ECONOMIA POLÍTICA – Sentenças da História – Estudos Investigativos
Parte 1
É imprescindível que Executivos e Universitários desejosos de compreender e implementar noções reais e fundamentais de Economia Política em Governos, Empresas e Universidades, saibam de cor os extraordinários diálogos capazes de detonar com os Enigmas dessa sentença judicial.
Concepção Clássica de Capitalismo
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Concepção da Empresa Industrial e Comercial
Houve vários processos retumbantes na vida de Henry Ford. Nenhum é mais informativo, do ponto de vista da nossa temática, do que aquele em que teve por adversários os dois irmãos Dodge (John Francis Dodge e Horace Elgin Dodge), fundadores da Dodge Veículos.
As convicções e o profetismo de Henry Ford são expressos nesse processo pelo próprio Henry Ford numa linguagem tanto mais impressionante quanto é desprovida de qualquer tom patético. Ele expõe a sua concepção da empresa industrial, em oposição aberta e em desafio constante à concepção clássica do capitalismo. Noutros termos, esse processo é essencialmente um processo de ortodoxia. Para além dos interesses em causa, e eram consideráveis, tratava-se antes de mais nada de saber quem era ortodoxo e quem era herético, quem tinha a verdadeira concepção da empresa e quem tinha uma concepção errada.
Eis os fatos. Em junho de 1903, a Ford Motor Company havia sido incorporada com um capital nominal de 100.000 dólares. As diversas contribuições em espécie e as patentes representavam quase os três quartos desse capital declarado. Somente 28.000 dólares foram efetivamente desembolsados. Das mil ações emitidas, couberam cinqüenta a cada um dos irmãos Dodge. Estas ações representavam o trabalho e as peças fornecidas a Ford pelas oficinas Dodge, mais 3.000 dólares em dinheiro.
Foi reorganizada a Companhia várias vezes, certos acionistas foram eliminados, o capital nominal aumentado, nunca, porém, com dinheiro vindo de fora. Em 1916, contava oito acionistas. Henry Ford detinha a maioria das ações.
Já em 1915 se avaliava que a Companhia Ford tinha feito ganhar aos irmãos Dodge 5.450.000 dólares, e, em 1916, lhes havia pago 1.200.000 em dividendos. Entretanto, os irmãos Dodge haviam por seu lado fundado outra Companhia automobilística, e contavam com os dividendos Ford para desenvolver seus negócios.
Por seu lado, Henry Ford só pensava em aumentar a própria produção, desenvolvendo a planta da Rouge, que devia ser a maior e mais bela usina do mundo. Precisava de dinheiro: como a idéia de reduzir os salários nem lhe passava pelo espírito, reduziu os dividendos na proporção de 10 para 1, o que, mesmo assim, perfazia a bonita quantia de dois milhões de dólares por mês para a totalidade dos dividendos. Os irmãos Dodge sentiram pânico. Houve processo. As duas vedetes foram Henry Ford e o advogado dos Dodge, isto é, Elliot G. Stevenson. Foi um caso memorável.
Para começar sua Companhia, Henry Ford havia precisado de dinheiro, quer dizer, de acionistas. Na época, em vista de seu pouco crédito, fora grande sorte para ele os encontrar. Uma professora de ensino primário de Detroit, irmã de James J. Couzens (senador dos EUA), hesitara muito tempo antes de investir todas as suas economias (200 ou 300 dólares) na Companhia Ford. Prudentemente, acabou por comprar uma só ação de 100 dólares. Esta única ação a enriqueceria, rendendo-lhe 335.000 dólares.
O que contrariava Ford em tal situação não era de forma nenhuma distribuir dividendos, mas ter de levar em conta, no governo de sua empresa, senão a opinião, pelos menos os interesses de pessoas que não tinham nenhuma responsabilidade de negócio e não perfilhavam de nenhum jeito as mesmas idéias que ele quanto ao modo de conduzi-lo.
Ford acabou por considerar os acionistas como parasitos. Verdade, até os leões têm parasitos, mas além de que é preciso que as pulgas não acabem por devorar o leão.
Ford, com sua intransigência puritana, não admitia que nenhuma pulga pudesse viver à custa de um leão. Era por conseguinte, antes de mais nada, a relação do chefe de empresa para com os acionistas o que estava em jogo: a quem pertence o controle da empresa?
Todavia, logo se levantou outra questão muito mais grave:
Qual é o objetivo essencial da empresa industrial e comercial?
Qual é o fim precípuo para o qual deve ser orientada?
Os irmãos Dodge, e Stevenson, seu advogado, representavam a posição capitalista tradicional e pretendiam que a empresa é, essencial e principalmente, orientada para o lucro, sempre para maior lucro, quer dizer, finalmente, para dividendos cada vez mais altos. Não ofereciam objeções a reconhecer que até então seus dividendos haviam sido bastante agradáveis - lovely dividends.
Henry Ford formava da indústria e dos negócios uma idéia inteiramente diferente, para não dizer oposta. Para ele, uma empresa industrial e comercial era, em primeiro lugar e antes de mais nada, um serviço público, do qual assim definia os fins:
"Permitir a grande número de pessoas a compra e uso (de um carro) e dar a grande número de homens trabalho e salários substanciais. Tais são os dois objetivos que tenho na vida".
Neste programa, não há lugar para o dinheiro e os lucros: veremos que Ford era sincero e que, para ele, dinheiro e lucros não são fins, sim meios da empresa.
"Ampliar as operações, melhorar a qualidade do artigo, tanto quanto possível fazermos nós mesmos a partilha, e reduzir o preço de custo, assim como o preço de venda”.
O lucro era o que lhe permitia continuar a fazer girar a usina, perseguir seu objetivo de expansão e de autarquia industrial; o lucro era ainda o sinal do êxito, a prova de que ele tinha razão e seus métodos eram bons.
“Ninguém acharia que eu tivesse tido êxito, se eu não houvesse conseguido ao mesmo tempo essas realizações e assegurar, entanto, bom lucro para mim mesmo e meus associados nos negócios".
Mas logo acrescentava, com uma solenidade que raiava pela insolência: "E seja-me permitido dizer, aqui, que não me parece devamos realizar tão monstruosos lucros com os nossos carros. Um lucro razoável está bem, mas não demasiado. É assim que a minha política foi reduzir, com todos os meus esforços o preço do carro à medida que a produção o permitia, e assegurar o benefício resultante para os clientes e os operários. O surpreendente no caso é que os benefícios para nós mesmos se tornaram enormes".
Tratar um lucro elevado, e conseqüentemente largos dividendos, de "monstruoso" (awful), quando os irmãos Dodge os achavam tão "atraentes" (lovely), era blasfemar contra Deus em seu templo, e é isso que não podia ser perdoado.
Esse foi o fundo do processo.
Por: Raymond Léopold Bruckberger (1907-1998). Sacerdote-monge dominicano francês, membro ativo da Resistência Francesa, escritor, tradutor, roteirista e diretor de cinema francês, diretor de Patrimônio da Áustria, autor de La République Americaine , em 1958 (Images of América, em 1959), e de dezenas de livros consagrados. Colaborador regular em L'Aurore e Le Figaro Magazine
Em 1985, Bruckberger foi eleito Membro da Academia de Ciências Morais e Políticas (Académie des Sciences Morales et Politiques).
Esta Série de Estudos Avançados (Sentenças da História, estudos investigativos) é resultante de uma adaptação complementada (ilustrada) do texto-capítulo de Bruckberger em “Images of América”. Queira ele aceitar nossos Agradecimentos pelo que tomamos emprestado para a apresentação do Processo de Ortodoxia (Ford x Dodge) aqui no Blog-ANE “Detonando com os Enigmas em Sentenças Judiciais”.







