ECONOMIA POLÍTICA – Sentenças da História – Estudos Investigativos
Parte 4
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Concepção Clássica de Capitalismo
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Concepção da Empresa Industrial e Comercial
O processo de Ford contra os irmãos Dodge tem isto de diferente: desmascara essa burla. É por isso que o cômico transparece nele constantemente. Este processo deveria ser tão famoso em Economia Política quanto o processo de Sócrates na Filosofia, ou o processo de Galileu na Astronomia.
Talvez o leitor me permita ainda, antes de deixar o assunto deste extraordinário processo de ortodoxia, continuar minhas reflexões sob forma imaginária. Vou supor agora que o advogado de Henry Ford tenha escrito, pontualmente, um diário. Eis o que ele poderia ter escrito, em a noite de 7 de fevereiro de 1919:
"Hoje perdi um processo. O maior processo de minha carreira de advogado. Estavam em jogo várias dezenas de milhões de dólares e o controle de uma das maiores indústrias do país (EUA). Eu defendia o Sr. Henry Ford, de Detroit. O juiz pronunciou a sentença contra nós. É claro, não gosto de perder um processo, sobretudo quando os interesses em jogo são enormes. Entretanto, não consigo definir os sentimentos que se apoderaram de mim esta noite. Não são de tristeza, e não me sinto, de forma nenhuma, como um vencido. Quanto a meu cliente, está radiante. Devo dizer que, durante todo o correr do processo, fez tudo quanto pôde para indispor o juiz. Se perdemos, foi sem dúvida por sua culpa. Mas, se tivesse ganho, não poderia ter ficado mais feliz do que ficou. Lembro-me das palavras de MONTAIGNE: ‘Também há perdas triunfantes, que fazem a inveja das vitórias’. Não se pode melhor descrever, em menos palavras, o que se passou hoje.”
"Se os historiadores se interessarem um dia por este processo, talvez achem que foi o processo mais extraordinário do século 20. Quanto a mim, que me desculpem; contudo, acho-o mais importante do que o Tratado de Versalhes que vai ser assinado este ano, e mais significativo para o espírito, mais realmente revolucionário que a Revolução de outubro de 1917 na Rússia. Para além das partes, era a própria sociedade que era acusada e se defendia. Ela nos condenou, mas tenho a certeza de que foi ela que finalmente perdeu o processo, e fomos nós os vencedores. Quer dizer que, a partir de hoje, a sociedade americana deve reconhecer que o capitalismo é um sistema econômico não só obsoleto, como absurdo, e que não lhe convém.”
"Pessoalmente, há muito que eu previa esta evolução, deveria dizer esta revolução. Li Heny Charles Carey, o grande economista americano, e acho que o Sr. Ford se limitou a levar ao tribunal as idéias de Carey, como as aplicou na indústria. Tentei, em vão, devo reconhecer, explicar ao juiz que a América não era mais uma colônia inglesa, que teríamos toda a vantagem em repudiar as idéias econômicas inglesas, como nossos antepassados lançaram ao mar o direito divino do rei da Inglaterra e a tirania do Parlamento. Hoje, quando a expansão marxista desta escola econômica triunfa na Rússia, parece-me que deveríamos melhor ver as conseqüências fatais do capitalismo.”
“A América tem muita sorte em haver inventado uma economia política original, que nada tem a ver com o capitalismo ou o marxismo, nem nada a dever. O juiz não quis entender.”
"O juiz estava particularmente indignado com o desprezo manifestado pelo Sr. Ford com relação ao dinheiro. A sua consciência capitalista foi ferida. Mas Henry Charles Carey não falava do dinheiro senão como Henry Ford.”
“Foi Carey quem disse: "o dinheiro é para a sociedade o que o combustível é para uma locomotiva, o que o alimento é para um organismo humano – a causa do movimento, de onde resulta a energia". E nada mais.”
“Estas palavras parecem-me profundas e muito americanas. O Sr. Ford tem exatamente a mesma idéia do dinheiro. Trata-se evidentemente de uma idéia anticapitalista na sua essência; e como não admitiria, se é verdadeira?”
“O juiz censurou muito ao Sr. Ford fazer passar Adam Smith, Ricardo, Karl Marx, por imbecis, mas não lhe ocorreu a idéia de que talvez, em economia política, eles sejam efetivamente imbecis, e talvez seja o Sr. Ford e seu mestre Carey quem tem razão e quem tem talento.”
"O que compreendi bem é que o Sr. Ford, magro como um caniço, tem, pelo capitalismo, o mesmo desprezo que sente pelas pessoas com a infelicidade de ser obesas. Para ele, acumular dinheiro pelo simples prazer de um gozo egoísta cada vez maior é tão estúpido como acumular alimento pelo prazer de comer sempre cada vez mais. Em tudo é preciso um limite.”
“Os médicos não proíbem comer, mas também não incentivam a obesidade. A justeza deste ponto de vista parece-me evidente. Lembro-me de ter lido, numa obra de um economista francês do Século XVII, Bois-Guillebert, um preceito segundo o qual era preciso "conter o dinheiro dentro de seus limites naturais". É o que Carey recomenda, e o Sr. Ford realiza muito bem. Para eles, evidente que o dinheiro não passa de um meio, sendo o serviço público o verdadeiro fim da empresa. É o que não lhes perdoam, do mesmo jeito como os obesos por excesso de alimentação odeiam as pessoas magras, que têm suficiente controle sobre si mesmo para permanecer com saúde e em boas condições físicas.”
"Em resumo, embora perdido por nós este processo, pareceu-me do maior interesse para o espírito e memorável. É verdadeiramente o processo do capitalismo, começado na América, e este processo não ficará por aí. A América empreende este processo de maneira muito mais radical do que fez Marx. Rejeita como falsas as leis pretensamente científicas da economia capitalista, e faz mais do que rejeitar: estabelece a prova, pelos fatos e na realidade, de que estas leis são falsas. É evidentemente escandaloso, tanto para um marxista que aceita estas leis de olhos fechados, quanto para um capitalista ortodoxo, como o nosso juiz, que as venera.”
"Vou dormir bem esta noite. Pode um advogado ter sorte maior do que, uma vez na vida, caber-lhe a honra de participar de um processo de ortodoxia em que aquele que perde tem a certeza de finalmente ganhar?"
Por: Raymond Léopold Bruckberger (1907-1998). Autor de La République Americaine , em 1958 (Images of América, em 1959). Em 1985, Bruckberger foi eleito Membro da Academia de Ciências Morais e Políticas (Académie des Sciences Morales et Politiques)







