1 de jan. de 2013

REVOLUÇÃO FRANCESA: 04/17 // Casamento do Delfim


Maria Antonieta da Áustria

Maria Antonieta da Áustria
     A elegância natural da menina Maria Antonieta da Áustria de quinze anos de idade, a frescura delicada de sua tez de loura, o encanto do sorriso, a leveza dos passos, o brilho dos olhos lhe atraíram logo todos os sufrágios e conquistaram to­dos os corações.

     Quando Maria Antonieta da Áustria se dirigiu à Muette com o rei e o Delfim Luís da França, Paris inteira havia saído ao seu encontro para vê-la e aclamar.

     Sua carruagem desfilou entre duas alas de car­ros que conduziam tudo o que Paris tinha de elegan­te, no meio de aplausos e ovações sem fim.


Castelo de la Muette
     O Castelo de la Muette (Château de la Muette), é um palácio situado no 16.º distrito (arrondissement) de Paris, próximo do Bosque de Bolonha e da Porte de la Muette.

     Um jantar de quarenta talheres reuniu na Muet­te toda a família real, os príncipes e princesas de sangue, algumas pessoas de alta nobreza... e Mme du Barry, a quem a jovem Delfina observou e achou muito linda.

     Procurou mesmo, ingenuamente, infor­mar-se da situação e do cargo que aquela dama ocu­pava na Corte. Responderam-lhe, não sem algum constrangimento, que ela estava incumbida de dis­trair o rei e amenizar-lhe o mau humor e o incurável aborrecimento.

     Essa função inesperada, de que jamais ouvira falar na Corte de Viena, não deixou de surpreender bastante a menina Maria Antonieta... mas percebeu que era melhor não insistir.

Claude Mercy Argenteau
     O embaixador da Áustria, Mercy Argenteau, in­dignou-se com o cinismo de Luis XV.

     "Parece incrível" – escreveu – "que o rei tenha escolhido essa ocasião para conceder à favorita uma honra que até então lhe fora recusada."

     Incrível ou não, é certo que Luís XV o fez deliberadamente. Queria aproveitar-se da chegada da pequena Delfina, que impunha aos convivas maior discrição, para fazer a família aceitar de uma vez por todas, a presença da intrusa, cujo domínio sobre a sua pessoa era cada vez maior.

     A 16 de maio, numa clara manhã de primavera, a Delfina deixava a Muette em carruagem para diri­gir-se a Versalhes.

     Ao longo de todo o percurso, milhares de curio­sos comprimiam-se para vê-la e aclamá-la. 0 Palácio de Versalhes já estava cheio de gente vinda para as­sistir ao desfile do cortejo, que, à uma hora da tar­de, deixou a sala do rei para ir a capela.

Mesdames
     O Delfim e Maria Antonieta, de mãos dadas, iam à frente. Ele, desajeitado, contrafeito e com ar de abor­recimento, no suntuoso hábito da ordem do Espírito­-Santo, de malha de ouro com guarnições de diamantes; ela, sorridente, encantadora e radiosa de juventude e graça no seu merinaque de brocado branco, cuja cauda era erguida por um pajem do rei. Elevou-se à sua passagem um murmúrio lisonjeiro. Atrás dela vinham os príncipes de sangue; os irmãos do delfim, depois o rei, seguido de Mesdames, das princesas e de setenta damas da Corte.

     Quando o cortejo penetrou na capela inundada de luz, o grande órgão rompeu em harmonias tumul­tuosas, enquanto o arcebispo de Reims, Monsenhor de la Roche-Aymon, esmoler-mor de França, rodea­do pelos bispos da Esmolaria, apresentava a água ben­ta ao rei e subia ao altar para o sermão. Depois o Delfim colocou o anel simbólico no dedo de Maria Antonieta, e, logo apos a benção, começou a missa cantada pelo coro real.

Ceia real no novo salão da Ópera
     Ao cair da tarde seria permitido ao povo des­filar diante dos jovens esposos. À noite se realizaria a ceia real no novo salão da Ópera, concluído na véspera, e, finalmente, lançar-se-iam fogos de artifício sobre a terrasse e o lago de Netuno.

     Mas, de repente, o céu escureceu, acumularam­-se grandes nuvens negras e, bruscamente, desabou formidável tempestade, acompanhada de trombas d'água, relâmpagos fulgurantes e terríveis trovões que sacudiram o palácio e impressionaram vivamen­te os convidados, como um sinistro presságio.

Relâmpagos fulgurantes no lugar
dos fogos de artifício molhados.
     Vieram dizer ao rei que os fogos de artifício, mo­lhados, não poderiam ser acesos. Decidiu, então, trans­ferir para a noite de 19 de maio.

     A festa terminou, pois, mais cedo que se espe­rava, após a ceia, com a cerimônia da benção do leito nupcial pelo arcebispo de Reims.

     A seguir, depois que o Delfim e a Delfina nele tomaram lugar, a família real e as princesas, de acor­do com o costume tradicional, vieram saudar os no­vos esposos deitados lado a lado, provação que devia ser singularmente embaraçosa para a timidez dos jo­vens cônjuges.

     No dia seguinte, em seu diário intimo, o Delfim traçou apenas uma pequena palavra, que tinha o cos­tume de escrever nele quando não caçava, mas que, agora, tinha um sentido novo e inesperado:

     – "Nada".

     Que? Nada? Pois bem! Sim: Nada!

Quarto de Maria Antonieta
     E conta-se que, quando a Princesa de Guéménée entrou, muito cedo, no quarto de Maria Antonieta, admirou-se de não encontrar ali o Delfim.

     – “Mas como!” - exclamou ela; – “Já se levantou?”

     – “Que quer dizer?” – volveu Maria Antonieta.

     – “Ele não se levantou, pelo menos desta cama, pois não dormiu aqui. Deixou-me logo, ontem à noite, co­mo se estivesse embaraçado.”

     Não tornou a vê-lo senão ao almoço.

     – “Acho que dormiste bem!” – disse-lhe ele.

     – “Muito bem!” – replicou a Delfina – , acrescentando com malícia:

     – “Não havia ninguém para impedi-lo.”

Maria Antonieta
     Mas a singular abstenção, prolongando-se nos dias seguintes, fê-la perder em breve a vontade de sorrir, e o Padre de Vermond, seu preceptor, observou o doloroso isolamento da jovem esposa desamparada.

     – "Quando eu estava, esta a manhã, ao lado da Sra. Delfina, o Sr. Delfim entrou. Ele lhe perguntou: "Dormiste bem? – Sim”. E saiu. A Sra. Delfina distrai-se com o cãozinho; é útil como diver­são de um momento, mas depois voltam os devaneios. Isto me corta o coração."

     A estranha reserva do Delfim impressionou a Corte. Contudo, é preciso não esquecer que ele tinha, então, apenas quinze anos.

     – "Casam muito cedo esses príncipes" – dizia judiciosamente o Duque de Croy. Era a opinião geral, e ainda se tinha esperança no futuro.

     Quanto ao mais, as festividades do casamento, que prosseguiam, bastavam para ocupar a atenção de todos.

Tragédia Perseu
     A 17 de maio, houve espetáculo de ópera no no­vo salão do arquiteto Gabriel. Representou-se Perseu, de Quinault e Lulli, com um luxo de cenários e de comparsaria sem precedentes. A sala foi criticada. Havia nela uma profusão de dourados e ornamentos que parecia de mau gosto, e que eclipsava os esplên­didos vestidos das mulheres.

     "Gabriel" – dizia-se espirituosamente – "não podendo fazer uma bela sala, quis pelo menos fazê-la rica." Quanto à ópera, foi um desastre completo. Apesar dos prodígios do maquinismo, que se empregava pela primeira vez, Perseu entediou magnifica­mente a todos.

Maria Antonieta - 15 anos de idade
     A Delfina, sobretudo, não podia esconder o can­saço; concluiu-se, precipitadamente, que não gosta­va de música.

     Por sorte para ela, incidente cômico veio dissipar, um instante, o mortal aborrecimento daquela ópera demasiado severa.

     O ator que desempenhava o papel de Perseu levou um tombo aos pés de Andrômeda, no momento decisivo, e Maria Anto­nieta, criança que era, pôs-se a rir às gargalhadas.

     No dia seguinte, 18 de maio, o Rei e o Delfim fo­ram à caça, e Maria Antonieta jantou melancolica­mente só.

     – "É separar-se um pouco cedo demais" ­– observou um contemporâneo.

A dança Minuete
     A 19 de maio, houve baile às 7 horas da noite, seguido de fogos de artifício e de festa no parque. O Delfim e a Delfina, de acordo com o costume, deviam dar início ao baile, dançando o Minuete dos Filhos da França.

     Essa dança, encantadora na sua elegância de bom-­tom, era então designada, diz Mme de Campan, por um nome cheio de poesia: o minuete "cor-de-ro­sa". Toda a gente assistiu a ela de pé. Alguns até tre­param nas cadeiras, para ver melhor o jovem par que atraía todos os olhares.

     O Delfim desempenhou-se mediocremente de seu papel, mas o próprio desazo que mostrou fez ressal­tar ainda mais, por contraste, a graça delicada de Ma­ria Antonieta. Talvez ela não tivesse dançado em perfeita cadência, mas um admirador, Walpole, apres­sou-se a proclamar que o compasso da música é que estava errado.

Galeria dos Espelhos, Palácio de Versalhes.
     Às dez horas da noite, a família real tomou lu­gar na Galeria dos Espelhos, de onde assistiria aos fogos de artifício.

     Duzentas mil pessoas, vindas de Paris e arredores, invadiram o parque iluminado, onde numerosas orquestras dissimuladas nos bosquezinhos animavam as danças.

     Os fogos de artifício fo­ram magníficos; o ramalhete final compunha-se de mais de vinte mil foguetes, coisa jamais vista.

Fogos de artifício cobrem Versalhes.
     Depois dos fogos, houve iluminação do grande canal e festa náutica. Gôndolas cobertas de lanter­nas venezianas, e nas quais tocavam bandas de mú­sica dos guardas franceses, evoluíam harmoniosamen­te sobre a superfície da água, que refletia as lu­zes.

     Cento e sessenta mil lampiões, lanternas e fogos de Bengala iluminavam em grinaldas multicores os bosques, os lagos, em que a água jorrava dos repu­xos, e as alamedas do parque, onde os jograis do Rei, precedidos de bandas de música, divertiam a multidão alegre, que passeou e dançou a noite inteira. Os gritos de alegria, os risos, o entusiasmo dessa festa a que fora convidado todo o povo, chegavam até a ga­leria onde estava reunida a família real.

     A pequena Delfina gostaria de descer ao par­que, de misturar-se a turba que festejava seu casa­mento, e pela qual, durante toda a sua vida, havia de sentir atração. Mas Luís XV, que temia a frescura da noite, não a autorizou a sair. Ela teve de re­signar-se, maldizendo no intimo do coração a tirania daquela etiqueta que não Ihe deixava desfrutar um inocente prazer. Alimentava já, sem dúvida, o propósito de sacudir, quando Ihe fosse dado fazê-lo, esse jugo odioso que ela considerava inútil.

Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.