Os aposentos reais logo serão invadidos
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| Igreja de Saint-Louis |
Os aposentos reais – o quarto do rei, branco e dourado, as pequenas dependências em que vive a rainha, e cujas preciosas decorações souberam conservar o delicado encanto do Trianon - vão ser invadidos, conspurcados, salpicados de sangue.
Seis horas acabam de soar no campanário da igreja Saint-Louis. A manhã está úmida e fria. Algumas lojas abrem timidamente as portas. Dois lampiões permanecem acesos na Praça de Armas, onde se detêm grupos sinistros. O palácio parece dormir. É a hora propicia a um ataque de surpresa.
Alguns grupos rondam os portões, um dos quais – o da Capela – ficou entreaberto. Há cúmplices no palácio. Vários homens passam o portão, sorrateiramente, seguidos de uma multidão armada de chuços, machados e fuzis. Todo esse populacho, logo excitado, ganha a terrasse e vai concentrar-se junto da Orangerie, sob as janelas da rainha, que, muito cansada para continuar a velar, adormeceu entre as suas damas.
Um guarda alerta os companheiros, que lançam mão das armas e saem de seus postos. Dois deles precipitam-se, um para o portão do Pátio dos Príncipes, outro para o portão da Capela. Este, o Sr. des Huttes, é logo derrubado e pisoteado. A multidão o arrasta, agonizante, até o Pátio dos Ministros. Lá, um trapeiro corpulento como um carrasco, Nicolas Jourdan, que foi apelidado Corta-Cabeça, arregaça as mangas e, sujeitando o corpo da vítima sobre um degrau, decapita-a com um golpe de machado. Depois, com as mãos cheias de coágulos de sangue, espeta a cabeça na ponta dum chuço.
Entrementes, os outros guardas deram o alarma aos companheiros reunidos na grande sala, essa vasta peça por onde se sai dos pequenos aposentos da rainha. Descem em grupo de oito, de dez, tentam conter os assaltantes e parlamentar com eles – tudo sem dar um tiro. Mas a turba responde com imprecações:
– “Queremos o coração do rei, para fazer distintivos.”
Os guardas mal têm tempo de lançar-se na grande sala invadida. Recuam, então, para os aposentos da rainha. Um deles, ferido pelas costas, é arrastado, ainda palpitante, ao Pátio dos Ministros, e lá decapitado por Nicolas Jourdan, que espeta a cabeça da nova vítima num chuço ao lado da primeira.
Poças de sangue se espalham pelo chão. As mulheres, talvez mais encarniçadas que os homens, embebem nelas pedaços de pão, afiam facas e apontam para os aposentos da rainha.
– “Queremos a cabeça e o fígado dela” – uivam entre os mais ignóbeis ultrajes.
E toda essa multidão ofegante arremete para a porta da grande antecâmara, que um guarda tem tempo de entreabrir:
– “Senhora – grita para a camareira – salve a rainha!”
Quase ao mesmo tempo, é horrivelmente ferido com uma coronhada.
“Se as camareiras de Sua Majestade se tivessem deitado" – disse uma delas, cuja irmã, Madame de Campan, nos relatou esses acontecimentos em suas Memórias – “a rainha estaria perdida.”
Ouvindo o grito do guarda, elas se precipitam para o quarto de Maria Antonieta, tiram-na da cama, e colocam-lhe um cobertor sobre o corpo; e a rainha, desaparecendo por um corredor que vai dar ao Olho-de-Boi, corre com suas camareiras para o quarto do rei.
Luís XVI também acaba de despertar sobressaltado. Corre, no mesmo instante, à procura da rainha. Encontra a aia e o delfim. Toma nos braços o menino e volta ao quarto, onde, uma hora depois, se acha reunida toda a família real.
Lá estão, ao redor do rei, Mme Elisabeth, que soluça sobre o seu ombro; Monsieur (mais tarde rei Luis XVIII), visivelmente emocionado, embora não tenha muito amor ao irmão e veja com bastante desprezo o seu modo de proceder; a rainha, com os cabelos espalhados sobre a redingote de listas amarelas, acariciando com as lindas mãos, que apenas tremem, os cachos louros do delfim.
Ao lado dela está também, no meio de várias mulheres consternadas, a jovem Mme Real, que, em seu diário, revisto e anotado por Monsieur, nos deixou um relato dessa jornada.
Todas as cabeças se voltam de repente. É o Duque de Orléans que acaba de entrar por sua vez, “fingindo-se desesperado – observa a jovem Maria Teresa – com os horrores cometidos”.
Durante uma hora, ele percorreu a galeria em toda a sua extensão, parando de vez em quando, diante dum espelho, para corrigir algum detalhe do seu traje. A falar verdade, incomoda-o um pouco o cheiro acre da pólvora, mas sorri do clamor cujos ecos lhe chegam aos ouvidos:
– “Viva o Duque de Orléans! Viva o rei de Orléans!”
Ouviu a algazarra do Olho-de-boi, onde os membros da guarda pessoal, cercados, e a ponto de serem trucidados, sofrem verdadeiro assédio até serem salvos por uma companhia de antigos guardas franceses. Ouviu também com aborrecimento os uivos de decepção do populacho por não ter encontrado a rainha no quarto.
O Duque de Orléans fala agora, no vão duma janela, com o rei, cuja morte, três anos depois, não hesitará em votar...
No pátio, uma multidão repelente vocifera e assesta os chuços para o apartamento real, que ela não cessa de espreitar. Há soldados que confraternizam com a turba. Apontam-se fuzis. Varias balas vão esborrachar-se contra a parede. Passam três membros da guarda pessoal, com a corda ao pescoço, escoltados por um grupo que os espanca a coronhadas. Outro é derrubado e decapitado.
– “Mamãe, estou com fome!” – murmura o delfim.
Necker acaba de chegar. Na véspera da abertura dos Estados Gerais, declarara que “não havia certeza da fidelidade das tropas”. Lembra-se, agora, daquela advertência, que não quiseram ouvir. Inclina-se diante de Maria Antonieta, que se mantém serena e corajosa, depois acompanha o rei a uma peça contígua.
Lá em baixo redobra o clamor. 0 cadáver dum guarda foi estendido, com as pernas afastadas, diante dos aposentos reais. As injúrias estalam nas vidraças, como, havia pouco, as balas estalavam nas paredes. No portão, deputados procuram abrir passagem, enquanto o exército parisiense, precedido de peças de artilharia, faz sua entrada no Pátio Real, e no Pátio de Mármore, que se acham completamente invadido pelo povo.
O bispo de Langres, Sr. de La Luzerne, que na noite anterior presidira a sessão da Assembléia Nacional, só a muito custo consegue entrar no quarto do rei. Segue-lhe o Sr. de La Fayette. Tendo finalmente despertado, o general preocupa-se em restabelecer a ordem. Viram-no. Levanta-se no pátio um rumor que, crescendo, sobe ate as vidraças:
– “Venha o rei à sacada!”
Durante vários minutos, e um verdadeiro bramido. O rei hesitava. Afinal, adianta-se acompanhado da rainha, que tem ao colo o delfim e traz pela outra mão a pequena Madame.
Uma grande ovação parte dessa turba inconstante e sempre sensível à coragem. La Fayette coloca-se ao lado do rei e lembra ao povo o seu juramenta de fidelidade. Os soberanos assomam à sacada por diversas vezes, depois se retiram. Mas a multidão não se afasta, apesar dos reiterados pedidos de La Fayette. Surpreendido um instante pela aparição dos soberanos, quer agora, já que se lhe satisfazem as exigências, que a rainha volte a sacada.
– “A rainha! A rainha!”
Não grita a austríaca, nem Madame Veto, conforme o hábito, mas há, no tom com que são proferidas aquelas sílabas, uma fúria áspera e contida.
Maria Antonieta aparece. É em vão que a tentam reter, enquanto os filhos choram querendo ir com ela. Essa rainha, que foi, talvez, inábil, imprudente, mas que até no cadafalso permanecerá corajosa, apresenta-se diante da multidão com a mesma altivez com que irá ao suplício. Em pé na sacada, só, de mãos sobre o peito, contemplando com os grandes olhos esse povo subitamente silencioso, ela inclina-se.
Uma hora depois, quando – diante de novas imprecações do populacho que, excitado pelos seus cabecilhas, reclama a volta do rei a Paris – a partida da família real é deliberada, Maria Antonieta diz tristemente aos que a rodeiam:
– “Sei qual a sorte que me espera, mas o meu dever é morrer aos pés do rei e nos braços de meus filhos.”
Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.

