1 de jan. de 2013

REVOLUÇÃO FRANCESA: 12/17 // A Resposta do Rei


A Resposta do Rei

Palácio dos Menus-Plaisirs
     A Assembléia Nacional estava entregue, havia vários dias, a surda agitação. Esperava a resposta do rei sobre a sanção à Declaração dos Direitos e aos decretos constitucionais, e parecia, na expressão de Bailly, “mais empenhada em encher o tempo do que em ocupá-lo”.

     A 5 de outubro, pela manhã, enquanto as mulhe­res se dirigiam a Versalhes, chegou a resposta. Luís XVI aprovava apenas provisoriamente os artigos constitucionais e se recusava a sancionar a Declaração. A Assembléia foi sacudida, durante muito tem­po, por grande comoção. O Padre Grégoire e o Padre Maury intervieram, cada um em sentido diferente. Mirabeau falou com veemência, atacando a rainha e denunciando, depois de outro orador, o banquete da guarda pessoal. Sabia que as mulheres de Paris esta­vam em marcha.

     Mal Mirabeau acabara de se sentar, elas entraram na sala das sessões. Encharcadas pela chuva e salpicadas de barro, conduzidas pelo general-meirinho, enlameado até a espinha, parecera-lhes útil, ao passarem diante do palácio dos Menus-Plaisirs, deter-se para fazer uma demonstração.

     Mirabeau, então, num salto, cor­rendo à cadeira do presidente (é o próprio Mounier quem relata este episódio), o aconselhou em voz bai­xa, e em poucas palavras apressadas, a levantar a sessão. Queria sem dúvida, com essa medida, facilitar a marcha do motim.

     Essa a inesquecível sessão que Mounier descre­verá minuciosamente seis anos depois, em Weimar, quando for hóspede do ilustre amigo de Schiller e de Goethe!

     Imagine-se, naquela grande sala dos Menus-Plai­sirs, ainda a vibrar dos minutos sagrados da noite de 4 de agosto, a entrada shakespeariana dessas me­geras que galgam as bancadas e se espalham pelos corredores, escoltando até a barra um homenzinho sombrio, armado dum grande sabre: o meirinho Mail­lard, seu eloqüente porta-voz.

     A ata da sessão, que se poderá encontrar nos Ar­quivos Parlamentares, menciona da maneira mais acadêmica a chegada dessa “deputação” de “cidadãos e cidadãs”. Reproduz até as palavras de Maillard, que lavra autos e faz "citações" à barra da Assembléia:

     – “Vimos a Versalhes para pedir pão e, ao mes­mo tempo, para punir a guarda pessoal que insultou o emblema patriótico. Os aristocratas querem fazer-nos morrer de fome. Hoje mesmo foi enviada uma nota de 200 libras a um moleiro, a quem convidaram a não mais moer, sob promessa de lhe ser entregue quantia igual todas as semanas.”

     – “A Assembléia – registra a ata – solta um gri­to de indignação e, de todas as partes da sala, lhe perguntam: ‘– Quem foi?’ As mulheres declaram que foi o arcebispo de Paris. Cresce o tumulto. ‘– Pão!’ urram as amazonas, muitas das quais se descalçam, pois têm os sapatos encharcados. É escalada a tribu­na presidencial. Algumas beijam Mounier. Outras chamam ‘nossa mãezinha Mirabeau’, e o autor de Cartas a Sofia põe sobre os joelhos as mais lindas.”

     – “A mais indecente alegria – observa um depu­tado – se estabeleceu no santuário dos representan­tes do primeiro povo do mundo."

     Mounier submete à votação um decreto sobre os víveres, a que Maillard se opõe. Depois deixa a cadei­ra para ir ao palácio falar com o rei. O Sr. de La Lu­zerne, bispo de Langres, substitui-o na presidência. Algumas mulheres vão beijá-lo, outras o vilipendiam.

     Ouvem-se gritos:

     – “Abaixo a batina!”

     A algazarra é indescritível. Corajosamente, o bispo ficará na cadeira até as dez horas da noite.

     Avançando pela Avenida de Paris, no meio da multidão que se tornara mais compacta aos toques de rebate, Mounier encontrou o palácio sitiado.

     O famoso regimento de Flandres já desertara.

     – “Bebemos o vinho dos guardas” – exclamavam os soldados.

     – “Mas nem por isso deixamos de perten­cer à Nação!”

     Mulheres vindas de Paris rodearam o presidente da Assembléia e lhe pediram, com insistência, que as acompanhasse ao palácio. Com muito custo, ele conse­guiu que apenas seis dentre elas o seguissem.

Estátua equestre de Luís XIV 
     As ou­tras esperaram, no meio de uma multidão andrajo­sa, por fora do portão guardado por sentinelas, que se erguia então entre as duas alas do castelo, mais ou menos no lugar onde hoje se eleva a estátua eqües­tre de Luis XIV. O portão se fechou sobre Mounier e a deputação; e, por entre os varões da grade, olha­res ferozes seguiram-nos na bruma.

     – “Morra a rainha!” – uivavam.

     – “Tragam-nos o fígado e as coxas dela para fazermos distintivos.”

     Soavam clarins. Uma chuva persistente empapa­va o chão. A noite caía sabre a cidade.

     No interior do palácio tudo se encontrava, havia muitas horas, na maior desordem...

     O Duque de MailIé, tendo sabido que as mulheres de Paris marchavam sobre Versalhes, dera o alarma a Mme Elisabeth. A rainha, logo prevenida, mostrara muita coragem.

     – “Sei que vêm de Paris para reclamar a minha cabeça, mas aprendi de minha mãe a não temer a mor­te, e esperarei com firmeza.”

     O rei fora avisado nos bosques de Meudon, onde caçava; é de notar, através das mais graves con­junturas desse período de 1789, que Luís XVI não dispensou seu exercício predileto, assim como não per­deu jamais o seu vigoroso apetite, até na prisão do Templo.

     Fechados os portões do castelo, os seus aposen­tos se haviam enchido. Damas olhavam pelas jane­las. Até a noite, os salões e as galerias estremeceram com o febril vaivém dessa nobreza de Corte, leviana e amolentada, que, não obstante, nos próximos meses da tormenta saberia morrer tão corajosamente.

     Logo depois da volta do rei, os ministros se ha­viam reunido na sala do Conselho. Vários dentre eles tinham aconselhado o afastamento imediato da família real. Mas Luís XVI, que, no dizer de um depu­tado do Terceiro Estado, tinha “uma coragem pas­siva”, recusara.

     Deliberavam ainda, quando se anunciou a delegação conduzida por Mounier. A delegação esperava na peça que servia de antecâmara ao quarto do rei e que comunicava com a galeria – a mesma peça onde, no dia seguinte, os guardas sitiados encontrariam um último refúgio: o Olho-de-boi.

     Foram introduzidos Mounier e as parisienses. O rei os mandou passar para seu quarto. Quando as mulheres se encontraram diante dele, ficaram tão perturbadas que não puderam dizer uma palavra.

     Uma pequena florista de dezessete anos, que há pouco vimos partir resolutamente do mercado, Lui­sa Chabry, murmurou apenas: “– Pão”, baixando a cabeça, e desmaiou. Quando recuperou os sentidos, o rei a abraçou e suas companheiras se enterneceram com a bondade que emanava da pessoa do soberano. Ele prometeu dar ordens para que os celeiros d 'Etam­pes e de Corbeil mandassem trigo, e enviou imedia­tamente essas ordens por escrito a um deputado.

     Quando a ordem do rei chegou aos Menus-Plai­sirs, às nove e meia da noite, a sala não se esvaziara, e a atmosfera estava indescritível. As mulheres vo­ciferavam. Um vento de loucura soprava sobre a Assembléia, que decidiu suspender a sessão.

     Que se pas­sou depois da partida dos deputados?

     Uma paródia de deliberação, sem dúvida, pois alguns contemporâneos nos descrevem uma mulher subindo à cadeira presidencial e tocando a campainha entre gargalha­das.

     Enquanto isso, Mounier, que permanecera no palácio, na sala do Conselho, rogava aos ministros que obtivessem do rei a aceitação dos artigos constitu­cionais e da Declaração dos Direitos, que ele se recu­sara a sancionar na manhã desse mesmo dia.

     Outras mulheres tinham avançado em direção ao palácio, cujos portões continuavam assediados pela multidão. A guarda pessoal, que recebera de Luís XVI a ordem formal de não atirar sobre qualquer dos assaltantes, quis dispersar essas novas delegações. Tiros de cara­bina partiram do povo. Algumas balas atingiram o alvo. Três das peças de artilharia trazidas de Paris pelos assaltantes foram assestadas contra os guardas. E só não houve uma chacina geral graças à chuva que continuava a cair, e que molhara a pólvora.

“Isso dará pão aos pobres?”

     Somente às dez horas, depois de longas confe­rências e intermináveis hesitações, o rei assinou, cho­rando, a aceitação pura e simples dos artigos constitucionais e da Declaração dos Direitos.

     Quando, há uma hora avançada, a Assembléia Na­cional reabriu a sessão, Mounier leu a aceitação do rei. As mulheres ainda estavam lá.

     – “Sr. Mounier – disse uma delas, dirigindo-se à tribuna – isso dará pão aos pobres?”

     Frase ingênua, cheia de doloroso bom-senso, a única que, entre as exclamações dessa turba em delírio, guarda um comovente acento humano!

     O ponteiro do relógio marcava meia-noite. Uma impaciência evidente agitava os deputados, muitos dos quais conversavam entre si. Para manter a Assem­bléia em atividade, o presidente, dissimulando o cansaço que lhe causava essa jornada de tensão e esfor­ços, acabara de anunciar a discussão dos artigos que se deviam reformar no direito criminal, quando, de repente, subiu da rua um rumor surdo entrecortado de ordens rápidas, depois um ruflar de tambores, o baque seco das coronhas dos fuzis no chão. Após no­ve horas de marcha, na chuva e na lama, chegara general La Fayette, seguido dos trinta mil homens da guarda nacional.

     Quando penetrou na sala das sessões, jovem, ele­gante e impassível, o silêncio era absoluto. De sua poltrona, Mounier o interpelou friamente: que vinha fazer?

     – “Proteger o rei” – respondeu o marquês.

     Depois, aproximando-se de Mounier, acrescentou que ia reclamar a dissolução do regimento de Flan­dres.

     Um quarto de hora mais tarde, La Fayette atra­vessou a antecâmara e um gentil-homem, o Cavaleiro de Saint-Louis, disse distintamente:

     – “Ai está Cromwell.”

     – “Senhor - replicou o general – Cromwell não teria entrado só.”

     E encaminhou-se ao aposento do rei.

     Luís XVI, ereto e altivo, o esperava. O marquês lhe afirmou sua fidelidade e lhe disse que apenas a vontade do povo comandara os soldados, mas que ele lhes fizera prestar o juramento de observar a mais rigorosa disciplina.

     Depois, o marquês conseguiu que a família real voltasse para seus aposentos e que os antigos guardas franceses, que tinham acompanhado a guar­da nacional, substituíssem, em seus postos no caste­lo, as sentinelas da guarda pessoal.

     Voltando a Assembléia Nacional, La Fayette transmitiu a Mounier, que, exausto, cuspia sangue, o resultado da entrevista com o rei, e o persuadiu a levantar a sessão. Eram três horas e meia.

     O general foi inspecionar pela última vez o palácio, depois se dirigiu para o seu quarto na Rua de la Pompe, a cem passos do portão da capela. Às cinco horas atirava-se na cama, completamente vestido.

     O Barão Thiébault que, já o dissemos, julga La Fayet­te com severidade, não lhe perdoou essa despreocupação.

     – “Um simples cabo” – escreve Thiébault em suas Memórias – “compreenderia que o amanhecer era o momento em que a sua função teria mais importância, em que mais necessária se tornaria a sua vigilância e ação... Naquele momento em que ele não se achava em parte alguma, deveria estar em toda a parte, e se, pelas cinco horas, quisesse repousar, devia fazê-lo na esca­daria de mármore do palácio!"

Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.