30 de dez. de 2012

CAPITALISMO - 1 // Síntese Biográfica de Henry Ford






ECONOMIA POLÍTICA – Sentenças da História – Estudos Investigativos

Introdução - Henry Ford (1863-1947)
O "Pai" da Revolução da Produção Industrial

É imprescindível que Executivos e Universitários desejosos de compreender e implementar noções reais e fundamentais de Economia Política em Governos, Empresas e Universidades, saibam de cor os extraordinários diálogos capazes de detonar com os Enigmas dessa sentença judicial.

Concepção Clássica de Capitalismo
X
Concepção da Empresa Industrial e Comercial

     O famoso industrial americano foi – sozinho e mais do que qualquer outro – o responsável pela introdução das técnicas de produção em massa na industria moderna. Com isso, aumentou imensamente o padrão do nível de vida em seu próprio pais e, finalmente, em todo o mundo.

     Ford, que nasceu perto de Dearborn, no Estado de Michigan (EUA), nunca cursou o ginásio. Depois de terminar o primário, trabalhou como aprendiz de mecânico em Detroit e a seguir como mecânico de consertos e maquinista.

     Ainda era jovem quando, em 1885, Karl Benz e Gottlieb Daimler (independente­mente) inventaram e começaram a vender o automóvel.

Henry Ford
     Ford logo ficou interessado nessas "carruagens sem cavalos” e, ­em 1896, já havia construído um automóvel com base em projeto próprio. Entretanto, apesar de seus talentos, suas duas primeiras especulações não tiveram sucesso e, se ele tivesse morrido aos quarenta anos de idade, teria sido considerado um fracasso.

     Mas Ford não perdia o entusiasmo com facilidade e, em 1903, tentou novamente; foi com esta terceira empresa, a Ford Motor Company, que obteve riqueza, fama e importância duradoura. O rápido sucesso da Companhia foi devido em grande parte ao concei­to básico de Ford, colocado, aliás, em uma propaganda inicial:

“(...) construir e comercializar um automóvel especialmente projetado para o uso e o abuso de todos os dias - no negócio, na área profissional e em família; (...) uma máquina que será admirada tanto pelos homens quanto pelas mulheres e crianças por ser compacta, simples, segura e por sua conveniência para tudo e – por último, mas não menos importante – por seu preço excepcionalmente razoável, que a coloca ao alcance de milhares que não poderiam sequer pensar nos preços compa­rativamente fabulosos da maioria das máquinas.”

     Seus modelos iniciais, apesar de terem boa qualidade, não conseguiram atingir aquelas metas elevadas. O famoso Modelo T, lançado em 1908, chegou bem perto, entretanto. Foi, sem duvida, o carro mais célebre jamais produzido, e, logicamente, mais de 15 milhões foram vendidos.

     Logo de início, Ford percebeu que, para vender seus carros a baixo preço, teria que diminuir muito seus custos de produção. Para tanto, iniciou nas fábricas uma série de técnicas de produção muito eficientes, que incluíam:

       (a) peças completamente intercambiáveis,
       (b) alto grau de divisão de tarefas e
       (c) linha de montagem.
     Tudo orientado para aumentar a eficiência individual do trabalhador.

Karl Benz
     Era crucial, segundo acreditava Ford, evitar que o trabalhador perdesse tempo na busca de materiais e peças necessários ou, mesmo, na necessidade de erguê-los do chão antes de começar a usá-los. Então, Ford fez arranjos que trouxessem o trabalho ao operário por meio de esteiras rolantes, calhas ou carrinhos suspen­sos. As peças eram entregues na altura da cintura, permitindo ao operário executar a tarefa de forma mais rápida.

     Os métodos de produção foram cuidadosamente analisados na constante tentativa de encontrar técnicas melhores e mais eficientes. As tarefas comple­xas foram divididas em partes mais simples para que pudessem ser executadas por trabalhadores não especializados (alguns dos quais poderiam ter pouca inteligência, pouca educação ou, mesmo, sofrer de alguma deficiência física) e sem longos períodos de treinamento.

Gottlieb Daimler, em Berlim (1886)
     Nenhuma dessas idéias era original. Eli Whitney havia utilizado a técnica das peças intercambiáveis mais de um século antes; o conhecido especialista em rendimento Frederick Winslow Taylor havia proposto todas essas idéias em seus artigos, e muitas Compa­nhias menores já haviam usado a linha de montagem em suas operações. Ford foi, entretanto, o primeiro grande industrial a aplicar todas elas com convicção.

     Os resultados, foram surpreendentes: em 1908, o Modelo T mais barato era vendido por US$ 825. Em 1913, o preço havia caído para apenas US$ 500. Em 1916, foi reduzido para US$ 360, e, finalmen­te, em 1926, o preço no varejo chegou ao mínimo de US$ 290.

Eli Whitney
     Com a queda de preços, as vendas subiram como foguete. Os EUA se tornaram "uma nação sobre rodas", e Ford acabou sendo o homem mais rico do mundo.

     Com o aumento da produtividade, podia pagar salários mais altos aos trabalhadores. Em 1914, estarreceu o mundo industrial aumen­tando o salário mínimo em suas fábricas para cinco dólares por dia – quantia respeitável para a época e quase o dobro da média dos salários da Companhia no passado.

     Com a adoção generalizada em todo o país dos salários mais altos introduzidos por Ford, o resultado foi a transposição dos operários da pobreza para a classe média.
Frederick Winslow Taylor
     As inovações de Ford tiveram, todavia, impacto ainda mais abrangente. Ele não fazia segredo de suas técnicas de produção em massa – muito pelo contrário, gostava de exibi-las. Outros indus­triais, vendo seu sucesso, copiaram seus métodos de produção, e o resultado foi o enorme aumento da produtividade em todo o país e, eventualmente, em todo o mundo.

     Depois que Ford atingiu o sucesso econômico, engajou-se em uma série de causas políticas. Os resultados, entretanto, devem tê-lo decepcionado, pois seus esforços pacifistas durante os anos iniciais da Primeira Guerra Mundial não foram bem-sucedidos.
     Nos anos 20, engajou-se numa campanha de propaganda anti-semita, o que só lhe trouxe descrédito e, finalmente, provocou uma retração pública.

Linha de montagem da Ford
     Na década de 1930, lutou com muito denodo contra a entrada dos sindicatos em suas Companhias, o que só serviu para antagonizar os operários, sem trazer qualquer benefício para sua empresa, e ele também abandonou tais esforços.

     Entretanto, essas atividades finais, apesar de macularem sua reputação, tiveram relativamente pouco efeito no mundo e não afetaram a importância de seu papel na revolução da produção industrial. Seu processo aumentou em muito a produtividade e os ganhos dos trabalhadores.

Michael H. Hart
Por: Michael H. Hart, em “As 10 Maiores Personalidades da História”. Formado em ciências humanas pela Cornell University; em direito pela New York Law School; em ciências exatas pela Adelphi University; e em astronomia pela Princeton University. Atualmente trabalha como cientista assistente sênior na Systems and Applied Sciences Corporation, em Riverdale, Maryland (EUA).
Queira Michael H. Hert aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a Introdução ao Processo de Ortodoxia (Ford x Dodge) aqui no Blog-ANE “Detonando com os Enigmas em Sentenças Judiciais”.

CAPITALISMO - 2 // Síntese Biográgica de Henry Ford









ECONOMIA POLÍTICA – Sentenças da História – Estudos Investigativos

Parte 1

É imprescindível que Executivos e Universitários desejosos de compreender e implementar noções reais e fundamentais de Economia Política em Governos, Empresas e Universidades, saibam de cor os extraordinários diálogos capazes de detonar com os Enigmas dessa sentença judicial.

Concepção Clássica de Capitalismo
X
Concepção da Empresa Industrial e Comercial

    Houve vários processos retumbantes na vida de Henry Ford. Nenhum é mais informativo, do ponto de vista da nossa temática, do que aquele em que teve por adversários os dois irmãos Dodge (John Francis Dodge e Horace Elgin Dodge), fundadores da Dodge Veículos

    As convicções e o profetismo de Henry Ford são expressos nesse processo pelo próprio Henry Ford numa linguagem tanto mais impressionante quanto é desprovida de qualquer tom patético. Ele expõe a sua concepção da empresa industrial, em oposição aberta e em desafio constante à concepção clássica do capitalismo. Noutros termos, esse processo é essencialmente um processo de ortodoxia. Para além dos interesses em causa, e eram consideráveis, tratava-se antes de mais nada de saber quem era ortodoxo e quem era herético, quem tinha a verdadeira concepção da empresa e quem tinha uma concepção errada.

Henry Ford
    Eis os fatos. Em junho de 1903, a Ford Motor Company havia sido incorporada com um capital nominal de 100.000 dólares. As diversas contribuições em espécie e as patentes representavam quase os três quartos desse capital declarado. Somente 28.000 dólares foram efetivamente desembolsados. Das mil ações emitidas, couberam cinqüenta a cada um dos irmãos Dodge. Estas ações representavam o trabalho e as peças fornecidas a Ford pelas oficinas Dodge, mais 3.000 dólares em dinheiro.
    Foi reorganizada a Companhia várias vezes, certos acionistas foram eliminados, o capital nominal aumentado, nunca, porém, com dinheiro vindo de fora. Em 1916, contava oito acionistas. Henry Ford detinha a maioria das ações.
    Já em 1915 se avaliava que a Companhia Ford tinha feito ganhar aos irmãos Dodge 5.450.000 dólares, e, em 1916, lhes havia pago 1.200.000 em dividendos. Entretanto, os irmãos Dodge haviam por seu lado fundado outra Companhia automobilística, e contavam com os dividendos Ford para desenvolver seus negócios.

USINA DO ROUGE DA FORD
Maior fundição do mundo nos anos 20 (Século 20)
    Por seu lado, Henry Ford só pensava em aumentar a própria produção, desenvolvendo a planta da Rouge, que devia ser a maior e mais bela usina do mundo. Precisava de dinheiro: como a idéia de reduzir os salários nem lhe passava pelo espírito, reduziu os dividendos na proporção de 10 para 1, o que, mesmo assim, perfazia a bonita quantia de dois milhões de dólares por mês para a totalidade dos dividendos. Os irmãos Dodge sentiram pânico. Houve processo. As duas vedetes foram Henry Ford e o advogado dos Dodge, isto é, Elliot G. Stevenson. Foi um caso memorável.
    Para começar sua Companhia, Henry Ford havia precisado de dinheiro, quer dizer, de acionistas. Na época, em vista de seu pouco crédito, fora grande sorte para ele os encontrar. Uma professora de ensino primário de Detroit, irmã de James J. Couzens (senador dos EUA), hesitara muito tempo antes de investir todas as suas economias (200 ou 300 dólares) na Companhia Ford. Prudentemente, acabou por comprar uma só ação de 100 dólares. Esta única ação a enriqueceria, rendendo-lhe 335.000 dólares.

John Francis Dodge
    O que contrariava Ford em tal situação não era de forma nenhuma distribuir dividendos, mas ter de levar em conta, no governo de sua empresa, senão a opinião, pelos menos os interesses de pessoas que não tinham nenhuma responsabilidade de negócio e não perfilhavam de nenhum jeito as mesmas idéias que ele quanto ao modo de conduzi-lo.
     Ford acabou por considerar os acionistas como parasitos. Verdade, até os leões têm parasitos, mas além de que é preciso que as pulgas não acabem por devorar o leão.
     Ford, com sua intransigência puritana, não admitia que nenhuma pulga pudesse viver à custa de um leão. Era por conseguinte, antes de mais nada, a relação do chefe de empresa para com os acionistas o que estava em jogo: a quem pertence o controle da empresa?
     Todavia, logo se levantou outra questão muito mais grave:

Qual é o objetivo essencial da empresa industrial e comercial?
Qual é o fim precípuo para o qual deve ser orientada?

Horace Elgin Dodge
     Os irmãos Dodge, e Stevenson, seu advogado, representavam a posição capitalista tradicional e pretendiam que a empresa é, essencial e principalmente, orientada para o lucro, sempre para maior lucro, quer dizer, finalmente, para dividendos cada vez mais altos. Não ofereciam objeções a reconhecer que até então seus dividendos haviam sido bastante agradáveis - lovely dividends.
     Henry Ford formava da indústria e dos negócios uma idéia inteiramente diferente, para não dizer oposta. Para ele, uma empresa industrial e comercial era, em primeiro lugar e antes de mais nada, um serviço público, do qual assim definia os fins:
     "Permitir a grande número de pessoas a compra e uso (de um carro) e dar a grande número de homens trabalho e salários substanciais. Tais são os dois objetivos que tenho na vida".
     Neste programa, não há lugar para o dinheiro e os lucros: veremos que Ford era sincero e que, para ele, dinheiro e lucros não são fins, sim meios da empresa.
Elliot G. Stevenson
Advogado dos irmãos Dodge
     Ford assim definia o seu método industrial:
     "Ampliar as operações, melhorar a qualidade do artigo, tanto quanto possível fazermos nós mesmos a partilha, e reduzir o preço de custo, assim como o preço de venda”.
     O lucro era o que lhe permitia continuar a fazer girar a usina, perseguir seu objetivo de expansão e de autarquia industrial; o lucro era ainda o sinal do êxito, a prova de que ele tinha razão e seus métodos eram bons.
     Ninguém acharia que eu tivesse tido êxito, se eu não houvesse conseguido ao mesmo tempo essas realizações e assegurar, entanto, bom lucro para mim mesmo e meus associados nos negócios".
     Mas logo acrescentava, com uma solenidade que raiava pela insolência: "E seja-me permitido dizer, aqui, que não me parece devamos realizar tão monstruosos lucros com os nossos carros. Um lucro razoável está bem, mas não demasiado. É assim que a minha política foi reduzir, com todos os meus esforços o preço do carro à medida que a produção o permitia, e assegurar o benefício resultante para os clientes e os operários. O surpreendente no caso é que os benefícios para nós mesmos se tornaram enormes".
     Tratar um lucro elevado, e conseqüentemente largos dividendos, de "monstruoso" (awful), quando os irmãos Dodge os achavam tão "atraentes" (lovely), era blasfemar contra Deus em seu templo, e é isso que não podia ser perdoado.
     Esse foi o fundo do processo.

Raymond Léopold Bruckberger, em 1983
     Por: Raymond Léopold Bruckberger (1907-1998). Sacerdote-monge dominicano francês, membro ativo da Resistência Francesa, escritor, tradutor, roteirista e diretor de cinema francês, diretor de Patrimônio da Áustria, autor de La République Americaine, em 1958 (Images of América, em 1959), e de dezenas de livros consagrados. Colaborador regular em L'Aurore e Le Figaro Magazine
     Em 1985, Bruckberger foi eleito Membro da Academia de Ciências Morais e Políticas (Académie des Sciences Morales et Politiques).
     Esta Série de Estudos Avançados (Sentenças da História, estudos investigativos) é resultante de uma adaptação complementada (ilustrada) do texto-capítulo de Bruckberger em “Images of América”. Queira ele aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a apresentação do Processo de Ortodoxia (Ford x Dodge) aqui no Blog-ANE “Detonando com os Enigmas em Sentenças Judiciais”.

CAPITALISMO - 3 // Processo de Ortodoxia Ford X Dodge








ECONOMIA POLÍTICA – Sentenças da História – Estudos Investigativos

Parte 2
Concepção Clássica de Capitalismo
X
Concepção da Empresa Industrial e Comercial

Henry Ford, fazendo a história da
indústria automobilística mundial

     Tratar um lucro elevado, e conseqüentemente largos dividendos, de "monstruoso" (awful), quando os irmãos Dodge os achavam tão "atraentes" (lovely), era blasfemar contra Deus em seu templo, e é isso que não podia ser perdoado.

     Esse foi o fundo do processo.

     E tivemos o seguinte diálogo, em que duas concepções se defrontavam, com a implacável intransigência de ortodoxias incompatíveis:

     Stevenson - Agora, vou fazer-lhe a pergunta; continua com a opinião de que esses lucros eram "lucros monstruosos"?

Henry Ford e Thomas Edison
     Ford - Sim, acho que sim. Definitivamente, sim.

     Stevenson - E é essa a razão pela qual não estava satisfeito por continuar a ter tão monstruosos lucros?

     Ford - Aparentemente, não somos capazes de manter os lucros em níveis baixos.

     Stevenson - Tem-se esforçado por manter esse nível baixo? Para que está organizada a Ford Motor Company, se não para dar lucros, quer informar, Sr. Ford?

     Ford - Ela está organizada para fazer tanto bem quanto pudermos, em toda parte, para quem quer que por ela se interesse. Para ajudar o mais possível quem quer que dela necessite... Para fazer dinheiro e investi-lo, para dar trabalho, para entregar os carros onde as pessoas deles precisam. .. e, acessoriamente (incidentally), para fazer dinheiro.

Evolução dos Logotipos da Ford
     Stevenson - "Acessoriamente" para fazer dinheiro?

     Ford - Sim, senhor.

     Stevenson - Mas o que para Vossa Senhora define e justifica a empresa... é dar a grande exército de operários trabalho e salários altos, reduzir o preço de venda de seu automóvel, de tal maneira que muitas pessoas possam comprá-lo por baixo custo, e a quem quer que deseje um carro poder dar-lho?

     Ford - A quem der tudo isso, o dinheiro lhe choverá nas mãos; não conseguirá desembaraçar-se dele.

The Henry Ford Museum
     Em todas as universidades do mundo, todos os jovens que desejam aprender algumas noções de Economia Política deveriam saber de cor este extraordinário diálogo. Para a Economia, ele é tão importante quanto a Declaração da Independência em política. Exprime, como esta, uma espécie de revolução de Copérnico.
     A empresa não gira mais em volta de dinheiro, é o dinheiro que passa a ser um planeta da empresa; mas a própria empresa está a serviço do homem. Como a Medicina está a serviço do homem. Esse diálogo fantástico é tão importante, para aqueles que entram nos negócios, quanto o juramento de Hipócrates para os médicos.
     Os dois historiadores da Companhia Ford, Allan Nevins e Frank E. Hill, fazem notar, com razão, que, no processo entre Ford e os irmãos Dodge, um compromisso era impossível; e Ford, do ponto de vista jurídico, teria reforçado consideravelmente a sua posição consentindo em dizer:

Usina do Rouge da Ford
     "A nossa política visa, toda ela, em última análise, ao interesse dos acionistas. A expansão é somente uma necessidade da empresa. Com o correr do tempo, esta expansão será imensamente proveitosa à Companhia (como os fatos o provaram em seguida). A criação de novos empregos e redução do preço dos carros é acessória (incidental). Quanto aos dividendos, já retomamos o pagamento de dividendos especiais, e, assim que a situação da Companhia o permitir, nós os aumentaremos".

     Mas esse processo dava a Ford, profeta e apóstolo, exatamente o foro para fazer ressoar a sua convicção. Que lhe importava perder um processo? Ter-se-ia deixado esfolar pela sua convicção. Pedir-lhe que reconhecesse, de um lado que os lucros e os dividendos eram o objetivo primeiro e principal da empresa, e de outro que a criação de novos empregos com salários elevados, juntamente com o abaixamento do preço de venda do produto manufaturado, não era senão o objetivo secundário e acessório, era o mesmo que pedir a um cristão uma profissão de fé muçulmana, ou a um médico confessar que o coração se encontra à direita. Como esperar de um homem que se renegue a esse ponto? Tal compromisso teria desonrado Henry Ford aos próprios olhos. Não era de seu feitio.

Poder Judiciário dos EUA
     Como era de esperar, perdeu o processo. O juiz tomou o partido do "atrativo" dos lucros contra sua "monstruosidade".

     A sentença do juiz merece ser meditada: emprega linguagem tão clara quanto a de Ford:

A Sentença
     "Uma empresa de negócios é organizada e dirigida, em primeiro lugar e primeiramente, para o lucro dos acionistas. Os poderes dos diretores são empregados para esse fim... e não pode estender-se até mudar o próprio fim da empresa, ou reduzir os lucros, os reter os lucros destinados aos acionistas para consagrá-los a outro emprego dos dividendos”.

     Bendito seja esse juiz. Benditos sejam os irmãos Dodge e seu advogado. Bendito seja esse processo, e a condenação.

Henry Ford: inventor da
Linha de Montagem
     Parece-me impossível doravante criar ilusões sobre a verdadeira natureza da economia americana: conforme tenha seguido o juiz ou Henry Ford, ela é capitalista ou anticapitalista. Não se pode ser, ao mesmo tempo, por Henry Ford e pelo juiz.
     Um dos exercícios, que deveriam ser mais praticados nas universidades americanas, seria o de refazer o processo de Ford e ver se hoje, no estado atual das leis e dos costumes americanos, ele seria ainda condenado. Duvido que fosse.
     Na realidade e de imediato, tal como aconteceu com Galileu, ele não perdeu inteiramente o processo. Em primeiro lugar, evidentemente, a sentença não lhe alterou as idéias.

Usina do Rouge da Ford
     "Devo conduzir meu negócio (falou Ford) em bases que me parecem sólidas e justas. Não posso proceder de outra forma".

     Em seguida, só a ameaça de que largaria a Companhia, deixando-a periclitar, para fundar outra sem acionistas, levou todos os acionistas a venderem-lhe a sua parte. Os irmãos Dodge receberam vinte e cinco milhões de dólares. Conta-se que Ford chegou a dançar de alegria. Ia marchar daí por diante para a expansão, da expansão para a autarquia, da autarquia para a autocracia. É preciso observar, em sua defesa, que não lhe haviam deixado escolha. Sozinho em suas opiniões, tinha, além disso, razão, como imensa fortuna veio, mais tarde, prová-lo aos olhos de todos.
     Mas o mais importante, para nossa temática, é que Henry Ford ganhou o seu processo logo na mesma ocasião perante a opinião pública, e é aí que se pode ver quanto essa opinião pública estava, como o próprio Ford, impregnada das idéias de Henry Charles Carey.

     Por: Raymond Léopold Bruckberger (1907-1998). Autor de La République Americaine, em 1958 (Images of América, em 1959). Em 1985, Bruckberger foi eleito Membro da Academia de Ciências Morais e Políticas (Académie des Sciences Morales et Politiques).

CAPITALISMO - 4 // Processo de Ortodoxia Ford X Dodge








ECONOMIA POLÍTICA – Sentenças da História – Estudos Investigativos

Parte 3
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Concepção Clássica de Capitalismo
X
Concepção da Empresa Industrial e Comercial

Timeline Ford
     Certa concepção da Economia Política se formava nos EUA, em oposição às tradições capitalistas ainda oficialmente mantidas pelo juiz. Os dois historiadores da Ford Motor Company dão mesmo a entender que o gosto pela popularidade inspirou a Ford a sua atitude durante o processo. Não sou dessa opinião. Ou pelo menos penso que, como todo predicador, Ford gostava de ter uma audiência. Mas o fato de que o público americano o tenha ouvido com tanto agrado prova até que ponto a nação estava pronta para a revolução anticapitalista que Ford na empresa definia.

     Se o juiz que condenou Henry Ford tivesse tido suficiente inteligência e cultura, se houvesse compreendido todas as implicações do processo e de sua própria sentença, eis o discurso que poderia ter dirigido ao "garoto levado" da indústria americana.
     Será desnecessário frisar que este discurso é, de minha parte, inteiramente imaginado, mas creio que exprime com bastante fidelidade a situação respectiva do acusado e do juiz. Imagino, ainda, que esse juiz teria proferido esse discurso em tom paternal, freqüentemente empregado por juiz de idade avançada para com jovem delinqüente, a quem deseja dar oportunidade de se reabilitar aos olhos da sociedade. Eis o discurso:

Henry Ford e o Quadricycle w-herry
     "Eu o condenei, Sr. Henry Ford, porque era de meu dever e porque represento aqui uma sociedade capitalista burguesa, da qual não somente há violado as leis, como ainda, o que é infinitamente mais grave, tem atacado a ortodoxia. Se me é permitido revelar meus sentimentos pessoais, direi que o meu veredicto não foi inspirado por nenhuma animosidade. Muito ao contrário, aprecio o senhor, e aprecio-o muito. Para dizer a verdade, sinto-me constrangido por ter de condenar o senhor. Por um lado, como esquecer que o senhor já é um homem rico, em vias de tornar-se um homem fabulosamente rico, um dos homens mais ricos do mundo? Por conseguinte, como não apreciá-lo? Suguei o amor ao dinheiro junto com o leite materno. Mas a vocação de juiz numa sociedade capitalista só me confirmou neste amor. Represento com orgulho uma sociedade baseada no lucro, e os seus lucros são enormes, Sr. Ford, enormes. Queira notar que digo "enormes". Não tolero que lhes chamem "monstruosos". Estamos quase chegando ao centro da querela, Sr. Ford, de sua disputa com a sociedade capitalista burguesa. Aprecio o senhor, mas não posso ter respeito pelo senhor.”

     "Confesso que meu caso é trágico. Na minha idade, já não me julgava destinado a desempenhar o papel de um desses heróis de teatro, tomados entre o amor e o dever, e que não podem respeitar inteiramente o objeto de uma paixão fatal. O meu caso é corneliano, e isso parece que o deixa profundamente indiferente. Vou ainda mais longe: aqui, neste tribunal, onde sou juiz, os papéis parecem-me invertidos. De um lado, não posso deixar de apreciar o senhor por causa de seu dinheiro, e, de outro lado, sinto-me infinitamente culpado de estimar um homem que tem tão pouca veneração pelo dinheiro. Na realidade, sinto-me infinitamente mais culpado do que o senhor parece sentir-se culpado. O senhor não reconhece seus erros, Sr. Ford; manifesta em suas palavras o orgulho de uma consciência endurecida e de um pecador sem remorso. Em sua opinião sou eu que laboro em erro, eu, quer dizer, a lei, e esta sociedade capitalista que represento e é de meu dever proteger”.

Adam Smith
     "Não quero humilhar sem necessidade um homem tão rico quanto o senhor. Mas enfim, Sr. Ford, que conhece o senhor das leis da mais sã Economia? Queira ter pelo menos a modéstia da sua ignorância. Talvez até nunca tenha ouvido falar do Sr. Adam Smith. Vou por conseguinte dizer-lhe quem era ele. O Sr. Adam Smith era um intelectual inglês, um professor, Sr. Ford, que escreveu um livro admirável, do qual lhe recomendo a leitura, e se chama The Wealth of Nations. Neste livro, o Sr. Adam Smith definiu perfeitamente, e para sempre, as leis de uma sã Economia, que o senhor parece ignorar. Ora, para o Sr. Adam Smith, o projeto, a finalidade suprema da Economia Política, é aumentar continuamente a riqueza e o poder que dá a riqueza, e não há como sair daí. Aumento contínuo da riqueza, isso não é mais do que a acumulação dos lucros. Nesta definição clássica, o Sr. Adam Smith, que sabe o que diz, tem todo o cuidado em não falar dos operários e de seus salários ou do interesse dos consumidores, e em fazer todo o bem possível, em toda parte onde for possível, a todas as pessoas a quem for possível. Tudo isso são idéias de poeta."

David Ricardo
     "E o Sr. David Ricardo, já ouviu falar do Sr. Ricardo? Os delinqüentes que nos mandam hoje têm realmente muito pouca instrução, é uma lástima. O Sr. Ricardo era um banqueiro de Londres, fez um casamento vantajoso e escreveu livros que fazem lei. É preciso ver como fala do salário dos operários. Numa sã Economia, é preciso reduzir os salários o mais possível, como se reduz o preço de custo dos chapéus ou de qualquer outra mercadoria. E tudo quanto sobra é lucro, isto é, dividendos; e tudo está bem assim!”

     "Pense, Sr. Ford, que, para todo inglês em seu perfeito juízo, a autoridade dos Srs. Smith e Ricardo é tão sagrada quanto a peruca do Lord Mayor de Londres. E é porque os ingleses aplicaram, sem medo e sem dó, estas leis dos Srs. Smith e Ricardo, que a rainha Vitória reinou sobre a nação mais rica e o império mais próspero do mundo. Como se poderiam ignorar tais êxitos e quem é o senhor para se opor a todos eles? Não receia tão grande solidão?”

Karl Marx
     "Mesmo um homem como o Sr. Karl Marx (intelectual alemão, esse) reconheceu o gênio dos Srs. Smith e Ricardo e a validade científica de seu sistema. Que estou eu dizendo; reconheceu? Fez desse sistema a base de seu próprio sistema. Note que não gosto nada do Sr. Karl Marx, que viveu em Londres uma vida miserável e cujas obras considero como muito perigosas para a sociedade. Tenho até vergonha de pronunciar seu nome neste recinto. Porque era um revolucionário e pretendia que o sistema capitalista dos Srs. Smith e Ricardo devia um dia transformar-se em seu contrário, como uma lagarta se transforma em borboleta. Ele também tinha suas idéias de poeta, e dessa parte não vou falar. Mas, enfim, por muito revolucionário que fosse, reconhecia-se o discípulo e continuador dos Srs. Smith e Ricardo. Ora, Sr. Ford, ainda tenho mais vergonha pelo senhor do que por Marx, porque o senhor nem sequer respeita os mestres que ele respeitava, e parece-me que o senhor é infinitamente mais revolucionário do que ele foi”.

The Wealth of Nations
     "Vou precisar ainda mais meu propósito. O Sr. Adam Smith, nosso Mestre, enunciou a seguinte lei, que sabia ser científica, e que é aceita como tal pelos Srs. Ricardo e Marx: Se os salários forem elevados ou diminuídos, os preços serão do mesmo passo elevado ou diminuído! Espero que esta lei seja suficientemente clara para que o senhor a compreenda. De acordo com a ortodoxia capitalista, da qual o Sr. Adam Smith é o doutor incontestado, sobre a qual a nossa sociedade se baseia, e represento aqui, só há um meio de baixar o preço de venda do produto, é baixar ao mesmo tempo os salários, ou os lucros, ou os dois ao mesmo tempo. Como não se pode razoavelmente exigir de um capitalista, cujo fim é enriquecer-se, que abaixe o lucro, se esse capitalista quiser, de um lado baixar os preços para atender à concorrência, do outro manter e aumentar seu lucro, constitui fatalmente uma necessidade científica reduzir os salários, reduzindo-os cada vez mais ao que se chama o ‘mínimo vital’, porque sempre é preciso que os operários vivam e se reproduzam, para não secar a fonte desta mercadoria que se chama o trabalho. Este estado de coisas é como é. Reconheço que se resume em dizer que só é possível enriquecer a custa dos pobres. O Sr. Ricardo congratula-se com isso. O Sr. Karl Marx lamenta-o. Pelo menos, ambos reconhecem a necessidade científica deste estado de coisas, que ele está na base da nossa sociedade capitalista.”

Proletários (nos EUA)
     "O senhor, Sr. Ford, o senhor só, com toda a sua audácia de ignorante, ousa pisar na lei de Adam Smith. Pretende ao mesmo tempo baixar os preços e elevar os salários, e cumpre o que diz. A conseqüência, pela lei, é que deveria estar arruinado. Em vez disso, seus lucros aumentam continuamente. O senhor transtorna todo o sistema capitalista, Sr. Ford, o senhor o revoluciona até o âmago. É o mesmo que andar com as mãos no chão e os pés no ar. E o senhor pretende que pode enriquecer, não através do empobrecimento dos pobres, mas, ao contrário, enriquecendo-os. O senhor anda de pernas para o ar, acredite o que lhe digo. Porém o escândalo dos escândalos é que isso lhe traz êxito. Contudo, estou-me deixando levar pela minha indignação, ao invés de lhe explicar as conseqüências de sua loucura. Queira perdoar.”

Henry Ford e a marca de carros
vendidos (24-04-1931)
     "Uma empresa, Sr. Ford, e em geral toda organização econômica e social, define-se por sua finalidade. Se lhe mudar os objetivos, estará mudando do mesmo passo sua natureza. Ora, o senhor muda os objetivos da empresa industrial e comercial; por conseguinte, muda-lhe a natureza. A sua empresa já não é mais capitalista, pelo menos conforme a tradição oficial definida pelos Srs. Smith e Ricardo, reconhecida e visada pelo Sr. Karl Marx. E se o senhor não é capitalista, rico como é, então gostaria de saber o que é. O que mais lhe censuro é baralhar todas as minhas idéias, de que não tem o direito.”

     "O senhor teve uma frase infeliz, Sr. Ford, uma frase extremamente infeliz, para não dizer perniciosa. Atreveu-se a proferir que, para o senhor, o dinheiro não passa de um elemento como tantos outros na cadeia da produção, ‘a part in the conveyor line’, como o carvão, ou o minério, ou uma de suas numerosas máquinas. Mas, no sistema capitalista, o lucro, enfim, o dinheiro, é o objetivo supremo, quase diria o ídolo. Ao contrário, os salários, e os próprios operários, não passam de um elemento na cadeia da produção, como o carvão ou o minério. Eis que vem o senhor, e transtorna tudo. Não considera os lucros num plano mais elevado que uma reserva de carvão que lhe permite fazer girar suas usinas e, pelo contrário, considera a alta dos salários como um dos objetivos essenciais da indústria.”

Editorial sobre Henry Ford
     "Desse modo, o senhor chega a uma conseqüência social extrema que considero altamente revolucionária. O senhor modifica radicalmente a condição operária. O sistema capitalista ortodoxo tem o maior cuidado em reduzir e manter o operário no ‘mínimo vital’, ao que o Sr. Karl Marx chama, com toda a propriedade, a condição de proletário.”

     “Ao dobrar os salários de seus operários, Sr. Ford, o senhor arruinou pela base esta condição proletária, pôs em perigo a própria base do sistema capitalista."

     "Dá o senhor a seus operários muito mais do que o ‘mínimo vital’; dá-lhes um poder de compra do qual podem dispor livremente, dá-lhes direito de cidadania no mercado, confere-lhes a dignidade de cliente e de consumidor, quando não eram, até o senhor aparecer, senão mercadoria a mais nesse mercado, como qualquer outra, da qual se dispõe, mas que não dispõe de si própria.”

Propaganda da Ford
     "Resumo e classifico minha acusação:”

         "1º – O senhor baixa sistemàticamente o preço de venda do produto fabricado e eleva ao mesmo tempo os salários dos operários.”

         "2º – Faz passar o produto fabricado da categoria luxo à categoria popular e de primeira necessidade.”

         "3º – Faz passar o operário e seu trabalho da categoria de mercadoria à categoria de cliente e consumidor.”

         "4º – Com isso, faz passar os Srs. Smith e Ricardo por imbecis, e vai até mais longe, corta as vagas ao Sr. Karl Marx, cuja teoria revolucionária se baseia toda ela no fato de que, em regime capitalista, nunca, mas nunca, o operário pode elevar-se acima do ‘mínimo vital’ e passar à dignidade de cliente.”

Prédio da Ford
     "Não ria, Sr. Ford, o senhor deveria ter vergonha. O senhor é um herético e o pior dos heréticos. Não só nega o dogma, o dogma capitalista conforme o evangelho de Adam Smith e de Ricardo, mas cobre-o de ridículo, porque sou obrigado a confessar, apesar de tudo, que o senhor enriquece imensamente e sem parar, o que é o fim supremo do capitalista. O senhor enriquece até sem querer e brincando, o que é o sonho do capitalista. Enriquece quando deveria beirar a ruína. Se não vivêssemos num século esclarecido que baniu toda superstição, eu me perguntaria se não há algum bruxedo nisso; e se o senhor não fosse tão rico, Sr. Ford, como teria prazer em mandá-lo para a cadeia!”
     "Note bem que, de acordo com a ortodoxia capitalista que aqui represento e em nome da qual o condenei, a sua fortuna, por muito grande que seja, é adquirida por meios ilícitos, visto que o senhor a conseguiu enriquecendo os pobres em vez de empobrecê-los cada vez mais; e o senhor dela faz uso ilegítimo, pois pretende dela fazer beneficiar todos, em vez de guardá-la zelosamente para si próprio. A sua fortuna não é legítima, porquanto o senhor viola a verdadeira lei do enriquecimento. Despeço-me do senhor com estas palavras irrefutáveis que os generais austríacos disseram a Napoleão que os havia vencido: ‘Todas as suas vitórias são nulas, porque são ganhas contra o regulamento militar’.”

Henry Ford e a Evolução da Ford
     A Economia Política é assunto tão austero, que devo pedir desculpas ao leitor por ter-me alongado tanto numa situação jocosa. Todavia, esta situação só é divertida, como as situações de Moliere, porque encobre e revela ao mesmo tempo uma burla enorme. Na linha de Adam Smith, Ricardo e Karl Marx, a Economia Política parece tão fabulosa e mitológica quanto a alquimia medieval.

     Por: Raymond Léopold Bruckberger (1907-1998). Autor de La République Americaine, em 1958 (Images of América, em 1959). Em 1985, Bruckberger foi eleito Membro da Academia de Ciências Morais e Políticas (Académie des Sciences Morales et Politiques)