1 de jan. de 2013

REVOLUÇÃO FRANCESA: 06b/17 // A varíola matou Luís XV


A Varíola matou Luís XV
Adendo 1

 A varíola matou quase 500 milhões de pessoas só no século XX.
A varíola não tem cura. A única medida eficaz é a vacinação.
Foi erradicada parcialmente, já que os EUA e a Rússia mantêm ainda em laboratório o vírus, como arma biológica.

Adulto infectado com varíola
     A varíola (também conhecida como bexiga) é uma doença infecto-contagiosa.

     É causada por um Orthopoxvirus, um dos maiores vírus que infectam os seres humanos, com cerca de 300 nanômetros de diâmetro, o que é suficientemente grande para ser visto como um ponto ao microscópio óptico.

     O único outro vírus que causa doença também visível desta forma é o vírus do molusco contagioso.

Edward Jenner descobriu
o vírus vaccinia e
desenvolvoveu a vacina.
(National Museum Tokyo)
     Edward Jenner em 1796 reparou que as mulheres que retiravam o leite às vacas não apanhavam varíola e descobriu que a sua imunidade devia-se à infecção não perigosa com cowpox (vaccinia ou varíola das vacas, da palavra em Latim para esse animal, vacca). Ele propagou a prática de usar para inoculação antes o vírus vaccinia descobrindo a vacina contra a varíola, a primeira vacina criada. Esse método de imunização ainda se denomina hoje vacina devido ao vírus vaccinia.

História

     Além do rei Luís XV da França que estamos enfocando nessa série de matérias, a varíola fez inúmeras outras vítimas famosas: Ramsés V, Faraó do Antigo Egipto; Shunzhi, Imperador da China; Maria II de Inglaterra; Pedro II da Rússia; Ludwig van Beethoven foi infectado mas sobreviveu; Isabel I de Inglaterra em 1562 e Abraham Lincoln em 1863 foram infectados mas sobreviveram; Josef Stalin; Hugo I, rei dos francos de 987 a 996; Ana de Cleves, rainha da Inglaterra; Carl Gustav Jakob Jacobi, famoso matemático; José, Príncipe do Brasil, irmão mais velho de João VI de Portugal; Date Masamune, general japonês das tropas de Oshuu no Período Sengoku foi infectado mas sobreviveu; Pedro I, Imperador do Brasil, Pedro IV de Portugal.

     A varíola sempre foi a causa de epidemias mortíferas. Ela teria surgido na Índia, sendo descrita na Ásia e na África desde antes da era cristã. Foi ela a responsável mais provável da epidemia misteriosa catastrófica que em Atenas matou um terço da população segundo Tucídides, no ano de 430 a.C., século de Péricles, o que iniciou o declínio dessa civilização democrática. A doença era anteriormente desconhecida (Hipócrates não descreve nada parecido), e desapareceu novamente a seguir.

Uma criança de Bangladesh
infectada com varíola em 1975
     A epidemia teria surgido de novo nos séculos II e III, matando grande proporção da população totalmente não imune do Império romano, como mais tarde faria na América, e sendo o fator principal do declínio dessa civilização.

     Segundo alguns autores conceituados (o historiador William McNeil entre outros) teria sido a queda da população de Roma e do seu império devido às doenças antes desconhecidas, como varíola, sarampo e varicela, que diminuíram a população do império ao ponto de leis serem decretadas determinando a hereditariedade das profissões, postos oficiais e redução à servidão dos agricultores antes livres, dando origem ao feudalismo.

     Nesta situação de debilidade, os povos germanos e outros teriam encontrado a oportunidade de se estabelecer nas terras quase vazias devido à epidemia no império, de início com a aquiescência dos oficiais romanos, desesperados com a queda dos rendimentos fiscais.

     Só depois desta época teria sido a varíola frequente na Europa, e naturalmente atingindo as crianças não imunes, ao contrário das epidemias raras, que matam os adultos. A infecção das crianças, com morte das susceptíveis mas imunidade para as sobreviventes, causa menos danos para uma civilização que a de adultos já ensinados, donde se explicam os graves problemas criados em Roma pela morte de adultos que não tinham encontrado a doença nas suas infâncias.

     Na China o panorama teria sido semelhante, e também aí caiu pela mesma altura o Império Han. Julga-se que estas doenças teriam sido importadas simultaneamente nessa altura da Índia (onde é adorada desde tempos imemoriais a Deusa da Varíola, Sitala) para as duas grandes civilizações dos extremos da Eurásia, e não será talvez coincidência que foi precisamente nos século I e século II que as rotas comerciais para a Índia e a rota da seda para a China foram estabelecidas pela primeira vez, ligando as três regiões com grande débito de mercadorias e comerciantes.

     A varíola foi uma das principais responsáveis pela destruição das populações nativas da América após a sua importação da Europa com Colombo.

     No Brasil foi primeiramente referenciada em 1563 na Ilha de Itaparica causando grande número de casos e óbitos, principalmente entre os indígenas.

     Juntamente com o Sarampo, Varicela e outras doenças, ela matou mais de 90% da população nativa do continente, derrotando e destruindo as civilizações Asteca e Inca.

     Acredita-se que a varíola tenha sido introduzida propositadamente na população nativa pelo exército de Hernán Cortés e Francisco Pizarro para derrotar as civilizações nativas da América Latina.

Adulto infectado com varíola
     No caso do Império Inca, a disseminação da varíola tinha se espalhado com extrema rapidez, ocasionando a morte do Inca (imperador) e dos seus sucessores imediatos, antes mesmo dos espanhóis chegarem aos Andes. A morte do inca e seus sucessores levaram o Império à guerra civil, permitindo aos espanhóis conquistá-lo em seguida.

     Na Inglaterra do século XVIII ela era responsável por cerca de 10% dos falecimentos, e mais de um terço em crianças.

     No início do século XVIII, práticas de inocular crianças com vírus vivo da varíola prevalentes na China e Médio Oriente foram importadas para a Europa, inicialmente mais para Inglaterra. Julga-se que foi a mulher do famoso Embaixador do Reino Unido que roubou os relevos do Partenon para o British Museum, a senhora Mary Montagu, que trouxe a nova técnica praticada no Império Otomano para o seu país.

     Para convencer os seus concidadãos, a própria família real inglesa foi inoculada publicamente. Recolhia-se pus de pústulas e com algodão introduzia-se numa pequena ferida. A mortalidade era de apenas 1%, já que o sistema imunitário tinha contacto mais cedo com o vírus e a sua resposta era mais vigorosa, muito melhor que o risco de apanhar varíola por contágio pulmonar, com mortalidade de quase 40%.

     Classificada como uma das enfermidades mais devastadoras da história da humanidade, a varíola foi considerada erradicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1980.

     A última epidemia na Europa foi na Iugoslávia em 1972, e o último caso conhecido ocorreu num homem do Sudão em 1977 (exceto um acidente de laboratório em 1978). Foi possível eliminar a varíola porque só os seres humanos lhe são hospedeiros, só há um serotipo (logo a imunização protege contra 100% dos casos), e a vaccinia é eficaz e como vírus vivo que invade ainda que debilmente células, provocando resposta imunitária vigorosa. Além disso a vacina é barata e estável.

     No entanto, a doença voltou às manchetes de jornal, em virtude da suposição de que ela possa ser utilizada como arma biológica. Em consequência desses temores todo o pessoal militar dos EUA foi vacinado, assim como o então presidente George W. Bush.

Epidemiologia

Criança infectada com varíola
     A varíola matou quase 500 milhões de pessoas só no século XX.

    O último caso registrado de varíola ocorreu na Somália em 1977 e o vírus hoje é guardado em dois centros governamentais bem vigiados, o Laboratório de Controle de Doenças (CDC) de Atlanta, EUA e pelo Instituto Vector em Novosibirsk, na Rússia.

     A OMS pede que as amostras sejam destruídas, mas há resistência de alguns cientistas contra esta decisão. Este sucesso de erradicação só foi naturalmente possível porque o único hospedeiro do vírus era o ser humano, pois o vírus é incapaz de infectar quaisquer outras células.

Progressão e sintomas

Sintomas da varíola
     Há dois tipos de varíola, a varíola maior (ou apenas varíola) e a varíola menor ou alastrim, com os mesmos sintomas mas muito mais moderados.

     O período de incubação é de cerca de doze dias. Os sintomas iniciais são semelhantes aos da gripe, com febre, mal-estar, mas depois surgem dores musculares, gástricas e vômitos violentos.

     Após infecção do trato respiratório, o vírus multiplica-se nas células e espalha-se primeiro para os órgãos linfáticos e depois via sanguínea para a pele, onde surgem as pústulas típicas, primeiro na boca, depois nos membros e de seguida generalizadas.

Diagnóstico e tratamento

     O diagnóstico se faz por análise pelo microscópio electrónico de líquido das pústulas. Os vírus são característicos e facilmente visíveis. A varíola não tem cura. A única medida eficaz é a vacinação.

     Foi erradicada – parcialmente, já que os EUA e a Rússia mantêm ainda em laboratório o vírus, como arma biológica – por um programa de vacinação promovido pela OMS na década de 1970.

     A vacina é baseada na administração de vírus vivo vaccinia (o nome vacina vem do nome deste vírus já que foi a primeira vacina), aparentado da varíola e que causa a doença varíola bovina no gado e em humanos que mantenham tenham contato com as feridas do animal. Último caso de Varíola foi em 1977 na Somália.