1 de jan. de 2013

REVOLUÇÃO FRANCESA - 11-17 // A vingança das Mulheres


A vingança das Mulheres

Igreja de Saint-Eustache
     A 5 de outubro, de manhã, o sino da Igreja Saint­-Eustache dá o sinal.

     Formam-se ajuntamentos nas HaIles. De todas as casas saem mulheres, descabeladas, esfarrapadas, gritando, vociferando e reclamando pão. Mal nasceu o dia e, contudo, na frescura penetrante da manhã, o rumor se espalha rápido. Repercute nas Halles, atra­vessa os bairros centrais e, transpondo as barreiras mais afastadas, vai acordar os subúrbios.

     Gritos, ape­los, exortações se cruzam ao mesmo tempo que bastões, vassouras e tenazes. Toca o sino a rebate em Sainte-Marguerite...

Hotel de Ville
     – “Ao Hotel de Ville! (palácio da municipalidade) – diz alguém.

      Toda insurreição começa por uma alegria ávida e desorde­nada.

     E o grupo, que aumenta em cada esquina, que se vai transformar numa multidão em delírio avança ao toque dum tambor que uma moça acaba de apanhar.

     Ruidosas ovações saúdam o cortejo. Paris, onde sopra ainda a rajada de 14 de julho, sente que lhe vão apresentar novamente uma peça de grande aparato, e que será, mais uma vez, atora e espectadora.

As mulheres da Revolução Francesa
     Que irão fazer todas essas patriotas? Lançar fogo à mu­nicipalidade? Desancar os edis? Obrigar os monopo­lizadores a restituir o dinheiro mal adquirido?

     Elas vêm de todas as ruas, de todas as classes, do povo e da burguesia, envergando aventais, blusas azuis, vestidos vermelhos: operárias famintas, cria­das, meretrizes, costureiras tentadas por uma curio­sidade malsã.

     Entre elas está MIle Théroigne de Méricourt que apenas inicia a sua carreira, e uma pequena flo­rista do Palais-Royal, Luísa Chabry, que dentro de poucas horas falara ao rei.

     Os homens as vêem passando.  Sabem que ninguém atirará contra elas. Já se foi o tempo em que os in­tendentes mandavam enforcar as provocadoras de motins.

     Elas avançam em fileiras compactas.

     Lá está o Hôtel de Ville...

     Os guardas nacionais, concentrados diante da porta, não podem deter a onda irresistível. Calam as baionetas, mas recebem estoicamente as pedradas. As mulheres passam, sobem as escadas e espalham-se pelos salões, pelas galerias, onde encontram alguns re­presentantes da municipalidade que não puderam fu­gir.

     Para diminuir a desordem, o Cavaleiro d 'Her­migny, oficial médico da guarda, encontra um hábil subterfúgio. Confia a guarda do edifício às que o cer­cam na escadaria exterior. Imediatamente elas se alinham perto dele e dividem os assaltantes em dois grupos: suas companheiras, a quem deixa entrar, e os homens, a quem impedem a passagem. Mas também estes recorrem a um estratagema. Enfiam saias e cor­petes, e logo se encontram também na praça. Arrebentam as portas, arrancam as tapeçarias, arrombam os cofres, soltam os presos. Um deles sobe à torre e toca o sino a re­bate, para aumentar a confusão.

     Em contato com eles, as mulheres se tornam fu­riosas; excita-as a vista das tapeçarias, dos salões dourados, desse luxo insolente para a sua miséria.

     Ressoa um grito:

     – “Queimemos o Hôtel de Ville!”

     Providencial corporação a dos meirinhos, tan­tas vezes malsinada!

     Um homem de casaca cinzenta, e pequeno tri­córnio poeirento, estava lá: era o Sr. Maillard, meirinho do Châtelet, que se fizera notar pelo seu ci­vismo na tomada da Bastilha. Arranca os archotes já prontos e pronuncia algumas frases veementes (ele conhecia muito bem essa multidão e tinha o hábi­to do “comando”, na sua qualidade de meirinho); acha tempo de cortar a corda em torno do pescoço dum padre que as mulheres penduraram a quinze pés de altura, e eis que, atrás dele, outro grito reboa e se prolonga:

     – “A Versalhes! A Versalhes!”

     Um entusiasmo delirante empolga as mulheres. Esse "bando de gruas sem asas", como as denomina um historiador inglês, precipita-se. É meio-dia.

     O Se­na corre docemente. Maillard apodera-se dum tambor.

     Toda essa massa humana que, algumas horas an­tes, na ponte Saint-Eustache, formava uma multidão esganiçada, tornou-se violenta e sombria. Expres­sões malígnas passam pelos rostos. O ódio dilata os olhos. As mulheres, às quais se juntam desocupados andrajosos – toda a escória da população – que ui­vam por uivar e que se insurgem por se insurgir, já se vêem afundando os sapatos nas alamedas do palácio, onde caem as últimas folhas.

     A imaginação da turba vai direto ao fim: hão de trazer para a Capital o padeiro, a padeira e o pa­deirinho. A revolta é um dia de festa, a pilhagem é um ganho inesperado para esse exército da miséria.

     Os lojistas regozijam-se às soleiras das suas por­tas: não tem o comércio tudo a lucrar com o regres­so do rei e da Corte? E olham com uma curiosidade simpática essas mulheres que puxam carros cheios de balas de artilharia e de pedras, com os canhões a re­boque.

Palácio Tulherias
     As mulheres avançam com grandes passos, atra­vessando as Tulherias, mau grado a presença dos Suíços, cruzando a Praça Luís XV e os Campos Elíseos, aonde afluem novos grupos armados de chuços, forca­dos, espadas e bacamartes.

     Ao chegarem a Chaillot (todas as casas se fecham à sua aproximação e cada um tranca suas portas e janelas), elas somam cerca de oito mil... Seguem o rio, atravessam a ponte de Sèvres, penetram na cida­de, aonde chegam debaixo de chuva.

     As lojas são revolvidas, as adegas também – naturalmente! Essas bacantes em fúria comem e bebe tudo o que lhes cai na mão: pão, carne, licores, vernizes! Alguns ho­mens caem bêbedos. Os outros prosseguem o caminho, seminus, esfarrapados, levando nos olhos a destruição e a morte.

     A turba passa por Viroflay, faz alto em Mon­treuil, onde o “generalMaillard passa revista a to­da a sua gente. Depois, dividida em duas colunas, a multidão de assaltantes, artilharia à frente, toma pelas avenidas de Saint-Cloud e de Paris. Entre ou­teiros arborizados da cidade real, começa a cair o crepúsculo.

Praça de Grève
     Enquanto isso, Paris estava revolucionada. 0 po­vo, apanhando de novo seus fuzis, descera dos subúrbios para a Praça da Grève. Os insurretos marcha­vam em colunas, tomando toda a largura das ruas, que ressoavam com seus passos surdos.

     Entre o Châtelet e Notre-Dame, reinava uma agi­tação de cidade sitiada. Pelos cais, os sessenta batalhões da guarda nacional comandados por La Fayet­te tinham vindo colocar-se diante do Hôtel de Ville, abandonado, desde a manhã, pelos representantes da Comuna.

     Com a fronte enrugada, o general observava a agitação de suas tropas.

     Nas suas Memórias, o Barão Thiébault, que re­lata essas jornadas em que se vira envolvido, dá a entender que o comandante da guarda nacional "ao qual ele se recusa a dar o título de general" desejara os acontecimentos de 5 e 6 de outubro.

     Alguns historiadores partilham dessa opinião. A verdade é que La Fayette, homem honrado mas sequioso de popularidade, colocado entre dois deve­res, não soube escolher nem tomar partido resoluta­mente. Poderia ter dominado os acontecimentos do dia. O mundo tinha os olhos fixos nele. Durante todo o período revolucionário, e naquelas duas jornadas de tumulto, ele não passou – digamo-lo – de um sol­dado bastante inábil.

     Enquanto o povo se dirigia a Versalhes, bradando:

     – “A Paris o rei! Pão!... Pão...”, uma comissão de granadeiros foi procurar o general.

     – “General” – disse um deles – “fomos enviados pelas seis companhias de granadeiros. Não vos con­sideramos traidor, mas cremos que o governo vos trai. Não podemos voltar as baionetas contra as mulheres que nos pedem pão. A comissão de subsistência é culpada de malversação ou incapaz de adminis­trar o departamento: em qualquer dos casos, cumpre substituí-la. O povo é infeliz; a fonte do mal está em Versalhes. É preciso buscar o rei e trazê-lo a Paris; é preciso exterminar o regimento de Flandres e a guarda pessoal, que calcaram aos pés as cores nacio­nais. Se o rei é muito fraco para usar a coroa, que a deponha. Coroaremos o delfim; nomear-se-á um Con­selho de Regência e tudo irá melhor.”

     La Fayette, desconcertado, lembrou-lhes a disci­plina. No fundo, já devia sentir-se vacilar. Estava se­cretamente irritado com a Corte, que, sem o seu con­selho, apelara para o regimento de Flandres. Como diz Necker, ele também desejava ter "influência di­reta e constante sabre os atos do rei".
     – “É inútil tentar convencer-nos” – exclamaram com rudeza vários granadeiros. – “Nossos camaradas pensam como nós e, mesmo que nos convencêsseis, não os convenceríeis a eles.”

     O general desceu, então, a Praça da Grève e pôs-­se a arengar outros destacamentos, que permanece­ram inflexíveis. Gritos cada vez mais violentos co­briam-lhe a voz:

     – “Pão! A Versalhes! A Versalhes!"

     Houve um momento em que uma exclamação mais significativa lhe chegou aos ouvidos:

     – “A Versalhes ou ao poste!”

     La Fayette refletiu que a sublevação se faria sem ele e que um homem a quem detestava acima de todos, pelo caráter vil e pelo favor de que também gozava no seio da turba, o Duque de Orléans, sabe­ria tirar proveito da situação. Assim, fazendo com que a Comuna lhe desse a ordem de marcha, e “não lhe sendo possível recusar” (expressão pouco gloriosa pa­ra um general, aos olhos da História), reuniu as tro­pas, destacou, para formar a vanguarda, três com­panhias de granadeiros e uma de fuzileiros, com três peças de artilharia, e, às cinco horas, no meio das aclamações populares sem as quais não podia viver, o general Marquês de La Fayette conduzia a sublevação a Versalhes.

Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.