30 de dez. de 2012

CAPITALISMO - 3 // Processo de Ortodoxia Ford X Dodge








ECONOMIA POLÍTICA – Sentenças da História – Estudos Investigativos

Parte 2
Concepção Clássica de Capitalismo
X
Concepção da Empresa Industrial e Comercial

Henry Ford, fazendo a história da
indústria automobilística mundial

     Tratar um lucro elevado, e conseqüentemente largos dividendos, de "monstruoso" (awful), quando os irmãos Dodge os achavam tão "atraentes" (lovely), era blasfemar contra Deus em seu templo, e é isso que não podia ser perdoado.

     Esse foi o fundo do processo.

     E tivemos o seguinte diálogo, em que duas concepções se defrontavam, com a implacável intransigência de ortodoxias incompatíveis:

     Stevenson - Agora, vou fazer-lhe a pergunta; continua com a opinião de que esses lucros eram "lucros monstruosos"?

Henry Ford e Thomas Edison
     Ford - Sim, acho que sim. Definitivamente, sim.

     Stevenson - E é essa a razão pela qual não estava satisfeito por continuar a ter tão monstruosos lucros?

     Ford - Aparentemente, não somos capazes de manter os lucros em níveis baixos.

     Stevenson - Tem-se esforçado por manter esse nível baixo? Para que está organizada a Ford Motor Company, se não para dar lucros, quer informar, Sr. Ford?

     Ford - Ela está organizada para fazer tanto bem quanto pudermos, em toda parte, para quem quer que por ela se interesse. Para ajudar o mais possível quem quer que dela necessite... Para fazer dinheiro e investi-lo, para dar trabalho, para entregar os carros onde as pessoas deles precisam. .. e, acessoriamente (incidentally), para fazer dinheiro.

Evolução dos Logotipos da Ford
     Stevenson - "Acessoriamente" para fazer dinheiro?

     Ford - Sim, senhor.

     Stevenson - Mas o que para Vossa Senhora define e justifica a empresa... é dar a grande exército de operários trabalho e salários altos, reduzir o preço de venda de seu automóvel, de tal maneira que muitas pessoas possam comprá-lo por baixo custo, e a quem quer que deseje um carro poder dar-lho?

     Ford - A quem der tudo isso, o dinheiro lhe choverá nas mãos; não conseguirá desembaraçar-se dele.

The Henry Ford Museum
     Em todas as universidades do mundo, todos os jovens que desejam aprender algumas noções de Economia Política deveriam saber de cor este extraordinário diálogo. Para a Economia, ele é tão importante quanto a Declaração da Independência em política. Exprime, como esta, uma espécie de revolução de Copérnico.
     A empresa não gira mais em volta de dinheiro, é o dinheiro que passa a ser um planeta da empresa; mas a própria empresa está a serviço do homem. Como a Medicina está a serviço do homem. Esse diálogo fantástico é tão importante, para aqueles que entram nos negócios, quanto o juramento de Hipócrates para os médicos.
     Os dois historiadores da Companhia Ford, Allan Nevins e Frank E. Hill, fazem notar, com razão, que, no processo entre Ford e os irmãos Dodge, um compromisso era impossível; e Ford, do ponto de vista jurídico, teria reforçado consideravelmente a sua posição consentindo em dizer:

Usina do Rouge da Ford
     "A nossa política visa, toda ela, em última análise, ao interesse dos acionistas. A expansão é somente uma necessidade da empresa. Com o correr do tempo, esta expansão será imensamente proveitosa à Companhia (como os fatos o provaram em seguida). A criação de novos empregos e redução do preço dos carros é acessória (incidental). Quanto aos dividendos, já retomamos o pagamento de dividendos especiais, e, assim que a situação da Companhia o permitir, nós os aumentaremos".

     Mas esse processo dava a Ford, profeta e apóstolo, exatamente o foro para fazer ressoar a sua convicção. Que lhe importava perder um processo? Ter-se-ia deixado esfolar pela sua convicção. Pedir-lhe que reconhecesse, de um lado que os lucros e os dividendos eram o objetivo primeiro e principal da empresa, e de outro que a criação de novos empregos com salários elevados, juntamente com o abaixamento do preço de venda do produto manufaturado, não era senão o objetivo secundário e acessório, era o mesmo que pedir a um cristão uma profissão de fé muçulmana, ou a um médico confessar que o coração se encontra à direita. Como esperar de um homem que se renegue a esse ponto? Tal compromisso teria desonrado Henry Ford aos próprios olhos. Não era de seu feitio.

Poder Judiciário dos EUA
     Como era de esperar, perdeu o processo. O juiz tomou o partido do "atrativo" dos lucros contra sua "monstruosidade".

     A sentença do juiz merece ser meditada: emprega linguagem tão clara quanto a de Ford:

A Sentença
     "Uma empresa de negócios é organizada e dirigida, em primeiro lugar e primeiramente, para o lucro dos acionistas. Os poderes dos diretores são empregados para esse fim... e não pode estender-se até mudar o próprio fim da empresa, ou reduzir os lucros, os reter os lucros destinados aos acionistas para consagrá-los a outro emprego dos dividendos”.

     Bendito seja esse juiz. Benditos sejam os irmãos Dodge e seu advogado. Bendito seja esse processo, e a condenação.

Henry Ford: inventor da
Linha de Montagem
     Parece-me impossível doravante criar ilusões sobre a verdadeira natureza da economia americana: conforme tenha seguido o juiz ou Henry Ford, ela é capitalista ou anticapitalista. Não se pode ser, ao mesmo tempo, por Henry Ford e pelo juiz.
     Um dos exercícios, que deveriam ser mais praticados nas universidades americanas, seria o de refazer o processo de Ford e ver se hoje, no estado atual das leis e dos costumes americanos, ele seria ainda condenado. Duvido que fosse.
     Na realidade e de imediato, tal como aconteceu com Galileu, ele não perdeu inteiramente o processo. Em primeiro lugar, evidentemente, a sentença não lhe alterou as idéias.

Usina do Rouge da Ford
     "Devo conduzir meu negócio (falou Ford) em bases que me parecem sólidas e justas. Não posso proceder de outra forma".

     Em seguida, só a ameaça de que largaria a Companhia, deixando-a periclitar, para fundar outra sem acionistas, levou todos os acionistas a venderem-lhe a sua parte. Os irmãos Dodge receberam vinte e cinco milhões de dólares. Conta-se que Ford chegou a dançar de alegria. Ia marchar daí por diante para a expansão, da expansão para a autarquia, da autarquia para a autocracia. É preciso observar, em sua defesa, que não lhe haviam deixado escolha. Sozinho em suas opiniões, tinha, além disso, razão, como imensa fortuna veio, mais tarde, prová-lo aos olhos de todos.
     Mas o mais importante, para nossa temática, é que Henry Ford ganhou o seu processo logo na mesma ocasião perante a opinião pública, e é aí que se pode ver quanto essa opinião pública estava, como o próprio Ford, impregnada das idéias de Henry Charles Carey.

     Por: Raymond Léopold Bruckberger (1907-1998). Autor de La République Americaine, em 1958 (Images of América, em 1959). Em 1985, Bruckberger foi eleito Membro da Academia de Ciências Morais e Políticas (Académie des Sciences Morales et Politiques).