A morte de Luís XV
Escutar a voz da prudência na Corte de Luís XV era possível, quando o próprio rei dava o exemplo de prazer imoderado?
Nenhuma época foi mais galante, nem mais refinadamente libertina do que aquela.
Pode-se dizer que tudo era permitido, que tudo era admitido no terreno das fraquezas humanas, contanto que se respeitassem as regras do decoro e das boas maneiras.
Jamais o desrespeito total da mulher se conciliou com uma polidez formal tão requintada, com atenções tão gentis.
0 adultério, por exemplo, era a coisa mais trivial na Corte, mas o homem que encontrasse a amante num salão, certamente a trataria com mais reserva e deferência do que às outras mulheres.
É que havia um bom-tom para o amor como para a amizade, e as suas normas, na ausência das da simples moral, eram imperativas na boa sociedade, e escrupulosamente respeitadas.
O ciúme era considerado como um sentimento ridículo e bárbaro, contrário às exigências da urbanidade. A esposa enganada não só se envergonhava de deixar transparecer ciúmes; mas, ainda, conforme a regra da polidez devia desfazer-se em atenções para com a amante de seu marido.
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| Mme de Rouget |
A amizade apaixonada não estava menos em voga que o amor e a galantaria.
Alardeava-se o culto da amizade, elevavam-se altares e compunham-se hinos em sua honra.
Não havia sacrifício demasiado oneroso quando se tratava de obsequiar uma amiga e praticar um ato de galante urbanidade.
Mme de Rouget, desejando certa vez ir a Longchamp, pedira ao Sr. de Valence que lhe emprestasse a sua caleche, que ela supunha disponível.
Como, nesse dia, a caleche não estivesse livre, o Sr. de Valence não hesitou em comprar outra com o único objetivo de emprestá-la a Mme de Rouget.
Mme de Genlis, que nos refere esse rasgo tão característico, acrescenta que foi considerado, sem dúvida, muito amável e galante, mas não surpreendeu a ninguém.
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| Espetáculos populares nos meios aristocráticos |
A questão de dinheiro não existia para essa sociedade aristocrática, frívola e requintada, que mantinha mesa franca e fazia da vida de salão a substância, o único interesse e a finalidade última da existência.
As intrigas de amor, as relações perigosas, as amizades apaixonadas eram a graça e o encanto dessa vida de salão. Alimentavam a conversação, entre duas discussões filosóficas sobre O Contrato Social e sobre a tolerância.
Ninguém pensaria, por certo, em "insultar uma mulher que cai". Pelo contrário, essas quedas galantes eram julgadas com extrema indulgência... uma indulgência que não pode, creio, nem surpreender muito nem escandalizar a nossa época.
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| Busto de Maria Antonieta, com 16 anos de idade. |
Ah! Sem dúvida, Maria Antonieta não se habituara a isso na Corte de Viena!
As cartas severas da imperatriz vinham, de quando em quando, pregar-Ihe a moral rígida enquanto lembrando os princípios em que fora educada.
Maria Antonieta, porém, tinha dezesseis anos, amava os prazeres, folguedos e jogos, gostava da dança e do mundo, e, à falta dum marido que o fosse realmente, não lhe desagradava sentir-se admirada, adulada, rodeada de jovens atenciosos, espirituosos e alegres, que sabiam dizer gentilmente coisas tão bonitas.
Que mal havia em divertir-se, contanto que permanecesse honesta?
E como não se embriagar com sua popularidade?
Quatro anos se passaram assim...
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| Maria Antonieta em baile (cena do filme "Maria Antonieta" |
Certamente, eles foram assinalados, sob o ponto de vista político, por profundas perturbações.
Mas Maria Antonieta ainda não se interessava pela política. Esta interessa as mulheres principalmente pelas amizades que têm entre os políticos.
A Delfina, toda absorvida nos divertimentos galantes, dava pouca atenção a medidas que não atingiam seus amigos.
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| Mme du Barry, em 1780 |
A influência da du Barry tornara-se mais forte que nunca, e ela terminara vencendo o partido do duque Choiseul.
Seis meses após o casamento que coroava sua obra, o duque tivera que depor nas mãos do rei a pasta de primeiro-ministro.
Muito ligado ao meio parlamentar, Choiseul teve de ceder lugar a um triunvirato ministerial antiparlamentar(1770-1774): René Nicolas Charles Augustin de Maupeou, nomeado chanceler da França (1768) por Luís XV; duque d'Aiguillon (Relações Exteriores); e l' ábbé Terray (controle-geral das Finanças).
Depois de nomear o duque d'Aiguillon e Terray, em 1771 Maupeou dissolveu o parlamento de Paris e realizou profunda reforma judiciária.
Com o gole de Estado de Maupeou, que quebrou a unidade parlamentar ao suprimir o parlamento de Paris, o duque d'Aiguillon deu início às reformas financeiras necessárias.
Com o gole de Estado de Maupeou, que quebrou a unidade parlamentar ao suprimir o parlamento de Paris, o duque d'Aiguillon deu início às reformas financeiras necessárias.
Luís XV (por sugestão de Maupeou) exilou Choiseul nas suas terras de Chanteloup. Muito impopular, Terray pouco mais tarde será substituído por Turgot.
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| Duque d' Aiguillon |
O chanceler René Nicolas Charles Augustin de Maupeou (1714-1792) dissolvera os parlamentos rebeldes à autoridade do rei, para os substituir por uma magistratura mais dócil.
Esse pequeno golpe de Estado não deixara de produzir viva emoção na França, onde, apesar do seu espírito retrógrado, os parlamentos eram populares porque se recusavam a aumentar os impostos e criticavam a autoridade real.
Esse pequeno golpe de Estado não deixara de produzir viva emoção na França, onde, apesar do seu espírito retrógrado, os parlamentos eram populares porque se recusavam a aumentar os impostos e criticavam a autoridade real.
Mas a mão de Luís XV era firme, e até pesada quando necessário. Ele segurava resolutamente as rédeas.
Sabia-se que estava disposto a uma repressão enérgica e, apesar do surdo descontentamento provocado por todas essas medidas, ninguém tentou perturbar a ordem.
Sabia-se que estava disposto a uma repressão enérgica e, apesar do surdo descontentamento provocado por todas essas medidas, ninguém tentou perturbar a ordem.
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| René Nicolas Charles Augustin de Maupeou |
René Nicolas Charles Augustin de Maupeou, ex-presidente do parlamento de Paris, é filho de René Charles, o primeiro presidente do mesmo parlamento (1743-1757) e ministro da justiça (1763-1768).
Entretanto, o rei envelhecia.
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| Luís XV e Mme du Barry |
Os médicos lhe aconselhavam que se poupasse. Mas ele não se decidia, de modo nenhum, a separar-se da du Barry. Impressionara-se muito, porém, com um sermão da quaresma de 1774 sobre a frase do profeta:
"Ainda quarenta dias e Nínive será destruída."
A alusão era clara, e não faltava coragem ao pregador. Seria, aliás, espantosamente profética.
Para os fins de abril, com efeito, Luís XV sentiu-se muito cansado e indisposto. A 26 de abril, enjoado e sem apetite, não pode comer nada no Trianon, onde se achava com Mme du Barry.
No dia 27 de abril devia ir à caça. Sentiu-se tão fatigado que decidiu ir de carro, contra os seus hábitos. Queixou-se de sentir frio, voltou para deitar-se e verificou que estava com febre.
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| La Martinière |
No dia seguinte a febre aumentara. Mandou chamar seu cirurgião La Martinière, o único que lhe inspirava confiança porque lhe falava com certa rudeza.
La Martinière o examinou, achou que não era uma simples indisposição e disse, autoritário:
– “Sire! É em Versalhes que deve tratar-se.”
Ato contínuo, fez o rei enfiar a robe de chambre, por uma capa por cima e subir ao carro.
Luís XV, que tremia de febre, ordenou ao cocheiro que tocasse a toda a brida.
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| Quarto de Mme Adelaide |
Em três minutos estava em Versalhes e, enquanto lhe preparavam a cama, sentou-se um momento no quarto de Mme Adelaide. Estava muito vermelho e queixava-se de forte dor de cabeça.
Deitou-se em seguida. Tópicos nas têmporas foram aplicados no rei, e teve também de fazer uso de ópio.
Estava muito agitado, falava alto e com voz rouca. Mandou chamar Mme du Barry.
À noite, aproximando-se para lhe dar de beber, o médico notou manchas vermelhas.
– “Tragam a lâmpada” – disse; – “o Rei não enxerga o copo”.
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| Microorganismo causador da varíola |
E, sob a luz, verificou que se tratava de uma erupção de varíola. Nada se disse a Luís XV, que, julgando ter tido varíola já aos dezoito anos, estava longe de suspeitar a natureza da moléstia.
Mas a nova notícia sobre a varíola se espalhou logo pelo palácio e, em pouco tempo, toda a Corte se achava em rebuliço. A varíola, na idade em que estava o rei, e num organismo tão fatigado como o dele, era um mal gravíssimo e de sombrio prognóstico.
Todo o clã da du Barry, com o Duque d'Aiguillon à frente, andava mortalmente inquieto e a toda hora vinha pedir notícias.
Duas sangrias consecutivas não fizeram baixar a febre e enfraqueceram muito o doente. Discutia-se se era necessária ou não uma terceira sangria. Mas Luís XV tinha como princípio que não se deve sofrer uma terceira sangria sem antes pôr a consciência em harmonia com a religião. Era justamente o que o clã da du Barry queria evitar a todo transe.
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| Estampa de Mme du Barry |
A favorita du Barry instalara-se à cabeceira do doente e de quando em quando lhe enxugava o suor da fronte. Na realidade, tinha muito medo ao contágio e preferiria estar longe. Mas o cIã não lhe permitira. Estava ali, por assim dizer, de guarda, obedecendo a ordens. Velava menos pelo doente do que pela manutenção dos favores e prebendas que seu partido obtivera.
As três filhas de Luís XV também estavam lá, arrostando por piedade filial, com meritória coragem, os riscos da doença.
Esse convívio forçado da amante e das três filhas, que não trocavam palavra, tinha algo de cômico e pungente ao mesmo tempo. Cada qual seguia, com sentimentos diversos, o progresso da erupção. E, vendo as mãos cobertas de pústulas, Luís XV espantava-se:
– “Se eu não soubesse que já a tive, pensaria que estou agora com a varíola.”
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| O Trono de Luís XV vazio |
As filhas, assustadas com o desenvolvimento do mal, quiseram que o pai recebesse o arcebispo de Paris. Mas os médicos, ligados ao clã da du Barry, diziam que o temor da confissão mataria o rei como um tiro de pistola.
– “Pelo menos – replicavam as filhas – o arcebispo poderia fazer uma simples visita ao Rei, para reconciliar aos poucos seu espírito com a religião.”
E lembravam que seu pai repetia seguidamente que bastava reconciliar-se com Deus antes de morrer, pois um bom peccavi tudo resgata.
O próprio arcebispo estava para morrer de cálculos renais; mas, atendendo pedido das filhas de Luís XV, levantou-se com grande esforço para visitar o rei. Mas os médicos o deixaram esperando indefinidamente na antecâmara, onde se encontrou de inopino com a du Barry, que desmaiou ao vê-lo. Furioso, o arcebispo se retirou sem ser recebido.
O rei, entretanto, começava a perceber o seu estado. A 3 de maio, observando atentamente as borbulhas, exclamou súbito:
– “Mas é a varíola!”
O mutismo dos médicos e a troca de olhares confirmaram logo aquela opinião.
À noite, o rei decidiu-se de súbito e disse a Mme du Barry:
– “Cumpre não recomeçar o escândalo de Metz. Devo-me a Deus e a meu povo. Assim, é preciso que vos retireis. Dizei ao Sr. d'Aiguillon que me venha falar amanhã, às dez horas.”
Houve consternação no clã da du Barry. A favorita partiu para Rueil, acompanhada de Mme d'Aiguillon.
No dia seguinte, o rei pedia o seu confessor, recebia os sacramentos e manifestava edificantes sentimentos de penitência. Seu fim foi lúcido e corajoso. Seu rosto coberto por crostas, inchado, deformado, cor de cobre, tinha o aspecto impressionante de uma máscara de bronze.
Quando estava nas últimas, os médicos não mais se opuseram a que se mandasse chamar os irmãos Sutton, célebres inoculadores ingleses. Mas estes declararam que era muito tarde para tentar qualquer coisa de útil e que, ademais, os médicos do rei o haviam matado infalivelmente no dia em que o sangraram duas vezes.
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| O Duque d' Aiguillon, o Delfim Luís e a Delfina |
Entrementes, o Delfim e a Delfina – aos quais, desde o primeiro dia, haviam interditado o quarto do rei, por temor ao contágio – esperavam, em retiro e recolhimento, o desenlace da enfermidade.
Quando houve certeza de que Luís XV estava perdido, decidiu-se que o Delfim, com todo o seu séquito, deixaria Versalhes por Choisy-Ie-Roi logo depois da morte, para não ficar num ar envenenado pelo mal.
Tudo foi preparado para essa partida rápida. Os cavalos estavam até arreados e, a fim de não se perder um minuto, combinou-se um sinal que os cocheiros poderiam ver das cavalariças.
Uma vela permanentemente acesa, detrás de uma janela, seria apagada no momento em que Luís XV exalasse o último suspiro.
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| A vela foi soprada. |
Foi a 10 de maio de 1774, às três horas e um quarto, que o Rei expirou e a vela foi soprada.
Gritos frenéticos de "Viva o rei!"
Quase ao mesmo tempo, abrindo a porta de par em par, o porteiro anunciou:
– “0 Rei está morto.”
Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.



















