30 de dez. de 2012

CAPITALISMO - 4 // Processo de Ortodoxia Ford X Dodge








ECONOMIA POLÍTICA – Sentenças da História – Estudos Investigativos

Parte 3
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Concepção Clássica de Capitalismo
X
Concepção da Empresa Industrial e Comercial

Timeline Ford
     Certa concepção da Economia Política se formava nos EUA, em oposição às tradições capitalistas ainda oficialmente mantidas pelo juiz. Os dois historiadores da Ford Motor Company dão mesmo a entender que o gosto pela popularidade inspirou a Ford a sua atitude durante o processo. Não sou dessa opinião. Ou pelo menos penso que, como todo predicador, Ford gostava de ter uma audiência. Mas o fato de que o público americano o tenha ouvido com tanto agrado prova até que ponto a nação estava pronta para a revolução anticapitalista que Ford na empresa definia.

     Se o juiz que condenou Henry Ford tivesse tido suficiente inteligência e cultura, se houvesse compreendido todas as implicações do processo e de sua própria sentença, eis o discurso que poderia ter dirigido ao "garoto levado" da indústria americana.
     Será desnecessário frisar que este discurso é, de minha parte, inteiramente imaginado, mas creio que exprime com bastante fidelidade a situação respectiva do acusado e do juiz. Imagino, ainda, que esse juiz teria proferido esse discurso em tom paternal, freqüentemente empregado por juiz de idade avançada para com jovem delinqüente, a quem deseja dar oportunidade de se reabilitar aos olhos da sociedade. Eis o discurso:

Henry Ford e o Quadricycle w-herry
     "Eu o condenei, Sr. Henry Ford, porque era de meu dever e porque represento aqui uma sociedade capitalista burguesa, da qual não somente há violado as leis, como ainda, o que é infinitamente mais grave, tem atacado a ortodoxia. Se me é permitido revelar meus sentimentos pessoais, direi que o meu veredicto não foi inspirado por nenhuma animosidade. Muito ao contrário, aprecio o senhor, e aprecio-o muito. Para dizer a verdade, sinto-me constrangido por ter de condenar o senhor. Por um lado, como esquecer que o senhor já é um homem rico, em vias de tornar-se um homem fabulosamente rico, um dos homens mais ricos do mundo? Por conseguinte, como não apreciá-lo? Suguei o amor ao dinheiro junto com o leite materno. Mas a vocação de juiz numa sociedade capitalista só me confirmou neste amor. Represento com orgulho uma sociedade baseada no lucro, e os seus lucros são enormes, Sr. Ford, enormes. Queira notar que digo "enormes". Não tolero que lhes chamem "monstruosos". Estamos quase chegando ao centro da querela, Sr. Ford, de sua disputa com a sociedade capitalista burguesa. Aprecio o senhor, mas não posso ter respeito pelo senhor.”

     "Confesso que meu caso é trágico. Na minha idade, já não me julgava destinado a desempenhar o papel de um desses heróis de teatro, tomados entre o amor e o dever, e que não podem respeitar inteiramente o objeto de uma paixão fatal. O meu caso é corneliano, e isso parece que o deixa profundamente indiferente. Vou ainda mais longe: aqui, neste tribunal, onde sou juiz, os papéis parecem-me invertidos. De um lado, não posso deixar de apreciar o senhor por causa de seu dinheiro, e, de outro lado, sinto-me infinitamente culpado de estimar um homem que tem tão pouca veneração pelo dinheiro. Na realidade, sinto-me infinitamente mais culpado do que o senhor parece sentir-se culpado. O senhor não reconhece seus erros, Sr. Ford; manifesta em suas palavras o orgulho de uma consciência endurecida e de um pecador sem remorso. Em sua opinião sou eu que laboro em erro, eu, quer dizer, a lei, e esta sociedade capitalista que represento e é de meu dever proteger”.

Adam Smith
     "Não quero humilhar sem necessidade um homem tão rico quanto o senhor. Mas enfim, Sr. Ford, que conhece o senhor das leis da mais sã Economia? Queira ter pelo menos a modéstia da sua ignorância. Talvez até nunca tenha ouvido falar do Sr. Adam Smith. Vou por conseguinte dizer-lhe quem era ele. O Sr. Adam Smith era um intelectual inglês, um professor, Sr. Ford, que escreveu um livro admirável, do qual lhe recomendo a leitura, e se chama The Wealth of Nations. Neste livro, o Sr. Adam Smith definiu perfeitamente, e para sempre, as leis de uma sã Economia, que o senhor parece ignorar. Ora, para o Sr. Adam Smith, o projeto, a finalidade suprema da Economia Política, é aumentar continuamente a riqueza e o poder que dá a riqueza, e não há como sair daí. Aumento contínuo da riqueza, isso não é mais do que a acumulação dos lucros. Nesta definição clássica, o Sr. Adam Smith, que sabe o que diz, tem todo o cuidado em não falar dos operários e de seus salários ou do interesse dos consumidores, e em fazer todo o bem possível, em toda parte onde for possível, a todas as pessoas a quem for possível. Tudo isso são idéias de poeta."

David Ricardo
     "E o Sr. David Ricardo, já ouviu falar do Sr. Ricardo? Os delinqüentes que nos mandam hoje têm realmente muito pouca instrução, é uma lástima. O Sr. Ricardo era um banqueiro de Londres, fez um casamento vantajoso e escreveu livros que fazem lei. É preciso ver como fala do salário dos operários. Numa sã Economia, é preciso reduzir os salários o mais possível, como se reduz o preço de custo dos chapéus ou de qualquer outra mercadoria. E tudo quanto sobra é lucro, isto é, dividendos; e tudo está bem assim!”

     "Pense, Sr. Ford, que, para todo inglês em seu perfeito juízo, a autoridade dos Srs. Smith e Ricardo é tão sagrada quanto a peruca do Lord Mayor de Londres. E é porque os ingleses aplicaram, sem medo e sem dó, estas leis dos Srs. Smith e Ricardo, que a rainha Vitória reinou sobre a nação mais rica e o império mais próspero do mundo. Como se poderiam ignorar tais êxitos e quem é o senhor para se opor a todos eles? Não receia tão grande solidão?”

Karl Marx
     "Mesmo um homem como o Sr. Karl Marx (intelectual alemão, esse) reconheceu o gênio dos Srs. Smith e Ricardo e a validade científica de seu sistema. Que estou eu dizendo; reconheceu? Fez desse sistema a base de seu próprio sistema. Note que não gosto nada do Sr. Karl Marx, que viveu em Londres uma vida miserável e cujas obras considero como muito perigosas para a sociedade. Tenho até vergonha de pronunciar seu nome neste recinto. Porque era um revolucionário e pretendia que o sistema capitalista dos Srs. Smith e Ricardo devia um dia transformar-se em seu contrário, como uma lagarta se transforma em borboleta. Ele também tinha suas idéias de poeta, e dessa parte não vou falar. Mas, enfim, por muito revolucionário que fosse, reconhecia-se o discípulo e continuador dos Srs. Smith e Ricardo. Ora, Sr. Ford, ainda tenho mais vergonha pelo senhor do que por Marx, porque o senhor nem sequer respeita os mestres que ele respeitava, e parece-me que o senhor é infinitamente mais revolucionário do que ele foi”.

The Wealth of Nations
     "Vou precisar ainda mais meu propósito. O Sr. Adam Smith, nosso Mestre, enunciou a seguinte lei, que sabia ser científica, e que é aceita como tal pelos Srs. Ricardo e Marx: Se os salários forem elevados ou diminuídos, os preços serão do mesmo passo elevado ou diminuído! Espero que esta lei seja suficientemente clara para que o senhor a compreenda. De acordo com a ortodoxia capitalista, da qual o Sr. Adam Smith é o doutor incontestado, sobre a qual a nossa sociedade se baseia, e represento aqui, só há um meio de baixar o preço de venda do produto, é baixar ao mesmo tempo os salários, ou os lucros, ou os dois ao mesmo tempo. Como não se pode razoavelmente exigir de um capitalista, cujo fim é enriquecer-se, que abaixe o lucro, se esse capitalista quiser, de um lado baixar os preços para atender à concorrência, do outro manter e aumentar seu lucro, constitui fatalmente uma necessidade científica reduzir os salários, reduzindo-os cada vez mais ao que se chama o ‘mínimo vital’, porque sempre é preciso que os operários vivam e se reproduzam, para não secar a fonte desta mercadoria que se chama o trabalho. Este estado de coisas é como é. Reconheço que se resume em dizer que só é possível enriquecer a custa dos pobres. O Sr. Ricardo congratula-se com isso. O Sr. Karl Marx lamenta-o. Pelo menos, ambos reconhecem a necessidade científica deste estado de coisas, que ele está na base da nossa sociedade capitalista.”

Proletários (nos EUA)
     "O senhor, Sr. Ford, o senhor só, com toda a sua audácia de ignorante, ousa pisar na lei de Adam Smith. Pretende ao mesmo tempo baixar os preços e elevar os salários, e cumpre o que diz. A conseqüência, pela lei, é que deveria estar arruinado. Em vez disso, seus lucros aumentam continuamente. O senhor transtorna todo o sistema capitalista, Sr. Ford, o senhor o revoluciona até o âmago. É o mesmo que andar com as mãos no chão e os pés no ar. E o senhor pretende que pode enriquecer, não através do empobrecimento dos pobres, mas, ao contrário, enriquecendo-os. O senhor anda de pernas para o ar, acredite o que lhe digo. Porém o escândalo dos escândalos é que isso lhe traz êxito. Contudo, estou-me deixando levar pela minha indignação, ao invés de lhe explicar as conseqüências de sua loucura. Queira perdoar.”

Henry Ford e a marca de carros
vendidos (24-04-1931)
     "Uma empresa, Sr. Ford, e em geral toda organização econômica e social, define-se por sua finalidade. Se lhe mudar os objetivos, estará mudando do mesmo passo sua natureza. Ora, o senhor muda os objetivos da empresa industrial e comercial; por conseguinte, muda-lhe a natureza. A sua empresa já não é mais capitalista, pelo menos conforme a tradição oficial definida pelos Srs. Smith e Ricardo, reconhecida e visada pelo Sr. Karl Marx. E se o senhor não é capitalista, rico como é, então gostaria de saber o que é. O que mais lhe censuro é baralhar todas as minhas idéias, de que não tem o direito.”

     "O senhor teve uma frase infeliz, Sr. Ford, uma frase extremamente infeliz, para não dizer perniciosa. Atreveu-se a proferir que, para o senhor, o dinheiro não passa de um elemento como tantos outros na cadeia da produção, ‘a part in the conveyor line’, como o carvão, ou o minério, ou uma de suas numerosas máquinas. Mas, no sistema capitalista, o lucro, enfim, o dinheiro, é o objetivo supremo, quase diria o ídolo. Ao contrário, os salários, e os próprios operários, não passam de um elemento na cadeia da produção, como o carvão ou o minério. Eis que vem o senhor, e transtorna tudo. Não considera os lucros num plano mais elevado que uma reserva de carvão que lhe permite fazer girar suas usinas e, pelo contrário, considera a alta dos salários como um dos objetivos essenciais da indústria.”

Editorial sobre Henry Ford
     "Desse modo, o senhor chega a uma conseqüência social extrema que considero altamente revolucionária. O senhor modifica radicalmente a condição operária. O sistema capitalista ortodoxo tem o maior cuidado em reduzir e manter o operário no ‘mínimo vital’, ao que o Sr. Karl Marx chama, com toda a propriedade, a condição de proletário.”

     “Ao dobrar os salários de seus operários, Sr. Ford, o senhor arruinou pela base esta condição proletária, pôs em perigo a própria base do sistema capitalista."

     "Dá o senhor a seus operários muito mais do que o ‘mínimo vital’; dá-lhes um poder de compra do qual podem dispor livremente, dá-lhes direito de cidadania no mercado, confere-lhes a dignidade de cliente e de consumidor, quando não eram, até o senhor aparecer, senão mercadoria a mais nesse mercado, como qualquer outra, da qual se dispõe, mas que não dispõe de si própria.”

Propaganda da Ford
     "Resumo e classifico minha acusação:”

         "1º – O senhor baixa sistemàticamente o preço de venda do produto fabricado e eleva ao mesmo tempo os salários dos operários.”

         "2º – Faz passar o produto fabricado da categoria luxo à categoria popular e de primeira necessidade.”

         "3º – Faz passar o operário e seu trabalho da categoria de mercadoria à categoria de cliente e consumidor.”

         "4º – Com isso, faz passar os Srs. Smith e Ricardo por imbecis, e vai até mais longe, corta as vagas ao Sr. Karl Marx, cuja teoria revolucionária se baseia toda ela no fato de que, em regime capitalista, nunca, mas nunca, o operário pode elevar-se acima do ‘mínimo vital’ e passar à dignidade de cliente.”

Prédio da Ford
     "Não ria, Sr. Ford, o senhor deveria ter vergonha. O senhor é um herético e o pior dos heréticos. Não só nega o dogma, o dogma capitalista conforme o evangelho de Adam Smith e de Ricardo, mas cobre-o de ridículo, porque sou obrigado a confessar, apesar de tudo, que o senhor enriquece imensamente e sem parar, o que é o fim supremo do capitalista. O senhor enriquece até sem querer e brincando, o que é o sonho do capitalista. Enriquece quando deveria beirar a ruína. Se não vivêssemos num século esclarecido que baniu toda superstição, eu me perguntaria se não há algum bruxedo nisso; e se o senhor não fosse tão rico, Sr. Ford, como teria prazer em mandá-lo para a cadeia!”
     "Note bem que, de acordo com a ortodoxia capitalista que aqui represento e em nome da qual o condenei, a sua fortuna, por muito grande que seja, é adquirida por meios ilícitos, visto que o senhor a conseguiu enriquecendo os pobres em vez de empobrecê-los cada vez mais; e o senhor dela faz uso ilegítimo, pois pretende dela fazer beneficiar todos, em vez de guardá-la zelosamente para si próprio. A sua fortuna não é legítima, porquanto o senhor viola a verdadeira lei do enriquecimento. Despeço-me do senhor com estas palavras irrefutáveis que os generais austríacos disseram a Napoleão que os havia vencido: ‘Todas as suas vitórias são nulas, porque são ganhas contra o regulamento militar’.”

Henry Ford e a Evolução da Ford
     A Economia Política é assunto tão austero, que devo pedir desculpas ao leitor por ter-me alongado tanto numa situação jocosa. Todavia, esta situação só é divertida, como as situações de Moliere, porque encobre e revela ao mesmo tempo uma burla enorme. Na linha de Adam Smith, Ricardo e Karl Marx, a Economia Política parece tão fabulosa e mitológica quanto a alquimia medieval.

     Por: Raymond Léopold Bruckberger (1907-1998). Autor de La République Americaine, em 1958 (Images of América, em 1959). Em 1985, Bruckberger foi eleito Membro da Academia de Ciências Morais e Políticas (Académie des Sciences Morales et Politiques)