A vingança das Mulheres
Formam-se ajuntamentos nas HaIles. De todas as casas saem mulheres, descabeladas, esfarrapadas, gritando, vociferando e reclamando pão. Mal nasceu o dia e, contudo, na frescura penetrante da manhã, o rumor se espalha rápido. Repercute nas Halles, atravessa os bairros centrais e, transpondo as barreiras mais afastadas, vai acordar os subúrbios.
Gritos, apelos, exortações se cruzam ao mesmo tempo que bastões, vassouras e tenazes. Toca o sino a rebate em Sainte-Marguerite...
Gritos, apelos, exortações se cruzam ao mesmo tempo que bastões, vassouras e tenazes. Toca o sino a rebate em Sainte-Marguerite...
Toda insurreição começa por uma alegria ávida e desordenada.
E o grupo, que aumenta em cada esquina, que se vai transformar numa multidão em delírio avança ao toque dum tambor que uma moça acaba de apanhar.
Ruidosas ovações saúdam o cortejo. Paris, onde sopra ainda a rajada de 14 de julho, sente que lhe vão apresentar novamente uma peça de grande aparato, e que será, mais uma vez, atora e espectadora.
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| As mulheres da Revolução Francesa |
Elas vêm de todas as ruas, de todas as classes, do povo e da burguesia, envergando aventais, blusas azuis, vestidos vermelhos: operárias famintas, criadas, meretrizes, costureiras tentadas por uma curiosidade malsã.
Entre elas está MIle Théroigne de Méricourt que apenas inicia a sua carreira, e uma pequena florista do Palais-Royal, Luísa Chabry, que dentro de poucas horas falara ao rei.
Os homens as vêem passando. Sabem que ninguém atirará contra elas. Já se foi o tempo em que os intendentes mandavam enforcar as provocadoras de motins.
Elas avançam em fileiras compactas.
Lá está o Hôtel de Ville...
Os guardas nacionais, concentrados diante da porta, não podem deter a onda irresistível. Calam as baionetas, mas recebem estoicamente as pedradas. As mulheres passam, sobem as escadas e espalham-se pelos salões, pelas galerias, onde encontram alguns representantes da municipalidade que não puderam fugir.
Para diminuir a desordem, o Cavaleiro d 'Hermigny, oficial médico da guarda, encontra um hábil subterfúgio. Confia a guarda do edifício às que o cercam na escadaria exterior. Imediatamente elas se alinham perto dele e dividem os assaltantes em dois grupos: suas companheiras, a quem deixa entrar, e os homens, a quem impedem a passagem. Mas também estes recorrem a um estratagema. Enfiam saias e corpetes, e logo se encontram também na praça. Arrebentam as portas, arrancam as tapeçarias, arrombam os cofres, soltam os presos. Um deles sobe à torre e toca o sino a rebate, para aumentar a confusão.
Em contato com eles, as mulheres se tornam furiosas; excita-as a vista das tapeçarias, dos salões dourados, desse luxo insolente para a sua miséria.
Ressoa um grito:
– “Queimemos o Hôtel de Ville!”
Providencial corporação a dos meirinhos, tantas vezes malsinada!
Um homem de casaca cinzenta, e pequeno tricórnio poeirento, estava lá: era o Sr. Maillard, meirinho do Châtelet, que se fizera notar pelo seu civismo na tomada da Bastilha. Arranca os archotes já prontos e pronuncia algumas frases veementes (ele conhecia muito bem essa multidão e tinha o hábito do “comando”, na sua qualidade de meirinho); acha tempo de cortar a corda em torno do pescoço dum padre que as mulheres penduraram a quinze pés de altura, e eis que, atrás dele, outro grito reboa e se prolonga:
– “A Versalhes! A Versalhes!”
Um entusiasmo delirante empolga as mulheres. Esse "bando de gruas sem asas", como as denomina um historiador inglês, precipita-se. É meio-dia.
O Sena corre docemente. Maillard apodera-se dum tambor.
O Sena corre docemente. Maillard apodera-se dum tambor.
Toda essa massa humana que, algumas horas antes, na ponte Saint-Eustache, formava uma multidão esganiçada, tornou-se violenta e sombria. Expressões malígnas passam pelos rostos. O ódio dilata os olhos. As mulheres, às quais se juntam desocupados andrajosos – toda a escória da população – que uivam por uivar e que se insurgem por se insurgir, já se vêem afundando os sapatos nas alamedas do palácio, onde caem as últimas folhas.
A imaginação da turba vai direto ao fim: hão de trazer para a Capital o padeiro, a padeira e o padeirinho. A revolta é um dia de festa, a pilhagem é um ganho inesperado para esse exército da miséria.
Os lojistas regozijam-se às soleiras das suas portas: não tem o comércio tudo a lucrar com o regresso do rei e da Corte? E olham com uma curiosidade simpática essas mulheres que puxam carros cheios de balas de artilharia e de pedras, com os canhões a reboque.
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| Palácio Tulherias |
Ao chegarem a Chaillot (todas as casas se fecham à sua aproximação e cada um tranca suas portas e janelas), elas somam cerca de oito mil... Seguem o rio, atravessam a ponte de Sèvres, penetram na cidade, aonde chegam debaixo de chuva.
As lojas são revolvidas, as adegas também – naturalmente! Essas bacantes em fúria comem e bebe tudo o que lhes cai na mão: pão, carne, licores, vernizes! Alguns homens caem bêbedos. Os outros prosseguem o caminho, seminus, esfarrapados, levando nos olhos a destruição e a morte.
As lojas são revolvidas, as adegas também – naturalmente! Essas bacantes em fúria comem e bebe tudo o que lhes cai na mão: pão, carne, licores, vernizes! Alguns homens caem bêbedos. Os outros prosseguem o caminho, seminus, esfarrapados, levando nos olhos a destruição e a morte.
A turba passa por Viroflay, faz alto em Montreuil, onde o “general” Maillard passa revista a toda a sua gente. Depois, dividida em duas colunas, a multidão de assaltantes, artilharia à frente, toma pelas avenidas de Saint-Cloud e de Paris. Entre outeiros arborizados da cidade real, começa a cair o crepúsculo.
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| Praça de Grève |
Entre o Châtelet e Notre-Dame, reinava uma agitação de cidade sitiada. Pelos cais, os sessenta batalhões da guarda nacional comandados por La Fayette tinham vindo colocar-se diante do Hôtel de Ville, abandonado, desde a manhã, pelos representantes da Comuna.
Com a fronte enrugada, o general observava a agitação de suas tropas.
Nas suas Memórias, o Barão Thiébault, que relata essas jornadas em que se vira envolvido, dá a entender que o comandante da guarda nacional "ao qual ele se recusa a dar o título de general" desejara os acontecimentos de 5 e 6 de outubro.
Alguns historiadores partilham dessa opinião. A verdade é que La Fayette, homem honrado mas sequioso de popularidade, colocado entre dois deveres, não soube escolher nem tomar partido resolutamente. Poderia ter dominado os acontecimentos do dia. O mundo tinha os olhos fixos nele. Durante todo o período revolucionário, e naquelas duas jornadas de tumulto, ele não passou – digamo-lo – de um soldado bastante inábil.
Enquanto o povo se dirigia a Versalhes, bradando:
– “A Paris o rei! Pão!... Pão...”, uma comissão de granadeiros foi procurar o general.
– “General” – disse um deles – “fomos enviados pelas seis companhias de granadeiros. Não vos consideramos traidor, mas cremos que o governo vos trai. Não podemos voltar as baionetas contra as mulheres que nos pedem pão. A comissão de subsistência é culpada de malversação ou incapaz de administrar o departamento: em qualquer dos casos, cumpre substituí-la. O povo é infeliz; a fonte do mal está em Versalhes. É preciso buscar o rei e trazê-lo a Paris; é preciso exterminar o regimento de Flandres e a guarda pessoal, que calcaram aos pés as cores nacionais. Se o rei é muito fraco para usar a coroa, que a deponha. Coroaremos o delfim; nomear-se-á um Conselho de Regência e tudo irá melhor.”
La Fayette, desconcertado, lembrou-lhes a disciplina. No fundo, já devia sentir-se vacilar. Estava secretamente irritado com a Corte, que, sem o seu conselho, apelara para o regimento de Flandres. Como diz Necker, ele também desejava ter "influência direta e constante sabre os atos do rei".
– “É inútil tentar convencer-nos” – exclamaram com rudeza vários granadeiros. – “Nossos camaradas pensam como nós e, mesmo que nos convencêsseis, não os convenceríeis a eles.”
O general desceu, então, a Praça da Grève e pôs-se a arengar outros destacamentos, que permaneceram inflexíveis. Gritos cada vez mais violentos cobriam-lhe a voz:
– “Pão! A Versalhes! A Versalhes!"
Houve um momento em que uma exclamação mais significativa lhe chegou aos ouvidos:
– “A Versalhes ou ao poste!”
La Fayette refletiu que a sublevação se faria sem ele e que um homem a quem detestava acima de todos, pelo caráter vil e pelo favor de que também gozava no seio da turba, o Duque de Orléans, saberia tirar proveito da situação. Assim, fazendo com que a Comuna lhe desse a ordem de marcha, e “não lhe sendo possível recusar” (expressão pouco gloriosa para um general, aos olhos da História), reuniu as tropas, destacou, para formar a vanguarda, três companhias de granadeiros e uma de fuzileiros, com três peças de artilharia, e, às cinco horas, no meio das aclamações populares sem as quais não podia viver, o general Marquês de La Fayette conduzia a sublevação a Versalhes.
Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.






