio sobre a sua pessoa era cada vez maior.
A 16 de maio, numa clara manhã de primavera, a Delfina deixava a Muette em carruagem para dirigir-se a Versalhes.
Ao longo de todo o percurso, milhares de curiosos comprimiam-se para vê-la e aclamá-la. 0 Palácio de Versalhes já estava cheio de gente vinda para assistir ao desfile do cortejo, que, à uma hora da tarde, deixou a sala do rei para ir a capela.
O Delfim e Maria Antonieta, de mãos dadas, iam à frente. Ele, desajeitado, contrafeito e com ar de aborrecimento, no suntuoso hábito da ordem do Espírito-Santo, de malha de ouro com guarnições de diamantes; ela, sorridente, encantadora e radiosa de juventude e graça no seu merinaque de brocado branco, cuja cauda era erguida por um pajem do rei. Elevou-se à sua passagem um murmúrio lisonjeiro. Atrás dela vinham os príncipes de sangue; os irmãos do delfim, depois o rei, seguido de Mesdames, das princesas e de setenta damas da Corte.
Quando o cortejo penetrou na capela inundada de luz, o grande órgão rompeu em harmonias tumultuosas, enquanto o arcebispo de Reims, Monsenhor de la Roche-Aymon, esmoler-mor de França, rodeado pelos bispos da Esmolaria, apresentava a água benta ao rei e subia ao altar para o sermão. Depois o Delfim colocou o anel simbólico no dedo de Maria Antonieta, e, logo apos a benção, começou a missa cantada pelo coro real.
Ao cair da tarde seria permitido ao povo desfilar diante dos jovens esposos. À noite se realizaria a ceia real no novo salão da Ópera, concluído na véspera, e, finalmente, lançar-se-iam fogos de artifício sobre a terrasse e o lago de Netuno.
Mas, de repente, o céu escureceu, acumularam-se grandes nuvens negras e, bruscamente, desabou formidável tempestade, acompanhada de trombas d'água, relâmpagos fulgurantes e terríveis trovões que sacudiram o palácio e impressionaram vivamente os convidados, como um sinistro presságio.
Vieram dizer ao rei que os fogos de artifício, molhados, não poderiam ser acesos. Decidiu, então, transferir para a noite de 19 de maio.
A festa terminou, pois, mais cedo que se esperava, após a ceia, com a cerimônia da benção do leito nupcial pelo arcebispo de Reims.
A seguir, depois que o Delfim e a Delfina nele tomaram lugar, a família real e as princesas, de acordo com o costume tradicional, vieram saudar os novos esposos deitados lado a lado, provação que devia ser singularmente embaraçosa para a timidez dos jovens cônjuges.
No dia seguinte, em seu diário intimo, o Delfim traçou apenas uma pequena palavra, que tinha o costume de escrever nele quando não caçava, mas que, agora, tinha um sentido novo e inesperado:
– "Nada".
Que? Nada? Pois bem! Sim: Nada!
E conta-se que, quando a Princesa de Guéménée entrou, muito cedo, no quarto de Maria Antonieta, admirou-se de não encontrar ali o Delfim.
– “Mas como!” - exclamou ela; – “Já se levantou?”
– “Que quer dizer?” – volveu Maria Antonieta.
– “Ele não se levantou, pelo menos desta cama, pois não dormiu aqui. Deixou-me logo, ontem à noite, como se estivesse embaraçado.”
Não tornou a vê-lo senão ao almoço.
– “Acho que dormiste bem!” – disse-lhe ele.
– “Muito bem!” – replicou a Delfina – , acrescentando com malícia:
– “Não havia ninguém para impedi-lo.”
Mas a singular abstenção, prolongando-se nos dias seguintes, fê-la perder em breve a vontade de sorrir, e o Padre de Vermond, seu preceptor, observou o doloroso isolamento da jovem esposa desamparada.
– "Quando eu estava, esta a manhã, ao lado da Sra. Delfina, o Sr. Delfim entrou. Ele lhe perguntou: "Dormiste bem? – Sim”. E saiu. A Sra. Delfina distrai-se com o cãozinho; é útil como diversão de um momento, mas depois voltam os devaneios. Isto me corta o coração."
A estranha reserva do Delfim impressionou a Corte. Contudo, é preciso não esquecer que ele tinha, então, apenas quinze anos.
– "Casam muito cedo esses príncipes" – dizia judiciosamente o Duque de Croy. Era a opinião geral, e ainda se tinha esperança no futuro.
Quanto ao mais, as festividades do casamento, que prosseguiam, bastavam para ocupar a atenção de todos.
A 17 de maio, houve espetáculo de ópera no novo salão do arquiteto Gabriel. Representou-se Perseu, de Quinault e Lulli, com um luxo de cenários e de comparsaria sem precedentes. A sala foi criticada. Havia nela uma profusão de dourados e ornamentos que parecia de mau gosto, e que eclipsava os esplêndidos vestidos das mulheres.
"Gabriel" – dizia-se espirituosamente – "não podendo fazer uma bela sala, quis pelo menos fazê-la rica." Quanto à ópera, foi um desastre completo. Apesar dos prodígios do maquinismo, que se empregava pela primeira vez, Perseu entediou magnificamente a todos.
A Delfina, sobretudo, não podia esconder o cansaço; concluiu-se, precipitadamente, que não gostava de música.
Por sorte para ela, incidente cômico veio dissipar, um instante, o mortal aborrecimento daquela ópera demasiado severa.
O ator que desempenhava o papel de Perseu levou um tombo aos pés de Andrômeda, no momento decisivo, e Maria Antonieta, criança que era, pôs-se a rir às gargalhadas.
No dia seguinte, 18 de maio, o Rei e o Delfim foram à caça, e Maria Antonieta jantou melancolicamente só.
– "É separar-se um pouco cedo demais" – observou um contemporâneo.
A 19 de maio, houve baile às 7 horas da noite, seguido de fogos de artifício e de festa no parque. O Delfim e a Delfina, de acordo com o costume, deviam dar início ao baile, dançando o Minuete dos Filhos da França.
Essa dança, encantadora na sua elegância de bom-tom, era então designada, diz Mme de Campan, por um nome cheio de poesia: o minuete "cor-de-rosa". Toda a gente assistiu a ela de pé. Alguns até treparam nas cadeiras, para ver melhor o jovem par que atraía todos os olhares.
O Delfim desempenhou-se mediocremente de seu papel, mas o próprio desazo que mostrou fez ressaltar ainda mais, por contraste, a graça delicada de Maria Antonieta. Talvez ela não tivesse dançado em perfeita cadência, mas um admirador, Walpole, apressou-se a proclamar que o compasso da música é que estava errado.
Às dez horas da noite, a família real tomou lugar na Galeria dos Espelhos, de onde assistiria aos fogos de artifício.
Duzentas mil pessoas, vindas de Paris e arredores, invadiram o parque iluminado, onde numerosas orquestras dissimuladas nos bosquezinhos animavam as danças.
Os fogos de artifício foram magníficos; o ramalhete final compunha-se de mais de vinte mil foguetes, coisa jamais vista.
Depois dos fogos, houve iluminação do grande canal e festa náutica. Gôndolas cobertas de lanternas venezianas, e nas quais tocavam bandas de música dos guardas franceses, evoluíam harmoniosamente sobre a superfície da água, que refletia as luzes.
Cento e sessenta mil lampiões, lanternas e fogos de Bengala iluminavam em grinaldas multicores os bosques, os lagos, em que a água jorrava dos repuxos, e as alamedas do parque, onde os jograis do Rei, precedidos de bandas de música, divertiam a multidão alegre, que passeou e dançou a noite inteira. Os gritos de alegria, os risos, o entusiasmo dessa festa a que fora convidado todo o povo, chegavam até a galeria onde estava reunida a família real.
A pequena Delfina gostaria de descer ao parque, de misturar-se a turba que festejava seu casamento, e pela qual, durante toda a sua vida, havia de sentir atração. Mas Luís XV, que temia a frescura da noite, não a autorizou a sair. Ela teve de resignar-se, maldizendo no intimo do coração a tirania daquela etiqueta que não Ihe deixava desfrutar um inocente prazer. Alimentava já, sem dúvida, o propósito de sacudir, quando Ihe fosse dado fazê-lo, esse jugo odioso que ela considerava inútil.
Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.












