O Casamento e a Sagração de Luís XVI
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| Luís XIV o Grande, o Rei Sol (1638-1715), rei da França (1643-1715), filho de Luís XIII e de Ana da Áustria. Quando morreu, deixou uma França arruinada nas finanças. |
O ministério Étienne François, duque de Choiseul (primeiro-ministro de fato da França, enquanto homem da política austríaca), correspondendo ao estonteante sentimento de lassidão nacional, caracterizara-se por uma política de facilidades, sem grandeza, embora não sem habilidade, que se contrapunha à política de Luís XIV o Grande.
A palavra de ordem parecia ser, por toda parte, deixar que se falasse e agisse à vontade. Não reagir contra nenhum abuso, esquivar-se a todas as dificuldades, por uma política interna de tolerância, de displicência, de liberdade complacente para com os enciclopedistas e filósofos imbuídos de idéias novas, senão para com os jesuítas, que acabavam de ser expulsos do país, e por uma política externa de alianças com as grandes potencias que haviam sido inimigas tradicionais da França, em detrimento das pequenas nações, que até então a nação apoiara e protegera contra a cobiça dos vizinhos.
A paz, a paz a qualquer preço, a paz mesmo sem segurança, tal parecia ser a única preocupação do governo e o único objetivo da política adotada.
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| Duque de Choiseul (1719-1785) |
Mas havia, além desse lamentável abandono da influência e dignidade francesa no exterior, um grave motivo de inquietação e descontentamento no interior: era a questão financeira.
O excesso de impostos, a desordem das finanças, a penúria do Tesouro, tudo isso impressionava muito mais os espíritos e criava ainda maior número de descontentes do que a ma política exterior.
Falava-se de bancarrota quando o eclesiástico e político francês Joseph Marie Terray (1715-1778), a maior cabeça do Parlamento, foi elevado à superintendência-geral das finanças (inspetor-geral das Finanças), em dezembro de 1769. Esperava-se muito dele, mas ninguém, nessa matéria, pode realizar milagres. Terray recorreu a numerosos expedientes para equilibrar o erário, entre eles, o aumento dos impostos. Todo o plano do padre Terray consistia, modestamente, em equilibrar a despesa com a receita.
Pensava o padre poder fazer cortes em Versalhes – chamavam-se cortes naquele tempo, hoje se chamam economias; mas aqueles eram tão impraticáveis na época, como a realização destas hoje nos parece uma quimera.
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A cidade de Versalhes está dentro de dez a nove quilômetros a sudoeste de Paris, situada no departamento Yvelines e Île-de-France. Cidade artificial, criada a partir do zero com a vontade do rei Louis XIV, Versalhes foi sede do poder político da França (1682 a 1789), antes de se tornar o berço da Revolução Francesa. Depois de perder o seu estatuto como um royal cidade, ela se torna a capital de um departamento, o Seine-et-Oise, em 1790. É hoje uma cidade residencial e de serviços nas proximidades do subúrbio de Paris, mais conhecida pelo seu castelo, o famoso palácio de Versalhes, seus jardins, museus nacionais. Os seus habitantes são chamados versalheses.
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| Joseph Marie Terray |
Não podendo cortar as despesas da Corte, o padre Terray reduzira de um décimo o "coupon" das rendas e dos títulos reais (que chamaríamos atualmente Bônus do Tesouro), para desespero das pessoas humildes que tinham investido neles todas as suas economias. Os impostos foram também sistematicamente aumentados.
Estabelecera o Terray, entre outros, um imposto bastante impopular, de um soldo por libra, sobre todas as entradas de mercadorias, salvo a manteiga e os ovos.
– Tirais o dinheiro de nossos bolsos – diziam os pequenos rendeiros e contribuintes, furiosos por se verem assim espoliados.
– Donde diabo quereis que eu o tire? – respondia o Terray friamente.
Essas sangrias fiscais nunca são bem acolhidas. O povo as suportava com ainda maior dificuldade porque as dilapidações da Corte e as prodigalidades do rei às suas amantes continuavam a cavar um abismo, que os impostos, já excessivamente pesados, não chegavam a preencher.
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| Inácio de Loyola |
A Companhia de Jesus, cujos membros são conhecidos como jesuítas, é uma ordem religiosa fundada em 1534 por um grupo de estudantes da Universidade de Paris, liderados pelo basco Íñigo López de Loyola, conhecido posteriormente como Inácio de Loyola. A Ordem foi reconhecida por Bula papal em 1540. As cortes da França e da Espanha juntaram-se na pressão sobre o Papado para suprimir a Companhia, o que veio a ocorrer em 1773, sob o Papa Clemente XIV, através da bula Dominus ac Redemptor. Hoje em dia os Jesuítas formam a maior ordem religiosa da Igreja Católica, conhecida principalmente por seu trabalho missionário e educacional. Conta com 19.216 membros espalhados por 112 países e 6 continentes.
As Cortes iluministas da Europa opuseram-se aos ensinamentos e influência da Companhia de Jesus, tendo sido Portugal, por iniciativa do Marquês de Pombal o primeiro país de onde foram expulsos, em 1759, acusados pelo Ministro de estarem envolvidos na tentativa de regicídio (assassinato do rei) do ano anterior.
Amigo dos enciclopedistas, o duque de Choiseul influencia para que Luís XV atenda ao pedido do parlamento e suprima a Companhia de Jesus da França, em 1763-1764. Carlos III de Espanha, através da Pragmática Sanção (1767) também expulsou a ordem religiosa.
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| Mme de Pampadour |
A morte de Mme de Pompadour, em 1764, fizera supor, por um momento, que o reinado das favoritas acabara. Luís XV parecia alquebrado pelas desgraças sucessivas que lhe golpeavam a velhice melancólica.
Seu filho, o Delfim, morria em 1765, sua nora em 1767, e finalmente a rainha em 1768.
Mas em breve se vinha a saber que Luís XV tinha uma nova paixão e murmurava-se que era ainda mais escandalosa e mais indigna de um rei do que a anterior. Tratava-se, segundo era voz corrente, duma antiga empregada de loja, Mme Jeanne Bécu de Cantigny, futura Condessa du Barry, de virtude fácil, que muito dera que falar, e a seu respeito se compôs uma canção satírica intitulada “A aprendizagem duma caixeira de modas”.
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| Mme Jeanne Bécu de Cantigny, futura Condessa du Barry |
Mas a emoção chegou ao cúmulo quando se soube que Luís XV tinha o desígnio sem precedentes de impor à Corte, em apresentação oficial, uma rapariga de tão baixa categoria.
– “Não sou, porventura, senhor de minhas ações?” – dissera a Choiseul. – “Ela é bonita, e é quanto me basta!”
Mme du Barry foi apresentada, sozinha, por temor ao escândalo, em 22 de abril de 1769. Afora Mme de Béarn, que se encarregara do serviço, não houve nenhuma mulher na cerimônia.
"Isso fez enorme ruído" – escreve o Duque de Croy. Mas tão bela reserva não podia durar e houve logo algumas defecções. Quase ninguém ia visitá-la... Consolidado o seu poder, a du Barry em breve teve a seus pés toda uma corte de admiradores.
Choiseul, entretanto, não ocultara a sua desaprovação e até se permitira zombar cruelmente do objeto dos amores reais. Tornara-se o campeão dos anti du Barry e o pólo de atração de todos os que se escandalizavam com o procedimento de Luís XV. Sua popularidade era, assim, acrescida pelo descrédito em que incorria o monarca.
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| Maria Teresa da Áustria |
Ora, a posição de Choiseul, primeiro-ministro, parecia, no momento, mais forte do que nunca e, pode-se dizer, quase inabalável. Era o homem da política austríaca, e essa política ia receber brilhante consagração pelo casamento do Delfim Luís (1754-1793), neto do rei Luís XV e futuro Luís XVI, com a Arquiduquesa Maria Antonieta da Áustria (1755-1793), a filha mais nova (Maria Antonia) da Imperatriz Maria Teresa da Áustria (1740-1780), casamento de que Choiseul fora o principal fautor.
Delfim de França (dauphim) era o título do herdeiro aparente da Coroa francesa durante as dinastias Valois e Bourbon.
A jovem Delfina, antes mesmo de deixar Viena, era ansiosamente esperada pelos partidários de Choiseul, como aliada poderosa contra a influencia cada vez maior de Mme du Barry.
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| Com 15 anos de idade, Maria Antonieta casou-se por Procuração, em Viena, com Luís de Bourbon. |
Mal pusesse os pés na França, Maria Antonieta, sem o saber, ia tornar-se o instrumento das rivalidades odientas, dos cálculos interesseiros, dos orgulhos feridos, das ambições irrequietas, que dividiam os grupos mais influentes da Corte.
Menina de apenas quinze anos, estranha a língua francesa, aos costumes e a rígida etiqueta de Versalhes, cheia de inocente candura, sem mais orientação que os conselhos prodigalizados à sua partida pela ternura maternal apreensiva de Maria Teresa, ela seria atirada sozinha a esse ambiente difícil, à mais complexa e falsa situação que pudera imaginar, entre as insídias insuspeitadas duma Corte cujas intrigas sorrateiras ia inconscientemente servir ou contrariar.
Maria Antonieta, que personificava a imagem da aliança austríaca, chegava à França, por ironia do destino adverso, no momento preciso em que o obreiro dessa aliança sentia que já se lhe aproximava a hora da queda.
E, todavia, pela irradiação de sua graça ingênua e pelo encanto de sua juventude, pela candura com que desdenhava as habilidades e hipocrisias convencionais, ela ia operar o prodígio de reunir, a princípio, todos os sufrágios, de suscitar todos os entusiasmos, de fazer penetrar um pouco de ar puro naquela atmosfera viciada, de conquistar todos os corações e, se assim se pode dizer, de cristalizar em torno de si, todas as esperanças de melhores tempos.
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| Luís de Bourbon (1754-1793), Delfim de França e futuro Luís XVI |
Tinham-se realizado festas deslumbrantes em Viena quando de seu casamento por Procuração.
Mal grado a penúria do Tesouro, a Corte francesa pretendia ultrapassá-las em fausto.
"Não é todos os dias que o Delfim casa com a filha do imperador" – observa o Duque de Croy em suas Memórias, tão cheias de vida e de espirituosa sinceridade. "Entre três pessoas, gastamos vinte e duas mil libras em trajes, o que não é lá muito filosófico para um século que se preza de sê-Io”.
Por: Henry Robert (04-09-1863 – 12-05-1936). Membro Imortalizado da Academia Francesa, Cadeira 16, em 1923. Ex-Presidente da Ordem dos Advogados da França.
N. do Editor – Esta série de Matérias é resultante de uma adaptação complementada dos esboços de Henry Robert. Que ele queira aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a realização dessas Matérias Investigativas da História.










