1 de jan. de 2013

REVOLUÇÃO FRANCESA: 13/17 // Aposentos reais invadidos


Os aposentos reais logo serão invadidos

Igreja de Saint-Louis
     No dia seguinte, 6 de outubro, à hora em que, na véspera, as mulheres do Mercado se aglomeravam em tumulto, o palácio, vigiado somente por um pelotão da guarda pessoal do rei (os outros foram levados na direção de Rambouillet) presenciará cenas horrorosas.

     Os aposentos reais – o quarto do rei, branco e dourado, as pequenas dependências em que vive a rainha, e cujas preciosas decorações souberam conservar o delicado encanto do Trianon - vão ser invadidos, conspurcados, salpicados de sangue.

     Seis horas acabam de soar no campanário da igre­ja Saint-Louis. A manhã está úmida e fria. Algumas lojas abrem timidamente as portas. Dois lampiões permanecem acesos na Praça de Armas, onde se de­têm grupos sinistros. O palácio parece dormir. É a hora propicia a um ataque de surpresa.

     Alguns grupos rondam os portões, um dos quais – o da Capela – ficou entreaberto. Há cúmplices no palácio. Vários homens passam o portão, sorra­teiramente, seguidos de uma multidão armada de chu­ços, machados e fuzis. Todo esse populacho, logo ex­citado, ganha a terrasse e vai concentrar-se junto da Orangerie, sob as janelas da rainha, que, muito can­sada para continuar a velar, adormeceu entre as suas damas.

     Um guarda alerta os companheiros, que lançam mão das armas e saem de seus postos. Dois deles pre­cipitam-se, um para o portão do Pátio dos Príncipes, outro para o portão da Capela. Este, o Sr. des Huttes, é logo derrubado e pisoteado. A multidão o arrasta, agonizante, até o Pátio dos Ministros. Lá, um trapeiro corpulento como um carrasco, Nicolas Jourdan, que foi apelidado Corta-Cabeça, arregaça as mangas e, sujeitando o corpo da vítima sobre um degrau, decapita-a com um golpe de machado. De­pois, com as mãos cheias de coágulos de sangue, espeta a cabeça na ponta dum chuço.

     Entrementes, os outros guardas deram o alarma aos companheiros reunidos na grande sala, essa vas­ta peça por onde se sai dos pequenos aposentos da rainha. Descem em grupo de oito, de dez, tentam con­ter os assaltantes e parlamentar com eles –  tudo sem dar um tiro. Mas a turba responde com imprecações:

     – “Queremos o coração do rei, para fazer distin­tivos.”

     Os guardas mal têm tempo de lançar-se na grande sala invadida. Recuam, então, para os aposentos da rainha. Um deles, ferido pelas costas, é arrastado, ainda palpitante, ao Pátio dos Ministros, e lá deca­pitado por Nicolas Jourdan, que espeta a cabeça da nova vítima num chuço ao lado da primeira.

     Poças de sangue se espalham pelo chão. As mulheres, talvez mais encarniçadas que os homens, em­bebem nelas pedaços de pão, afiam facas e apontam para os aposentos da rainha.

     – “Queremos a cabeça e o fígado dela” – uivam entre os mais ignóbeis ultrajes.

     E toda essa multidão ofegante arremete para a porta da grande antecâmara, que um guarda tem tem­po de entreabrir:

     – “Senhora – grita para a camareira – salve a rainha!”

     Quase ao mesmo tempo, é horrivelmente ferido com uma coronhada.

     Se as camareiras de Sua Majestade se tives­sem deitado" – disse uma delas, cuja irmã, Madame de Campan, nos relatou esses acontecimentos em suas Memórias – “a rainha estaria perdida.”

     Ouvindo o grito do guarda, elas se precipitam para o quarto de Maria Antonieta, tiram-na da cama, e colocam-lhe um cobertor sobre o corpo; e a rainha, desaparecendo por um corredor que vai dar ao Olho-­de-Boi, corre com suas camareiras para o quarto do rei.

     Luís XVI também acaba de despertar sobressal­tado. Corre, no mesmo instante, à procura da rainha. Encontra a aia e o delfim. Toma nos braços o meni­no e volta ao quarto, onde, uma hora depois, se acha reunida toda a família real.

     Lá estão, ao redor do rei, Mme Elisabeth, que soluça sobre o seu ombro; Monsieur (mais tarde rei Luis XVIII), visivelmente emocionado, embora não tenha muito amor ao irmão e veja com bastante desprezo o seu modo de proceder; a rainha, com os cabelos espalhados sobre a redingote de listas amarelas, acariciando com as lindas mãos, que apenas tremem, os cachos louros do delfim.

     Ao lado dela está também, no meio de várias mulheres consternadas, a jovem Mme Real, que, em seu diário, revisto e anotado por Monsieur, nos deixou um relato dessa jor­nada.

     Todas as cabeças se voltam de repente. É o Du­que de Orléans que acaba de entrar por sua vez, “fin­gindo-se desesperado – observa a jovem Maria Te­resa – com os horrores cometidos”.

     Durante uma hora, ele percorreu a galeria em toda a sua extensão, parando de vez em quando, dian­te dum espelho, para corrigir algum detalhe do seu traje. A falar verdade, incomoda-o um pouco o chei­ro acre da pólvora, mas sorri do clamor cujos ecos lhe chegam aos ouvidos:

     – “Viva o Duque de Orléans! Viva o rei de Orléans!”

     Ouviu a algazarra do Olho-de-boi, onde os mem­bros da guarda pessoal, cercados, e a ponto de serem trucidados, sofrem verdadeiro assédio até serem sal­vos por uma companhia de antigos guardas france­ses. Ouviu também com aborrecimento os uivos de decepção do populacho por não ter encontrado a rai­nha no quarto.

     O Duque de Orléans fala agora, no vão duma ja­nela, com o rei, cuja morte, três anos depois, não hesitará em votar...

     No pátio, uma multidão repelente vocifera e as­sesta os chuços para o apartamento real, que ela não cessa de espreitar. Há soldados que confraternizam com a turba. Apontam-se fuzis. Varias balas vão esborrachar-se contra a parede. Passam três membros da guarda pessoal, com a corda ao pescoço, escoltados por um grupo que os espanca a coronhadas. Outro é derrubado e decapitado.

     – “Mamãe, estou com fome!” – murmura o del­fim.

     Necker acaba de chegar. Na véspera da abertura dos Estados Gerais, declarara que “não havia cer­teza da fidelidade das tropas”. Lembra-se, agora, daquela advertência, que não quiseram ouvir. Incli­na-se diante de Maria Antonieta, que se mantém se­rena e corajosa, depois acompanha o rei a uma peça contígua.

     Lá em baixo redobra o clamor. 0 cadáver dum guarda foi estendido, com as pernas afastadas, dian­te dos aposentos reais. As injúrias estalam nas vi­draças, como, havia pouco, as balas estalavam nas pa­redes. No portão, deputados procuram abrir passa­gem, enquanto o exército parisiense, precedido de pe­ças de artilharia, faz sua entrada no Pátio Real, e no Pátio de Mármore, que se acham completamente invadido pelo povo.

     O bispo de Langres, Sr. de La Luzerne, que na noite anterior presidira a sessão da Assembléia Nacional, só a muito custo consegue entrar no quarto do rei. Segue-lhe o Sr. de La Fayette. Tendo finalmente despertado, o general pre­ocupa-se em restabelecer a ordem. Viram-no. Levan­ta-se no pátio um rumor que, crescendo, sobe ate as vidraças:

     – “Venha o rei à sacada!”

     Durante vários minutos, e um verdadeiro bra­mido. O rei hesitava. Afinal, adianta-se acompanhado da rainha, que tem ao colo o delfim e traz pela outra mão a pequena Madame.

     Uma grande ovação parte dessa turba incons­tante e sempre sensível à coragem. La Fayette colo­ca-se ao lado do rei e lembra ao povo o seu juramenta de fidelidade. Os soberanos assomam à sacada por diversas vezes, depois se retiram. Mas a multidão não se afasta, apesar dos reiterados pedidos de La Fayet­te. Surpreendido um instante pela aparição dos soberanos, quer agora, já que se lhe satisfazem as exigências, que a rainha volte a sacada.

     – “A rainha! A rainha!”

     Não grita a austríaca, nem Madame Veto, con­forme o hábito, mas há, no tom com que são proferi­das aquelas sílabas, uma fúria áspera e contida.

     Maria Antonieta aparece. É em vão que a tentam reter, enquanto os filhos choram querendo ir com ela. Es­sa rainha, que foi, talvez, inábil, imprudente, mas que até no cadafalso permanecerá corajosa, apresen­ta-se diante da multidão com a mesma altivez com que irá ao suplício. Em pé na sacada, só, de mãos sobre o peito, contemplando com os grandes olhos esse povo subitamente silencioso, ela inclina-se.

     Uma hora depois, quando – diante de novas im­precações do populacho que, excitado pelos seus cabecilhas, reclama a volta do rei a Paris – a partida da família real é deliberada, Maria Antonieta diz tristemente aos que a rodeiam:

     – “Sei qual a sorte que me espera, mas o meu dever é morrer aos pés do rei e nos braços de meus fi­lhos.”

Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.