A Assembléia Constituinte
Paralelamente à agitação social, aumenta a agitação política. A imprensa , entregue às mãos de alguns declamadores descarados, alimenta-a sorrateiramente. O dinheiro também. Donde vem ele?
De Luis Philippe Joseph d' Orléans, também chamado de "Philippe Égalité" e conhecido por Luís Felipe II de Orléans (Duque de Orleães), que se vinga do menosprezo da Corte cumulando o povo de liberalidades, que já se julga rei pelo favor popular, e que veremos, em 6 de outubro, sorrindo, de sobrecasaca, na Galeria dos Espelhos, no momento em que a multidão enfurecida assedia os apartamentos da rainha? Duma potencia vizinha, irritada por ter visto a França diminuir-lhe o prestígio naval e sustentar uma de suas colônias na conquista da independência?
O Palais-Royal onde o Duque de Orléans tem seus partidários, agita-se todos os dias.
Uma multidão suspeita de basbaques, curiosos, tribunos, meretrizes, agentes provocadores, mercadores do vício, Iê os jornais e comenta-os.
Trabalhando silenciosamente, as sociedades secretas completam a obra de transformar a opinião pública.
Os clubes organizam-se. Georges Jacques Danton (1759-1794) se instala nos Cordeliers.
O Dr. Jean Paul Marat (1743-1793) se estabelece nas vizinhanças.
O pálido e delicado Camille (Camilo) Desmoulins (1760-1794) discursa à multidão.
As idéias novas, depois de terem dado a volta aos salões e à sociedade burguesa, insinuam-se na classe dos trabalhadores.
A soberania está em vias de
passar do monarca ao povo
Quer dizer que já se decidiu a mudança de regime?
A frase de um dos mais ardentes revolucionários: "em 12 de julho de 1789 não éramos dez republicanos", parece não ser desmentida nem pelos textos nem pelos acontecimentos. Os próprios partidos ainda não sabem exatamente para onde vão. É o desejo e o pressentimento da liberdade que os conduz.
A rainha Maria Antonieta não parece medir nem a gravidade, nem a iminência do perigo. Uma espécie de loucura obsessiva se desenvolve perto dela, nessa capital onde se conspira para fazê-la voltar, e seu espírito permanece tristemente fixado na morte recente do pequeno delfim. Não vê a onda de impopularidade que aumenta e vai rebentar sobre ela.
Junto do rei Luís XVI, que titubeia, e a quem, no fundo, segundo a expressão arguta de um historiador, "o seu oficio entedia", a rainha assiste ao começo da Revolução com o mesmo olhar desdenhoso com que Ana da Áustria considerara a Fronda.
“Necker” – pensa Maria Antonieta (Necker, de quem a rainha não gosta, e que foi chamado ao poder contra a vontade dela) – “restabelecerá a situação e esses deputados, cuja vizinhança demasiado familiar a irrita, voltando em breve às suas províncias, como sempre aconteceu.”
Como a rainha compreendera mal as tendências da Assembléia Nacional, firme e decidida, se não muito inteligente, que, por uma ironia cruel, se reunia na sala dos “Menus-Plaisirs du Roi”, que, na organização da família real funcionava como o departamento da “Maison du Roi”, responsável pelos “prazeres menores do Rei”. O que significava, na prática, que era o setor encarregado de todos os preparativos para cerimônias, eventos e festividades, até o último detalhe do design e da ordem.
Versalhes seguia com grande curiosidade os trabalhos. Estes punham em oposição dois bairros da cidade, como duas frações da Assembléia: o bairro Saint-Louis, elegante, aristocrata, numa palavra, "conservador", e o "bairro dos patriotas", feudo jacobino do comércio, do Mercado, dos Lecointre e dos Loustalot.
Todos os dias, os curiosos se reuniam em grande número na Rua Saint-Martin para ver, através das grades douradas, os deputados subirem e descerem a grande escada que conduzia ao vestíbulo da sala de sessões, ao passo que, das tribunas, os habitantes do bairro Saint-Louis, sentados à sombra, consideravam com desprezo glacial os representantes da nação.
Mil e duzentos homens estão lá, naquela sala onde, em breve, no decurso duma jornada cujo lugar próprio tratará de bem determinar, veremos entrar mulheres urrando por pão.
Mil e duzentos homens que se agitam e falam... muitas vezes para não dizer nada. São deputados... Não vos admireis da desordem em que se agitam esses homens de trajes escuros ou vistosos: eles representam uma assembléia francesa. E se, a propósito de um projeto de imposto sobre o sal, falam todos assim em altas vozes, é que, sem dúvida, desejam exprimir os sentimentos de vinte e cinco milhões de franceses...
O Padre Maury senta-se a direita, entre os mais ardentes defensores do regime. É jovial e impassível!
– “Olha o Padre Maury” – dirão um ano depois, numa viela, três vagabundos que o desejariam enviar às assembléias eternas.
– “Vamos mandá-lo dizer a missa a todos os diabos!”
– “Nesse caso, vocês irão ajudar-me: aqui estão as minhas galhetas.”
E da sotaina saem duas pistolas...
Seu confrade, o Padre Grégoire, que tem assento à esquerda, no meio dos Duport e dos Barnave, é jansenista e revolucionário. Desde o principio, votaria pela morte do rei. Sob o terror, em plena fase de execução dos padres, sentar-se-á, com seu solene hábito roxo, na bancada da Montanha. Todo o partido que o cerca é chamado "o partido de Orléans". É denominado também, por escárnio, o Palais-Royal.
Aí poderemos ver, na sombra, o rosto de maçãs salientes e esverdinhadas de Maximilien Robespierre (1758-1794); perto dele, algumas fisionomias atormentadas; e além, na extremidade duma bancada, com os olhos fixos nos da sua casta que ele renega, o rosto marcado de estigmas, cabeçudo, maciço, enchendo sozinho esse lado da Assembléia – (que digo?) a Assembléia inteira.
E conduzindo sob a fronte terrível a Revolução que cresce, um homem que já todos escutam quando se levanta, o grande orador do Terceiro Estado: Honoré Gabriel Riqueti, conde de Mirabeau (1749-1791).
Em todos aqueles bancos, dentro de todos aqueles corações, que febre não circulou no decurso da famosa noite de 4 de agosto, noite que se faz mister recordar, porquanto é em parte para consagrar seus resultados que se preparam as jornadas de 5 e 6 de outubro...
Desde a tomada da Bastilha a Assembléia trabalhava na Declaração dos Direitos, cujo princípio Marie-Joseph Paul Yves Roch Gilbert du Motier (1757-1834), mais conhecido como Marquês de La Fayette, trouxera de Filadélfia (EUA).
– “Tremei, porque o povo, depois de ter sido bigorna, pode tornar-se martelo.”
Essa frase terrível de François Miron (1560-1609), representante do Terceiro Estado, deputado em 1614 aos últimos Estados Gerais, o murmúrio surdo do povo faminto e descontente recordava-a cada vez mais vivamente a Assembléia.
Veto absoluto
Então, em seis horas – numa noite de delírio em que a psicologia moderna poderá ver um simples fenômeno de contágio mental, mas que ficará, apesar de tudo, como um magnífico exemplo desse entusiasmo de que são capazes as Assembléias francesas nas horas graves – as três ordens, ainda cheias de mútua desconfiança, mal grado a união conseguida, consagraram por deliberação unânime a supressão de todos os direitos feudais.
Incomparável ocasião para o rei Luís XVI reconquistar a fidelidade de seu povo, que ele perde, apenas surgida, por sua atitude equivocada, por sua inépcia e por uma circunstância infeliz.
Votada a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que lançava os alicerces duma sociedade nova, subira à discussão em plenário, um projeto de Constituição.
Quando passaram a deliberar sobre se o rei teria direito de veto aos decretos nacionais e se o veto seria suspensivo ou absoluto, esse artigo dividiu a Assembléia e acabou super excitando a França.
– “Sabes bem o que é o veto?” – diziam. – “É isto: entras em tua casa; tua mulher te havia preparado o jantar; mas o rei diz: ‘Veto’. Pronto: não comes!”
Espantosa ingenuidade de um povo levado a tomar as palavras por realidades, e que lhes empresta um sentido tanto mais preciso quanto menos as compreende!
"Não esquecerei nunca" – diz o contemporâneo Dumont – "que, indo a Paris com Mirabeau, vi muitas pessoas que esperavam sua carruagem... e se lançavam à sua frente para lhe suplicar, com lágrimas nos olhos, não tolerasse que o rei tivesse o veto absoluto:”
– “Senhor conde, se o rei tiver o veto, não há mais Assembléia Nacional, tudo está perdido, nós ficamos escravos.”
Ah! Se esse povo pudesse saber que "de todas as virtudes que dão ascendência a um grande homem sobre seu século", segundo a expressão de Alphonse de Lamartine (1790-1869), não faltava ao tribuno ilustre senão a "honestidade"; se esse povo conhecesse o lado venal daquela vasta inteligência, que servia ao mesmo tempo à Corte e ao Duque de Orléans, a monarquia e à revolução – em vez de lhe dirigir súplicas, tê-lo-ia olhado com desprezo à sua passagem.
Quando votou o veto suspensivo, que conferia ao rei o poder de não ratificar, durante três legislaturas, uma lei adotada por ela, a Assembléia tornou-se violentamente impopular.
Como a rainha, a quem não chamavam senão “Madame Veto”, ela era suspeita de traição.
Como!!!
Tomara-se a Bastilha, suprimiram-se os direitos feudais, votaram-se os Direitos do Homem, e o pão continuava caro, e continuava-se a fazer fila diante das padarias, e Necker pedia a votação duma contribuição extraordinária, sob pretexto de que o Tesouro estava vazio!
Elisée Loustalot (1761-1790) falava em ir "arrancar os deputados de seus bancos", Mara t em dissolver a Assembléia.
Os clubes e as gazetas insuflavam suas paixões no povo, preparando o motim, atiçando os ódios.
Eis no que deu uma espera
de quase dois meses!
O rei Luís XVI, que permitiu as piores tolices (a principal foi a de reunir os Estados Gerais, estando a dois passos duma capital pronta a sublevar-se), e que, por última imprudência, acaba de chamar a Versalhes o Regimento de Flandres, conhecido pela fidelidade, tem apenas mais um erro que cometer para precipitar o movimento. E não deixa de cometê-lo.
As decisões que a Assembléia tomara na noite de 4 de agosto deviam ser ratificadas e promulgadas pelo rei, para que tivessem força legal. Ora, a 18 de setembro, soube-se que ele recusara a sanção. Eis em que dava uma espera de quase dois meses! Nem o rei nem a Assembléia desejavam as reformas. Zombava-se do povo! Escarnecia-se a nação!
Os operários falam em marchar para Versalhes. Sobre as calçadas do subúrbio de Saint-Antoine reúnem-se grupos de homens esfarrapados. A guarda nacional vacila, o exército está maduro para a defecção.
E esse rei imprudente acredita que é hábil contemporizar! Usa de artimanhas...
Tenta reaver pela astúcia o que não pode conservar pela força. Intimado pela Assembléia a promulgar os decretos, faz saber ao presidente, em 21 de setembro, que vai ordenar a sua publicação, mas que a promulgação será reservada, "pois esta cabe apenas às leis redigidas e revestidas de todas as formalidades necessárias para que sejam postas imediatamente em execução".
Inabilidade demasiado manifesta para não exasperar a multidão! No jardim e nos cafés do Palais-Royal há reuniões cada vez mais tumultuosas.
A Assembléia Nacional acaba de eleger, para seu presidente, Jean-Joseph Mounier (1758-1806), cuja personalidade é motivo de vivas discussões. Os agentes do Duque de Orléans distribuem dinheiro às escondidas.
La Fayette sente escapar-lhe a guarda nacional. Aumenta o clamor:
– “É preciso trazer o rei para Paris, a fim de que sua pessoa esteja mais segura."
E, em plena Praça da Grève, um homem exclama que é necessário ir a Versalhes e fazê-lo vir "para o seu Louvre, que não foi feito para os cães".
A 23 de setembro o clamor redobra: chega o regimento de Flandres, precedido de pífanos e timbales.
Os ventos da revolta
É preciso, às vezes, dar relevo a acontecimentos sem ligação aparente, para conseguir expor com imparcialidade alguns momentos da História.
A chegada dos mil e cem homens comandados pelo Marquês de Nusignem, deputado à Assembléia Nacional, é um acontecimento tão importante para a compreensão das jornadas de 5 e 6 de outubro, que a ele está subordinado tudo o que se segue.
Muitos deputados, sentindo aproximar-se a revolta, haviam reclamado a proteção dum novo corpo de tropa. Desde que os guardas franceses tinham desertado de seu quartel da Praça de Armas, alistando-se nas companhias assalariadas da capital, já não havia em Versalhes – onde, nas esquinas do bairro de Notre-Dame, sopravam também os ventos da revolta – senão uma guarnição heteróclita: a guarda nacional, guardas do Preboste e do palácio do rei, uma companhia de inválidos, dois destacamentos de caçadores dos Três Bispados e caçadores da Lorena.
Foi o simples temor expressado por alguns deputados que decidiu Luís XVI a apelar para o regimento de Flandres?
É permitido duvidar, se for considerado que, na mesma ocasião, Luís XVI manobrava de maneira desesperada – e inepta – para não promulgar as resoluções de 4 de agosto. Em todo o caso, a 21 de setembro Mirabeau subia à tribuna para protestar contra a chegada daqueles reforços.
Recepção ao Regimento de Flandres
Após algumas hesitações, viu-se a guarda nacional confraternizar com o Regimento de Flandres: os soldados deambulavam em grupos, parando diante das tendas, das barracas que orlavam as Grandes Ecuries, e, com mais prazer ainda, nas tabernas.
Passaram-se alguns dias, e os membros da guarda pessoal abriram uma subscrição para oferecer, segundo o costume, uma recepção a seus camaradas do regimento de Flandres.
Os oficiais enviaram convites e obtiveram permissão do rei para dar a festa na sala de espetáculos da Corte (a Ópera do palácio).
Na quinta-feira, 1º de outubro, realizou-se a recepção. Se as suas conseqüências foram trágicas, ela própria deve ter sido brilhante, de acordo com as memórias do tempo. Era na grande sala da Ópera, de Gabriel, inaugurada em 1770, para o casamento da delfina, e onde Maria Antonieta assistira a seu primeiro baile.
A sala estava resplandecente. No palco, arrumara-se uma mesa de duzentos talheres, em forma de ferradura. As cornetas da guarda e do regimento de Flandres constituíam a orquestra.
Os convivas – oficiais em uniformes com galões e bordados de ouro e prata – tinham sob os olhos o espetáculo magnífico que apresentava a platéia. Guardas do prebostado, com seus gibões de alamares dourados e canhões escarlates vizinhavam com os soldados da guarda pessoal, de casacas azuis e calções vermelhos.
Dragões apertados em casacas verdes com canhões cor de amaranto, faziam ressurgir a moda dos Cem Suíços do século XV: gargantilhas, partazanas e chapéus com penacho.
Ao ser servida a segunda mesa, todo esse bando cintilante subiu para a ferradura e lá, no meio de vivas e ovações, enquanto as cornetas tocavam à carga, todas aquelas bocas ergueram quatro brindes: ao rei, à rainha, ao delfim, à família real.
Os espectadores, pouco a pouco, haviam enchido os camarotes do teatro. Conta Mme de Campan, em suas Memórias, que, diante de duas moças gritando “Viva o rei!”, um deputado do Terceiro Estado, que estava num camarote vizinho, interpelou-as e descreveu-lhes o "desprezo que inspiraria semelhante procedimento às bravas americanas, se vissem francesas corrompidas daquela maneira desde tão tenra juventude.”
Por que razão a rainha, à instância duma dama do palácio, cometeu a imprudência de aparecer num camarote, com o rei e os dois filhos? Formidável ovação acolheu a família real. A orquestra começou a tocar a melodia famosa: “Ó Ricardo! ó meu rei!” que, em tais circunstancias, tinha a aparência dum juramento de fidelidade.
Um oficial solicitou e obteve permissão para colocar o filho do rei sobre a mesa, enquanto ressoavam as cornetas. Todos os assistentes, em pé, renovando as aclamações, beberam mais uma vez à saúde da família real.
Alguém propusera que se bebesse à saúde da Nação. Teria sido o brinde positivamente rejeitado ou omitido de propósito? É um dos pontos em que os historiadores da Revolução se encontram mais divididos.
O Conde de Estaing, comandante da guarda-nacional, que assistiu ao banquete, diz formalmente numa carta à rainha, que “o brinde à Nação foi omitido de caso pensado”.
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| Le Courrier de Versailles |
“A festa” – diziam eles – “transformou -se em orgia. A cour de Marbre foi teatro de desordens escandalosas. Arvoraram-se laços brancos, laços negros com as cores da rainha, cruzes de Luxemburgo."
As mulheres vingarão o ultraje!
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| Marcha das mulheres para Versalhes |
Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.





















